Décimo sexto dia - cerejas a maturar

dia-a-dia: rabo não identificado

Dia sem assunto. O picheleiro ainda não respondeu, os pedreiros avançam, devagar. A mancha de parede feita na última semana tem menos pedras perfeitas e mais falheiras, mas ficaram a faltar as pedras compridas. Relembrei-o ao Paulo, que lá foi partindo algumas à minha vista para mostrar o quão difícil é parti-las para uma parede de apenas 35 centímetros. Prometeu-me que iam pôr mais. Disse-lhes que podiam usar a pedra do muro, que é para vir abaixo de qualquer maneira. Eles preferem desmontar primeiro o palheiro onde o meu avô acomodava os burros, já em parte caído.

a parte mais recente não me agrada

Trouxe dois sacos de cerejas, já carnudas e escuras, quase no ponto.

Décimo quinto dia - pedras falheiras

dia-a-dia: o Paulo e o sô António, que é à sombra que se está bem

Chegaram as pedras do Poio, luzentes e prontas a montar. Só com uma máquina, informa o Paulo. Ainda estou surpreendido com o difícil que é trabalhar o xisto e o intricado dos cortes que eles conseguiram fazer (o xisto racha por todos os lados, ao contrário do granito, que dá para 'ir picando'). Espero que ao pedreiro agradem as pedras e o seu encaixe, já que é tão difícil razoar com ele. Hoje, pela primeira vez, tive de lhe fazer peito. Dizia que se não pusesse as pedras facejadas não ficava bonito e as pessoas passavam e desdenhariam o trabalho de pedra. Garanti-lhe que não: ninguém que por cá passar vai deixar de elogiar a parede, agora você tem a sua arte e eu tenho a minha. Não o estou a criticar, senhor António, o seu trabalho está a sair espetacular, mas quero mais pedras falheiras, percebe? Mais tosco, como nas paredes antigas. Acho que não percebeu. No fim, já de cigarro na mão, parecia já dizer que sim, que concordava. Fiquei sem saber.

Falei também com o picheleiro, em Freixo. Eu explicava-lhe a rede de retorno de água quente e ele nem com a cabeça anuía. Abençoada mulher que percebia tudo.

Entrei na arrecadação onde o meu avô fazia o mel pela janela, à cata de ferramentas. Nada. Resgatei uma caixa de plástico da danone, as presilhas para fazer o queijo (uma era de madeira), uma vasilha de leite e um saco de couro da TAP. Nas andanças à procura da chave da arrecadação o Paulo mostrou-me uma andorinha, que aproveitou a porta aberta o dia inteiro para fazer lá dentro o ninho, sobre o contador. E lá andava, perdida, assustada, sem saber o que fazer connosco. E nós com ela.

E chegaram as primeiras cerejas do ano, pelas mãos sabidas do Guilherme. Todos de todas as casas me prometem mais, chegando a altura.

É terrivelmente fácil identificar uma amoreira. É ver onde o asfalto está tintado de roxo.

os olmos do meu avô, já moribundos

eu diria que a pedra não está nada mal

Décimo terceiro e décimo quarto dias - lanceta

dia-a-dia: (paguei ao senhor um café pela espera)

Ontem fui ver das pedras. O Mauro é acessível e competente, e já me arrependi de lhe ter respondido uma vez de jeito mais áspero. Pacientemente e pedra a pedra (com a ajuda dum lápis de cor vermelha e a prestimosa faca-aguça) lá ia explicando aos homens os cortes a fazer e como a ombreira iria assim encaixar na toiça. Como um puzzle, tentei eu. O Mauro anuiu, com um olhar. Os homens também parecem perceber. Ainda não estou certo quanto à pedra, assim como ainda não estou certo de quase nada. Ou vejo ainda muita coisa incerta, não sei bem.

Hoje insisti com os homens o isto e aquilo da parede. Umas dizem que sim, outras dizem que não, outras calam-se. Pedi ao Paulo para vir comigo procurar a chave da arrecadação onde o meu avô fazia o mel (entretanto descobrimos a janela, apenas encostada). Haveria lá ferramentas e possivelmente serras para me ajudar nas podas. Entrando na cozinha da casa do meu avô com a ideia de encontrar uma chave, os olhos curiosos do Paulo deram com o que parecia ser uma chave com estojo de couro, ficando apenas o cabo à vista. Chegámo-nos à luz para ver melhor. A parte escondida pelo couro era uma lâmina, redonda como nunca tinha visto. Inquiri junto dos velhos o que aquilo era e todos concordavam, não sem uma interjeição e um sorriso, que aquilo era uma faca de capar porcas. Porcas? Sim, porcas, então você não sabe o que é uma porca? Depois de elas terem estado prenhas e com os porcos ninhos era preciso capá-las para não andarem a vadiar e a meterem-se com os porcos. O seu avô quando veio de África ainda capou muitos leitões. Uma faca para capar porcas e leitões. Seria lanceta, indagava-se a Alcina sobre o nome da faca. O Amílcar fez questão de me mostrar como se segurava a 'lanceta', com os dedos em V para vasculhar os vazios da porca. Fica a fotografia.

lanceta, arma temível

Matei um tarrote e uma andorinha. Um sardão escapou por isto (gesto característico com os dedos). A natureza tem esta tendência curiosa de se enfiar no espaço entre a roda e o pára-lamas do meu carro.

diabos me levem se isto não é uma parede de pedra

Décimo segundo dia - cerejal de uma cerejeira só

dia-a-dia: começa a haver casa

Hoje foi dia de almoço em Mazouco, de promessas de visitas a vinhas, de sacos e caixas cheios de laranjas e de uma garrafa de bagaço. Feito obviamente com bagaço, mas com algum vinho também, quando há. Bagaço de vinho com benefício. Eh lá.

Antes do almoço, mais uma vez a Clementina, voz sã em terra de anafados vocálicos, mostrou-me o 'cerejal' escondido atrás da casa velha, a da capela (capela, por Martim Tirado, é um forno). O 'cerejal' era uma cerejeira apenas, brava, a precisar de enxertia, nascida longe o suficiente da parede para não o desmanchar quando crescer e perto o suficiente para não ter sido levada por algum trator. Tratamos de limpar as redondezas e tapar tudo à volta com uma camada generosa de terra, não vá a cerejeira ser mal agradecida e, prontos, morrer.

Depois do Poio (ainda as pedras por cortar, vi apenas uma ombreira, de um total de 27 peças), voltei pela Pesqueira. Deixo a foto falar por si.

a vinha na Pesqueira

A Amélia, no Mazouco, mostrou-me uma árvore (cerejeira) constantemente ratada por todo o bicho do ar. Pendurou-lhe plásticos e todo o tipo de coisas reluzentes. E uma cobra. Como tudo o resto não funcionava comprou uma cobra de borracha e pendurou-a (os pássaros continuam a dar-lhe - e a Amélia continua a achar que a cobra foi uma boa ideia). Oh, um pássaro olha para ali e vê que a cobra está morta. Assim, esticada. Não, não, não acha. Ai não?

Hugo, Paulo e Sô António

Décimo primeiro dia - de trator

dia-a-dia: eu sei que fotografei uma casa

Porto. Vila Real. Nada como o Porto de manhã para dar valor a uma qualquer terra pequena. A seguir Romeu, por curiosidade de conhecer o Maria Rita, restaurante de 'cozinha regional'. A verdade é que a terra é adorável, castiça, verde, com lojinha a vender não sei ainda o quê mas com uma misteriosa loira a guardar-lhe a porta, e também é verdade que a entrada no Maria Rita é castiça, com a sua guarda a imitar um rústico que nunca existiu, e também a placa, recorte chinês, mas mal entrei percebi que ia ao engano. Mais do que uma sala, com requinte, cada talher a ocupar o seu espaço em mesas esmeradas. Aproveitei que não estava gente para espreitar o menu, verificar que não era para mim e fazer o meu almoço de trabalho no Poças, em Bragança, que já conhecia de outras encarnações.

Seguindo para sul, deixei que o GPS guiasse as minhas guinadas, por estradas de montanha até Vimioso, e daí para Mogadouro. Em Vale de Porco parei para visitar o lugar de um antigo projeto meu, um discreto parque de merendas sob uma curva de choupos na bordadura de um lameiro, abençoado por uma ermida de corte fino. O meu angelical projeto foi substituído por uma combinação banco/mesa que os próprios Flintstones não desdenhariam (que teve o condão de limpar as pedras soltas pela paisagem) e uma espécie de pavilhão industrial 'rústico' para churrascos igualmente industriais. A chuva e o vento correram comigo, e assim não tive de dar explicações à memória.

Ao fim da tarde visitei a obra, já com um início de alvenaria feito. Não está mal. O pedreiro é bom. Amanhã afina-se. Diziam-me que o Zé Manel ia ver as colmeias e lá está ele com a botija de gás no trator, nos seus recados. Afiambro-me a uma boleia e lá vamos os dois, o Zé Manel a falar-me do perigo da condução descuidada dos tratores e eu enganchadíssimo por cima da roda (nem falei dos freixos que vi ao longo dia. aqui nas Quintas não, só os sobreiros em flor). Mostrou-me a horta, sobre o ribeiro, as oliveiras a meia-encosta e as colmeias quase no topo. Mas escondidas do vento norte, que elas não gostam. Não gostam mais saem de manhã na direção do norte, observa um Zé Manel deliciado com a coisa. Gosta mesmo muito delas. E quando elas desaparecerem é que vai ser o diabo para o resto da natureza. À volta das colmeias plantou alecrim, elas comem normalmente mais é a arçã, mas o alecrim deita uma flor muito cedo e elas gostam da flor. Dá um mel clarinho, bom, não é como o do do eucalipto, escuro. Mesmo no topo plantou centeio. Falei-lhe do problema das aves da rapina que já não têm coelhos para caçar porque já não há cereal. Ele agacha-se e mostra-me as caganitas de coelho. Estão salvas as águias.

o Zé Manel diz: isto é centeio, isto é uma oliveira

Para rematar um dia bonito trouxe cacos, presumivelmente de ânforas e telhas romanas. Ao jantar falámos da história das Quintas. Quando puder publico aqui o estudo co-feito pelo Nélson Rebanda.

Décimo dia - corta aí, irmão

dia-a-dia: tijolo térmico

Já há estevas a florir. E a carqueja. Já é tanto o bicho a florir que já nem vale a pena contar. Voltei a lembrar-me do que é um freixo, árvore querida por todas as razões.

Grande rebuliço na aldeia. A Clementina interrompeu-me algumas vezes para eu trazer a água de volta. Ó Nuno, não há água. É perciso telefonar para a Câmara. E ela já tinha telefonado mas eu tinha de telefonar porque assim eles vinham logo. E eu que queria mostrar aos pedreiros como os vãos das portas estavam no sítio errado e que, sim, há janelas, há que cortar o tijolo, caro amigo.

Depois do almoço experimentei a nova técnica de extermínio de mimosas. Basta depenar-lhes a base como quem descasca uma banana.

e aí está como se descasca uma mimosa

Ao fim da tarde comecei a heróica poda da roseira. Ai dela. Na sofreguidão de lhe dar a sua conta pisei e repisei os óculos de sol, sem o notar. Fiquei a olhar para os destroços dos óculos a pensar, que alívio, ao menos a tesoura está inteira. Como mudei.

Nono dia - ver as vistas

dia-a-dia: uma laje?!?

Giestas floridas. Muitas giestas floridas, brancas. Pareciam verdes ao de longe. Por vezes ganha a esteva, ainda por florir. Uma ou outra florida. Tás a ouvir, Nuno, isto é a flor da esteva. Já viste, quando está para abrir parece vermelha. Quanto às lavandula, o Júlio esclareceu-me, é rosmaninho. Alfazema há nuns canteiros em Vila Flor, como o nome indica.

As árvores floridas por trás da casa do avô velhinho são afinal gingeiras. Flores brancas, parecidas com as da cerejeira. Aqui e por todo o lado, abelhas e borboletas e todo o tipo de bicho em êxtase primaveril. Até eu.

flores que nem ginjas

A paisagem vale a viagem, agora e em qualquer altura do ano. As penedias surgem ao longe como uma portel, a barrar o caminho entre as hortas que permeiam o vale. Formam as hortas que me trouxeram cá, e valem o esforço. Agora há água canalizada junto às casas, mas antes só na base do vale é que havia. Daqui a nada nem há velhos para as tratar. Dois ainda lá vão, nos seus burricos. Têm a horta junto à fonte da Saúde. Às vezes trazemos garrafas. Não gostamos da água da rede, sabe. Põe-lhe o cloro. A Fernanda disse-me o mesmo. Não, a Alcina, quando me mostrava as meias para o inverno. Isto são só uns remendicos, desculpa-se ela, à procura das 'outras' meias, feitas com quatro agulhas. Iguais às das lojas. Prefiro as antigas, remendos de remendos, uma espécie de meia de noite, a juntar a várias camadas de roupa.

as hortas
o monte

a Alcina, designer de meias