
Oitavo dia - o cu da velha

Sétimo dia - o Poio

Quinto e sexto dias - correria
Quarto dia - podas

Terceiro dia - o cimento




Segundo dia - caboucos

Antes do almoço encontrei-me com o empreiteiro e com o carpinteiro, o Bruno. Dois mundos opostos. Um, ininteligível, fechado. Conduz um Audi. Mora numa casa virada para as arribas, onde planeia construir uma piscina. O outro é novo, simpático, acessível. De trato fácil. Gosto dele. Só não usamos madeira de castanheiro cortada por ele porque a seca é de pelo menos um ano. Dois verões, dois verões com um inverno. Até se arranja, isso logo se vê.
A tarde passei-a a tirar peças de roupa com o calor e a tentar achar jeito num monte de entulho. Passadas as quatro da tarde consegui soltar um olmo cortado e achar a moldura da porta da casa. Peças gigantes. Uma parece a soleira, pelo desgaste. Outra uma ombreira. Notei pela face trabalhada e pelos líquenes.
Achei pedras lindas. Tentei pôr os seixos de quartzo separados dos outros, enquanto imaginava uma casa feita só de quartzo. Um pedaço de xisto escuro pareceu-me madeira. Um tronco de xisto. Noutra os líquenes eram laranjas. Achei também uma das pedras que encimavam a lareira. Estava queimada num dos cantos.

Primeiro dia - recordações

A Clementina chama-me para ver dumas coisas. Adianto um pouco da conversa com o empreiteiro e logo me junto a ela, que me espera junto às casas com as mãos uma na outra, em cunha. Um jeito apressado de ser, ela. Queria falar-me dos móveis da casa dos meus avós. Móveis muito bons, ainda muito bons, corrige. Nem quando lhe mostro a gaveta que não abre ela hesita. Muito bons, sim senhora. Não os quer pôr lá na casa nova?, ora então não há de pôr, se ainda estão bons. Passamos à cozinha. Dou-lhe razão com uma base de panela de metal. Posso usá-la. Isso não, as tijelas, sim, são bonitas, mas não, Clementina. Tenho de escolher bem as coisas, aquilo é para turismo, sabe. Pareceu olhar-me desolada. Então. Então por que não há de usar isto, são móveis caros, valem muito.
Procuro algo longe da atenção dela. Olhe, já viu este frigorífico, está impecável. Você já viu, fazia-me jeito lá na minha casa. Isto? Então num está bom, está bom é para você pôr na casa nova, ora vai lá estar a gastar dinheiro num frigorífico novo. Ia para lhe reafirmar do turismo, sabe, quando reparo nas rendas. Almofadas decoradas com rendas coloridas, um mimo que a minha avó nos deixara. Olhe bonito é isto. Será que dá para remendar? Tá tudo roto, isto foi do quê? Isto foi dos ratos, ai o raio da bicharada, entraram por aí e roeram tudo. Os patifes, se isto se faz a alguém.
Compreendo-a. Tudo o que luz aos olhos da Clementina é esconso e chato para mim, e vice-versa. Deixo-a e às suas lamúrias por um momento e começo a recolher as almofadas. Algumas desfazem-se com o toque. Culpo as minhas mãos. Ao vê-las alinhadas sobre o palanque da casa, como que alunos de uma turma à espera da foto de conjunto, penso no pouco que a minha avó me legou, deixado erodir pelo tempo e pelos ratos, e com que facilidade fica a sua vida assim esparramada num balcão de cimento.







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