Mostrar mensagens com a etiqueta piso de terra batida. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta piso de terra batida. Mostrar todas as mensagens

Centésimo décimo nono dia - caranguejo

Começo a duvidar seriamente das capacidades do picheleiro. Pedi-lhe para tratar da fuga durante o fim de semana. Veio ontem. Quando cheguei à obra, hoje, depois do almoço, liguei a água para testar a eficácia do conserto. Percebi na hora que o problema estava por resolver - a rodinha do contador girava e o saibro logo voltou a encharcar-se. Aproveitei a presença dos eletricistas e pedi-lhes para soltarem a tomada embutida, para que se pudesse levantar a tábua que tapava o furo. O interior da tomada estava encharcada, assim como todo o espaço sob a tábua. Mexi na maralhada de tubos e percebi que era ali o problema. De tanto se mexer nos tubos da água (é das zonas da casa com mais confusão de tubos e canudos), uma das ligações soltou-se, e daí fugia a água.


malfadado furo

Pela minha parte, de volta ao chão. Ainda não consegui alguém que trabalhe à geira e possa ajudar-me. A casa já está ligada à rede elétrica. Quando cheguei, o Amílcar, não sei se da leitura dos jornais, questionava-se se existirá solução para os problemas do país. Não será concerteza com a austeridade da troica, assevera. Encontrei o Luís e a Clementina à entrada de Martim Tirado. Vinham da feira de Mogadouro.

os elétricos em operação
Ao limpar os cacos da tragédia da outra semana surgiu-me isto:

não fujas aranhinha

Costeiro que sou, pensei que fosse um caranguejo.

Centésimo décimo oitavo dia - infiltração

O picheleiro voltou de manhã para acabar o serviço. A bomba de calor ficou presa à parede, igual para os lavatórios. Falei-lhe do episódio do tubo de gás, e do meu medo de igual azares para os tubos da água e da luz. Tentou tranquilizar-me apontando para o contador: se a água está a correr vê-se a bolinha a girar. Olhei com algum cuidado. Nada parecia mexer-se.

Durante o dia continuei a trabalhar na sala. O processo é muito lento e cansativo, e estou sempre a sentar-me e a levantar-me, seja para mudar de caixa seja para ir buscar mais barro. Com o barro húmido é mais fácil um bom acabamento, se bem que o espalhar do barro na caixa, antes de usar a palustra, é mais complicado.

começando o barro

Ao fim da tarde surgiu a notícia previsível. Duas caixas de saibro estavam molhadas, sinal de fuga de água. Ainda pensei teria sido um problema semelhante ao do gás mas logo concluí que a água vinha da ligação ao autoclismo, que infiltrou água na parede, e dá para o chão. Cortei a água, telefonei ao picheleiro e fiquei a rezar para que seja só isso.

*!?

Ao ver os abelharucos pelo ar a tia Alcina chamou-os pelo nome verdadeiro: pitas-barranqueiras. Diz que quando se vêm no ar, lá no alto, que se sabe que aí vem vento.

Centésimo décimo sétimo dia - Púlpado

Dia agitado. O picheleiro levou o dia a montar sanitários. Volta amanhã para acabar. Eu passei a manhã às voltas entre Freixo e Moncorvo. Os homens da Câmara ligaram o ramal da água e o contador pouco depois do almoço. A casa já tem água, mas não tive coragem de a ligar. Amanhã testa-se.


sanitários

Deixei de ontem para hoje alguns retângulos com a primeira camada de barro a secar. Crivei algum barro e comecei a segunda camada, tendo o cuidado de molhar o barro que já estava colocado antes, que de ontem para hoje secou demais. A técnica, que consiste em aplicar o barro bem húmido e afagá-lo com uma palustra é demorado e intrincado. Neste momento sinto que não vou ter tempo de acabar o chão a tempo e horas sozinho, mas logo se vê.

começando o barro

Na semana passada vi o Amílcar a ler a Bola. Então tio Amílcar, não sabia que gostava de futebol. Olhe que é coisa a que não ligo nadinha. O Amílcar lia a Bola porque não tinha mais nada para ler. O genro, esse sim leitor assíduo, fazia questão de comprar o jornal todos os dias, e eram os jornais comprados durante a estadia do genro que o Amílcar ia lendo. Nem pensei duas vezes. Os jornais que vou lendo ou ficam no metro ou vão parar à reciclagem. Passei a deixá-los ao Amílcar, e dá gosto vê-lo a ele e à Clementina, de óculos postos, a virar cada página com tempo e atenção.

Passadas as sete, deixei o trabalho para trás e fui dar a habitual volta ao Púlpado com a Fidalga e o seu bravo escudeiro, o Trovão. Levei a máquina, antecipando os contrastes que o pôr do sol traria. Comi tantas amoras que nem quis jantar.

a caminho do Púlpado

O vento bule na copa dos pinheiros. Já se sente o frio.

Centésimo décimo sexto dia - barro

Como na semana passada, saí do Porto pelas nove. Não havendo gente na obra e mantendo-se o cansaço, não há pressa de voltar.


Pus-me na obra pouco depois das três. Depois de um rápido telefonema inquiridor, voltei à carga no barro. O quadradinho que deixei feito sábado passado soava a oco. O erro foi não ter molhado o saibro antes de aplicar o barro. Comecei no canto da sala, junto à salamandra. De início usei a misturadora emprestada para juntar o barro com a água num balde, mas logo a mandei às urtigas e voltei à fiel enxada, que combinada com um carrinho fazem de qualquer sonso um mestre das argamassas.

começando o barro

O segredo está em garantir a ligação entre as várias camadas. Deixar lanhos, que serão ocupados pela camada seguinte. E garantir a humidade. 'A água é o prego do cimento', já dizia o outro.

começando o barro

Demorei a arrancar mas agora corre tudo asinha. Deixei alguns retângulos com a primeira camada de barro para amanhã experimentar a camada final. Crivei um pouco e funciona, as areias maiores e a palha ficam pelo caminho.

embarro emcrivado

embarro emcrivado

Dois abelharucos namoram por cima da casa, enchendo o ar de trinados impossíveis.

Centésimo décimo quinto dia - Zirinha

O senhor Serafim, abençoado, tirou o sábado para continuar o azulejo, que já não me assusta tanto como ontem. O trabalho ficou terminado.

azulejando

Juntei nova equipa para o saibro, constituída pelo núcleo central do PAVC, por uma competentíssima misturadora de saibro e por uma octogenária chamada Alzira cuja função na equipa passava por dormir, e por insultar todo o mundo enquanto acordada. Dona Zirinha.

Durante o dia despachámos o saibro na cozinha, em bom ritmo, sem lesões. Ao fim da tarde, antes de sair, testámos o barro, no quadradinho mais pequeno que encontrámos. Chegar à consistência certa não parece tarefa fácil, usando um balde e uma misturadora elétrica (e sabendo que faltam 45,9 metros quadrados para encher), e aplicar a primeira camada tem ainda de ser aprimorada. Talvez com a talocha.

Tivemos uma visita inesperada: um sapo, certamente a refugiar-se na humidade recente do saibro. Apareceu já dentro da caixa, um sortudo que soube mexer-se a tempo de sobreviver.

safaste-te de boa

Centésimo décimo dia - chefinho

Hoje acordámos mais tarde, por indicação do 'chefinho'. De que vale a pena acordar às sete se ninguém se levanta antes das oito? A manhã, no entanto, foi proveitosa. Como era o último dia de trabalho, adiámos a saída para almoço até que acabássemos o quarto de cima, já que a sala ficou acabada no início da manhã. E assim foi. Esfomeados, mas concentrados na tarefa, fechámos a casa com metade do saibro acabado.

o Hugo a fazer chão

Centésimo oitavo dia - aprender

Nem a fita de eletricista nem a fita-cola de papel barata - só a fita da tesa nos safou. Logo que chegámos despachámos a proteção da madeira, tanto da grelha como da caixa técnica (esta última com cartão canelado). Quando acabámos juntaram-se todos à minha volta, como numa aula, à volta do professor. Lamento, só sei que é para molhar, aplicar e bater. A técnica vem depois.

o Hugo a pôr fita

Choveu a noite toda. A Alcina pedira-nos chuva, como quem pede uma maçã.