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Décimo nono dia - larechas

dia-a-dia: pedra e mais pedra

Voltam as obrigações na obra. O empreiteiro passou por lá na semana passada e deixou os tubos presos ao pavimento, e tirando um tubo duma sanita que não ficou no sítio certo está tudo pronto para se fazer o enchimento do pavimento das casas de banho. Para a semana tenho de voltar para o fazer com os homens.

A parede acelerou - numa semana e pouco fecharam outro outão. Com a velocidade veio, inevitavelmente, a falta de critério. Como a pedra vem agora miraculosamente do palheiro demolido já há pedras grandes abundantes. Para grande pena minha tive outra vez de os repreender: mais pedra falheira, mais pedras compridas, menos pedras gigantes. Inventaram inclusive cunhos na vertical. Tanta pressa não sei para quê.

Ataquei as ginjas com a Mafalda. Colher um pouco, comer um pouco, podar mais um bocadinho. De cada ramo seco que cortávamos surgia mais um formigueiro. Quando se sentiam a descoberto, algumas das formigas corriam a esconder as larvas, enquanto que outras, mais bicho mau, corriam a atacar-me as mãos. A Clementina dizia que não eram formigas, eram larechas. Sei que eram inimigas das minhas mãos, e que cravavam os ferrões das suas cabeças vermelhas na minha pele e rabeavam, não sei se de gozo se de desespero.

Depois de vencermos as larechas e de colhermos todas as ginjas a Clementina perguntou-me se a outra gingeira também era minha. Na dúvida, colhemos o que pudemos.

ginjas daqui (gesto característico na orelha)

Décimo quinto dia - pedras falheiras

dia-a-dia: o Paulo e o sô António, que é à sombra que se está bem

Chegaram as pedras do Poio, luzentes e prontas a montar. Só com uma máquina, informa o Paulo. Ainda estou surpreendido com o difícil que é trabalhar o xisto e o intricado dos cortes que eles conseguiram fazer (o xisto racha por todos os lados, ao contrário do granito, que dá para 'ir picando'). Espero que ao pedreiro agradem as pedras e o seu encaixe, já que é tão difícil razoar com ele. Hoje, pela primeira vez, tive de lhe fazer peito. Dizia que se não pusesse as pedras facejadas não ficava bonito e as pessoas passavam e desdenhariam o trabalho de pedra. Garanti-lhe que não: ninguém que por cá passar vai deixar de elogiar a parede, agora você tem a sua arte e eu tenho a minha. Não o estou a criticar, senhor António, o seu trabalho está a sair espetacular, mas quero mais pedras falheiras, percebe? Mais tosco, como nas paredes antigas. Acho que não percebeu. No fim, já de cigarro na mão, parecia já dizer que sim, que concordava. Fiquei sem saber.

Falei também com o picheleiro, em Freixo. Eu explicava-lhe a rede de retorno de água quente e ele nem com a cabeça anuía. Abençoada mulher que percebia tudo.

Entrei na arrecadação onde o meu avô fazia o mel pela janela, à cata de ferramentas. Nada. Resgatei uma caixa de plástico da danone, as presilhas para fazer o queijo (uma era de madeira), uma vasilha de leite e um saco de couro da TAP. Nas andanças à procura da chave da arrecadação o Paulo mostrou-me uma andorinha, que aproveitou a porta aberta o dia inteiro para fazer lá dentro o ninho, sobre o contador. E lá andava, perdida, assustada, sem saber o que fazer connosco. E nós com ela.

E chegaram as primeiras cerejas do ano, pelas mãos sabidas do Guilherme. Todos de todas as casas me prometem mais, chegando a altura.

É terrivelmente fácil identificar uma amoreira. É ver onde o asfalto está tintado de roxo.

os olmos do meu avô, já moribundos

eu diria que a pedra não está nada mal