Vigésimo nono dia - figos

dia-a-dia: a caminho do telhado

Ontem à noite vi duas raposas. Uma, fugaz, a cruzar a estrada, outra ao longo da berma. Por uns segundos acompanhou-me o caminho. Hoje de manhã foram seis grifos. Agitados pelo carro, deram meia-volta e mudaram de rumo. Ainda há pouco, em Freixo, vi todas estas andorinhas, talvez a prepararem o voo para África. Nunca vi tantas.



Custou-me a acordar. No meu método de contar as horas de sono, quem se levanta às seis da manhã tem de deitar às dez da noite. Como ontem cheguei perto das onze (jantei por Mirandela), e ainda tomei banho, as horas de sono necessárias perderam-se. Custou-me a acordar.

Quando cheguei cumprimentei os homens e falámos de como tudo ia. Uma viga-lintel está feita, outra já tinha as cofragens. Falámos mais um pouco de como fixar as vigas metálicas à viga-lintel. Fui a Freixo falar com o empreiteiro e decidimo-nos pelo encastramento. Voltei às Quintas e comuniquei-lhes a decisão. Falámos se seria melhor deixar um negativo nas vigas a betonar ou serrar depois de betonar, colocar a viga de metal e betonar à volta. Eles preferem a segunda hipótese. A manhã ia um pouco mais avançada, já andava eu de volta da fruta, quando o sôr António me chamou (o Paulo e todagente chamam-lhe Tonho). Queria saber como rematar uma das paredes. Demorei a fazê-los perceber que o telhado era mesmo para ficar torto. Mas ó Nuno quem vir daqui vê a parede torta. O objetivo é mesmo esse, é como as casas antigas eram. Mas ó Nuno tem de levar caleira, as telhas ficam tortas e de repente um desenho que sobreviveu vários anos perdeu parte da força. Não sei bem o que é isto de ser arquiteto.

Sôr António a fechar o canto

os ferros são as teclas do piano do Hugo

Voltei à apanha da fruta. A Clementina emprestou-me três caixas da azeitona, duas das quais apenas para as uvas da parreira do canto. Todas as outras parreiras só servem para sombra. A da entrada da casa do fogo tem cachos grandes que valem pouco, a da entrada da casa da tia Baldo uvas nem vê-las, e a da horta, que cresce no meio das rosas, tem cachos deprimentes. Ou está tudo verde ou apenas a parreira do canto é que vale. E que parreira.

uvas da parreira boa

A seguir foram os figos. A poda resultou na pequena. Como tem mais sol os figos amadureceram mais cedo, e o tamanho é certo para a apanha. A outra figueira, majestosa, apanha menos sol e é difícil chegar aos melhores figos, nos ramos mais altos. Ficaram para depois.

figo da figueira anã

Antes de ir para Freixo perguntei à Clementina se queria alguma coisa da vila. Para os velhos nas aldeias a ida à vila não é coisa de todos os dias (por vezes é mensal, por vezes nem isso) e por vezes pedem-nos compras. Hoje pediram-me canela, em pau e em pó. Não sei se foi por ter negado o pagamento, mas ganhei um almoço.

Ganhei também um banco. Os bancos que a minha avó tinha junto do fogo eram iguais a estes. Vi que uma das pernas estava partida, e como estava esquecida junto ao teleheiro onde os homens estacionam a Kangoo perguntei à Alcina se ainda a queria. Ela, com o seu jeito de sempre, disse, como quem expulsa algo de mau, fique com ela!, quero lá o banco para mim.

já tenho banco

Vigésimo oitavo dia - viga-lintel

dia-a-dia: as paredes, quase fechadas

Estavam eles para começar o ferro da viga-lintel quando cheguei. Acertámos alguns pormenores e os homens foram para a sombra montar a armadura. Reparei que o Paulo já tinha feito a base do pavimento das casas de banho. Topei logo alguns erros, outros só quando cheguei a casa. A obra avança.

um dia hei de cruzar estas portas

O Amílcar, que descascava feijão à soleira da porta, ofereceu-nos abrunhos (curiosamente maiores do que ameixas normais), desde que os apanhássemos. Eram tão bons que fiquei a pensar que devia ter trazido mais. Trouxe também um queijo, produzido e curado pela Fernanda a pedido. A tarde passou-se pela Congida. Um paradoxo, ir para a zona mais quente da região à procura de frescura. Mas resultou. No meio da multidão, estes patrícios.

Vigésimo sétimo dia - o Poio, de novo

dia-a-dia: janelas!

A manhã de trabalho decorreu sem grandes precalços, apesar dos constantes desabafos dos homens (a pedra é torta, isto assim não dá, tem de se pôr a prumo, vira, tira, põe). Trazer as paletes com as pedras da eira para o pátio, desmontar a palete, montar a soleira, as ombreiras e a toiça, uma de cada vez, para cada porta. Antes de pousarmos as toiças, ainda só com duas ombreiras postas, percebemos que, apesar da imperfeição das pedras, as ombreiras estavam agrupadas duas a duas (duas mais finas e duas mais grossas). Tratámos de as agrupar, e de seguida fechámos a porta, poisando as toiças sobre as ombreiras.

a primeira soleira

aqui não há preguiça

Paulo, o senhor precisão

Quanto à moldura de pedra da porta original, hoje foi o dia de desistir de a aplicar e de encomendar pedras novas no Poio. Foram meses a enganar-me a mim próprio. As pedras antigas são pesadas e imperfeitas, e a única maneira de as manter era não lhes ter mexido. Mesmo a pedra-soleira, que ainda parecia utilizável, perdeu todo o encanto quando o senhor António começou à marretada para lhe reduzir a altura. Sem me perguntar começou pela parte boa, a razão pela qual eu queria pô-la de novo na parede. Mandei-o parar estava ele vermelho do cansaço. E já não é moço novo. Deixe, deixe, senhor António. Mando fazer pedras novas. E lá fui de novo a Fôz Coa encomendar portas novas, desta vez já com acertos nas medidas.

Notas de trabalho:
-as pedras do Poio saem da pedreira relativamente imperfeitas (as medidas da parte lascada não são de fiar);
-por causa da imperfeição, uma das portas (a de baixo) ficou mais saída, e o encaixe entre as ombreiras e as toiças ficou imperfeito, tendo de ser corrigido;
-esqueci-me de calcular a folga (+- 1cm);
-a opção de duas soleiras, sendo uma delas (a de fora) inclinada para evitar a permanência da água da chuva, parece funcionar.

Vigésimo sexto dia - beldroegas

dia-a-dia: mais um segundo e já se viam as janelas

Quando liguei a televisão, pouco passava das seis da manhã, falava-se do incêndio da Nogueirinha. O maior incêndio do ano, diziam primeiro. O maior do distrito de Bragança, comentavam depois. A senhora a quem comprámos a Residência Baldo é da Nogueirinha. A Clementina a mostrar a mim e ao empreiteiro onde era o terreno onde o meu avô tinha as colmeias e eu a pensar que tanto terreno a monte era o paraíso do pirómano. Na Nogueirinha até amendoeiras arderam. E eucaliptos. Eucaliptos! Quem se lembrará de plantar eucaliptos em Trás-os-Montes.

Dia de máquina na obra, dia de azáfama para preparar o que já devia estar preparado e de montar tudo para que a retroescavadora pudesse elevar as pedras sem nome para suavemente as pousar, já como toiça, ombreira ou soleira. Ainda não está resolvida a questão da ‘porta original’. Os pedreiros voltaram a dizer-me que era impossível, lá andamos com a retro a revolver o entulho, a tentar perceber onde estavam as pedras em falta. Só ao fim do dia se achou a toiça, resgatada ao monte de entulho que se acumulava no terreno das colmeias. Ao despejá-la da camioneta, o empreiteiro deu-lhe o fim que décadas de uso não lhe deram – rachou. Ainda assim, como se soltou apenas uma lasca (se bem que considerável e estimável - tinha ainda os buracos originais da porta), os homens dizem que dá para colocá-la lá na mesma. Já não tem caráter estrutural, serve assim.

uma no Paulo, outra na pedra

a domesticação da pedra

fila de espera para a consulta

olhímetro?

quem vir de dentro até pensa que é uma janela

temos janela, temos músculo, temos precisão

A Alcina, depois do chef Ró, foi a segunda pessoa a supreender-me à mesa esta semana. Sopa de beldroegas! Ómega 3 power!!! Foi também com ela que aprendi a melhor frase da semana, evolução de outra que conheço bem: muito e bem não há quem - pouco e mal qualquer animal*. Apanhei outra da Clementina, em improviso: prédio sem rodeira não é prédio nem é nada.

as sábias mãos da Clementina e da Alcina

sopa de beldroegas

Antes de ir embora podei as pontas das parreiras, tentando evitar ramos com cachos. A parra que sobrou foi para as cabrinhas da Fernanda. Quando andámos com o tio Adelino apercebi-me do fascínio das cabras para com a vinha, para a qual olhavam e cercavam até que o pastor lhes atirasse mais uma pedra, e desistissem.

*A boca era para os artistas, a quem todos elogiam a beleza das paredes mas que são leeeentos.

Vigésimo quinto dia - o outão

dia-a-dia: temos outão

Acordar às seis acabou por ser a melhor ideia do dia. Cheguei à obra às sete e vinte, com banho por tomar (acabou o gás) e com os homens já lá.

Durante o dia decidiu-se a inclinação do telhado, a altura dos parapeitos e ainda ajudei os homens a colocar as pedras sobre a parede. Originalmente estas pedras tinham a função de proteger a madeira da cobertura de chamas rebeldes que pudessem nascer da lareira. Decidi mantê-las como testemunho histórico, já que a sala da tia Baldo foi transformada em quarto e já não restava nenhuma razão prática para as recolocar lá.

é o que há

Ainda deu para experimentar a minha nova serra de arco (o nome talvez não seja este) e o podão em segunda mão, comprado numa feira de velharias em Vila Verde. Ainda tenho de o afiar.

O dia ainda serviu para burocracias com a obra e para tratar da Fidalga. Está com uma tosse chata e a perder pelo, com feridas cutâneas pelo corpo. Voltei cansado mas contente.

Vigésimo quarto dia - podão

dia-a-dia: não há novidades na frente sudeste

Cheguei e encontrei o tio Virgílio, que se não é homem-macaco é pelo menos homem-esquilo (que também existem nas Quintas - os esquilos, isto é), a meio caminho entre a base e o topo dum olmo. Parecia agarrado à árvore em desespero, para não cair, mas era a posição de muitos anos a trepar a choupos e a olmos, elucidou-me ele. Mantinha-se agarrado e cortava, tudo ao mesmo tempo, como se de atos semelhantes se tratassem. Encheu dois sacos com a folha (para dar à cabra), que colocou nos alforges do macho. Ainda me pediu a lenha que sobrou. Vê-se que viveu a época que viveu, e não a nossa, de luxo descartável.

tio Virgílio, a caminho do chão

as folhas do olmo, prontas a comer

isto é um podão

o transporte para as folhas do olmo

Foi dia de churrascada, apreciada e muito elogiada sob os ramos dos olmos. O Paulo cozinhou barrigas e eu, o Sô Paulo e o Hugo comemos. Na preparação do pitéu, à procura de pinhas num barraco, encontrei o que poderá ser a descoberta mais valiosa (em termos monetários) do projeto: uma camisa da Mocidade, ainda fina e com o verde viçoso, que o meu pai diz ter pertencido ao seu irmão mais novo. A etiqueta dizia 'Luanda'.

almoço sob os olmos (e sobre a erva)

(nota: este não é um blogue fascista)

Vigésimo terceiro dia - ganhotos

dia-a-dia: é uma casa trasmontana com certeza

Chega às duas e acaba a capacidade de trabalho. Consegui desfazer um monte de lenha da gingeira e da amendoeira seca (hoje cortei-lhe os ramos - quando comprar a motosserra corto-lhe o tronco) e desisti de trabalhar mais. Ainda tentei um ou outro empreendimento. Em vão. As forças já eram.

as exéquias para o funeral

O dia começou com o típico momento National Geographic (infelizmente, sem David Attenborough). Parei o carro, ainda um pouco ensonado, para deixar passar a família Galaró (uma garbosa perdiz seguida de nove ou dez perdigotos). O caos instalou-se. A perdiz numa berma, a confrontar-me, e os perdigotos, um a um, a desaparecerem num arbusto à esquerda. Também à esquerda, um pouco mais perto do carro, uma cobra saltou. Em pânico, pensei eu na altura. A abocanhar meia dúzia de perdigotos, sei-o agora.

A Fidalga recebeu novo carregamento de comida. A anterior já tinha acabado e não sei quanto tempo esteve ela sem comer. A primeira gamela foi num piscar de olhos. À hora do almoço, como boa cadela que é, fez-me companhia enquanto eu comia.

a minha cadela

Percebi finalmente o que são os ganhotos. Os pedreiros chamam-no a tudo o que não é xisto, normalmente pedras maiores de mais perfeitas, como as de quartzo.

Não sei se é sol de pouca dura mas consegui finalmente uma confirmação mais definitiva dos pedreiros de que tentariam usar as pedras originais na reconstrução da porta. Já antes, por mais de uma vez, me confirmaram que sim, era possível reintroduzir as pedras, que era questão de encontrá-las, etc. Hoje voltaram com outra lenga-lenga: que era muito complicado, que faltavam pedras, que a ombreira não tinha altura, que lhe faltava a esquina para o encaixe da porta, que a soleira era muito larga para o espaço disponível. Fui ver. A soleira era, de facto, muito larga - 2 metros para um vão de 1,4 metros. Recorta-se com a rebarbadeira a parte interior e, senhor António, não ponha essa pedra aí. Essa mesmo. Não a ponha que fica a mais. A esquina para a a porta? Está aqui, esta é uma das ombreiras, está aqui por baixo a esquina. É muito baixa? Colocam-se estas ombreiras sobre a soleira e depois colocam-se pedras extra para acertar com os 2 metros. Sim, nem que se comprem as pedras. E, assim, resolveu-se a questão. Para já.

a soleira original da casa da tia Baldo

Há uns minutos a Fernanda largou a lide para, dizia ela, levar a 'Sagrada Família' à vizinha. Ó vizinha, tenho aqui a santinha! A tradição dita que todos os dias a 'santinha' migre para a casa seguinte, como uma devoção em movimento. A sorte da Fernanda é morar rodeada de casas. A vizinha da última casa tem de levar a 'santinha' até à Portela. O que para uma velhota, durante o verão, não é caminhada fácil.

as malfadadas larechas