Mostrar mensagens com a etiqueta raposa. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta raposa. Mostrar todas as mensagens

Sexagésimo sétimo dia - clear cut


A carrinha do empreiteiro teve um furo e roubaram-me a lona do carro, logo na primeira vez que a deixei sobre o carro. Aposto que foi o mesmo gajo.

Sem empreiteiro (e sem lona), sobrou-me o dia para o pinhal. E eu, feliz da vida. Motosserra, serra de podas, e cá vou eu. Até a motosserra encharcar (outra vez) cortei mais alguns pinheiros mal-nascidos e desmanchei essas e outras árvores já cortadas. A ideia de que o solo é pobre e que por isso os pinhos são tortinhos já era, e foi o Hugo a deslindar o mistério: durante anos os pinheiros do meu avô eram os únicos do monte, e levavam em cheio com o vento. Elás, nasceram e cresceram tortos. Os 'clear cuts', para além de todos os outros malefícios, tem mais esta desvantagem.

Cravei o almoço à Alcina. É quase pecado pôr a cozinhar para mim uma senhora que quase não se aguenta em pé, mas compensei-os substituindo parte das telhas partidas do telhado da casa velha.

A Clementina veio dizer-me que eu, em vez de fazer só dois quartos devia fazer três, usando a sala para isso. O tio Amílcar concorda.

A carqueja está florida. O contraste é forte: a planta é rija, pica; a flor é dum amarelo vivo, fofa. Ontem vi um coelho e uma raposa e hoje uma perdiz. Parece um dinossaurio em fuga, com o seu pescoço longilíneo.

Vigésimo nono dia - figos

dia-a-dia: a caminho do telhado

Ontem à noite vi duas raposas. Uma, fugaz, a cruzar a estrada, outra ao longo da berma. Por uns segundos acompanhou-me o caminho. Hoje de manhã foram seis grifos. Agitados pelo carro, deram meia-volta e mudaram de rumo. Ainda há pouco, em Freixo, vi todas estas andorinhas, talvez a prepararem o voo para África. Nunca vi tantas.



Custou-me a acordar. No meu método de contar as horas de sono, quem se levanta às seis da manhã tem de deitar às dez da noite. Como ontem cheguei perto das onze (jantei por Mirandela), e ainda tomei banho, as horas de sono necessárias perderam-se. Custou-me a acordar.

Quando cheguei cumprimentei os homens e falámos de como tudo ia. Uma viga-lintel está feita, outra já tinha as cofragens. Falámos mais um pouco de como fixar as vigas metálicas à viga-lintel. Fui a Freixo falar com o empreiteiro e decidimo-nos pelo encastramento. Voltei às Quintas e comuniquei-lhes a decisão. Falámos se seria melhor deixar um negativo nas vigas a betonar ou serrar depois de betonar, colocar a viga de metal e betonar à volta. Eles preferem a segunda hipótese. A manhã ia um pouco mais avançada, já andava eu de volta da fruta, quando o sôr António me chamou (o Paulo e todagente chamam-lhe Tonho). Queria saber como rematar uma das paredes. Demorei a fazê-los perceber que o telhado era mesmo para ficar torto. Mas ó Nuno quem vir daqui vê a parede torta. O objetivo é mesmo esse, é como as casas antigas eram. Mas ó Nuno tem de levar caleira, as telhas ficam tortas e de repente um desenho que sobreviveu vários anos perdeu parte da força. Não sei bem o que é isto de ser arquiteto.

Sôr António a fechar o canto

os ferros são as teclas do piano do Hugo

Voltei à apanha da fruta. A Clementina emprestou-me três caixas da azeitona, duas das quais apenas para as uvas da parreira do canto. Todas as outras parreiras só servem para sombra. A da entrada da casa do fogo tem cachos grandes que valem pouco, a da entrada da casa da tia Baldo uvas nem vê-las, e a da horta, que cresce no meio das rosas, tem cachos deprimentes. Ou está tudo verde ou apenas a parreira do canto é que vale. E que parreira.

uvas da parreira boa

A seguir foram os figos. A poda resultou na pequena. Como tem mais sol os figos amadureceram mais cedo, e o tamanho é certo para a apanha. A outra figueira, majestosa, apanha menos sol e é difícil chegar aos melhores figos, nos ramos mais altos. Ficaram para depois.

figo da figueira anã

Antes de ir para Freixo perguntei à Clementina se queria alguma coisa da vila. Para os velhos nas aldeias a ida à vila não é coisa de todos os dias (por vezes é mensal, por vezes nem isso) e por vezes pedem-nos compras. Hoje pediram-me canela, em pau e em pó. Não sei se foi por ter negado o pagamento, mas ganhei um almoço.

Ganhei também um banco. Os bancos que a minha avó tinha junto do fogo eram iguais a estes. Vi que uma das pernas estava partida, e como estava esquecida junto ao teleheiro onde os homens estacionam a Kangoo perguntei à Alcina se ainda a queria. Ela, com o seu jeito de sempre, disse, como quem expulsa algo de mau, fique com ela!, quero lá o banco para mim.

já tenho banco