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Sexagésimo sétimo dia - clear cut


A carrinha do empreiteiro teve um furo e roubaram-me a lona do carro, logo na primeira vez que a deixei sobre o carro. Aposto que foi o mesmo gajo.

Sem empreiteiro (e sem lona), sobrou-me o dia para o pinhal. E eu, feliz da vida. Motosserra, serra de podas, e cá vou eu. Até a motosserra encharcar (outra vez) cortei mais alguns pinheiros mal-nascidos e desmanchei essas e outras árvores já cortadas. A ideia de que o solo é pobre e que por isso os pinhos são tortinhos já era, e foi o Hugo a deslindar o mistério: durante anos os pinheiros do meu avô eram os únicos do monte, e levavam em cheio com o vento. Elás, nasceram e cresceram tortos. Os 'clear cuts', para além de todos os outros malefícios, tem mais esta desvantagem.

Cravei o almoço à Alcina. É quase pecado pôr a cozinhar para mim uma senhora que quase não se aguenta em pé, mas compensei-os substituindo parte das telhas partidas do telhado da casa velha.

A Clementina veio dizer-me que eu, em vez de fazer só dois quartos devia fazer três, usando a sala para isso. O tio Amílcar concorda.

A carqueja está florida. O contraste é forte: a planta é rija, pica; a flor é dum amarelo vivo, fofa. Ontem vi um coelho e uma raposa e hoje uma perdiz. Parece um dinossaurio em fuga, com o seu pescoço longilíneo.

Vigésimo terceiro dia - ganhotos

dia-a-dia: é uma casa trasmontana com certeza

Chega às duas e acaba a capacidade de trabalho. Consegui desfazer um monte de lenha da gingeira e da amendoeira seca (hoje cortei-lhe os ramos - quando comprar a motosserra corto-lhe o tronco) e desisti de trabalhar mais. Ainda tentei um ou outro empreendimento. Em vão. As forças já eram.

as exéquias para o funeral

O dia começou com o típico momento National Geographic (infelizmente, sem David Attenborough). Parei o carro, ainda um pouco ensonado, para deixar passar a família Galaró (uma garbosa perdiz seguida de nove ou dez perdigotos). O caos instalou-se. A perdiz numa berma, a confrontar-me, e os perdigotos, um a um, a desaparecerem num arbusto à esquerda. Também à esquerda, um pouco mais perto do carro, uma cobra saltou. Em pânico, pensei eu na altura. A abocanhar meia dúzia de perdigotos, sei-o agora.

A Fidalga recebeu novo carregamento de comida. A anterior já tinha acabado e não sei quanto tempo esteve ela sem comer. A primeira gamela foi num piscar de olhos. À hora do almoço, como boa cadela que é, fez-me companhia enquanto eu comia.

a minha cadela

Percebi finalmente o que são os ganhotos. Os pedreiros chamam-no a tudo o que não é xisto, normalmente pedras maiores de mais perfeitas, como as de quartzo.

Não sei se é sol de pouca dura mas consegui finalmente uma confirmação mais definitiva dos pedreiros de que tentariam usar as pedras originais na reconstrução da porta. Já antes, por mais de uma vez, me confirmaram que sim, era possível reintroduzir as pedras, que era questão de encontrá-las, etc. Hoje voltaram com outra lenga-lenga: que era muito complicado, que faltavam pedras, que a ombreira não tinha altura, que lhe faltava a esquina para o encaixe da porta, que a soleira era muito larga para o espaço disponível. Fui ver. A soleira era, de facto, muito larga - 2 metros para um vão de 1,4 metros. Recorta-se com a rebarbadeira a parte interior e, senhor António, não ponha essa pedra aí. Essa mesmo. Não a ponha que fica a mais. A esquina para a a porta? Está aqui, esta é uma das ombreiras, está aqui por baixo a esquina. É muito baixa? Colocam-se estas ombreiras sobre a soleira e depois colocam-se pedras extra para acertar com os 2 metros. Sim, nem que se comprem as pedras. E, assim, resolveu-se a questão. Para já.

a soleira original da casa da tia Baldo

Há uns minutos a Fernanda largou a lide para, dizia ela, levar a 'Sagrada Família' à vizinha. Ó vizinha, tenho aqui a santinha! A tradição dita que todos os dias a 'santinha' migre para a casa seguinte, como uma devoção em movimento. A sorte da Fernanda é morar rodeada de casas. A vizinha da última casa tem de levar a 'santinha' até à Portela. O que para uma velhota, durante o verão, não é caminhada fácil.

as malfadadas larechas