Quinquaségimo dia - casa de madeira

dia-a-dia: telhas!!!

Ao ir comprar pão a Carviçais (oficialmente, o segundo melhor pão do mundo, a seguir ao de Vila Flor), dei de caras com isto - uma casa em madeira. Mais uma vez, boca aberta de espanto. Saí do carro para ver como tal milagre podia surgir numa vila tão descaracterizada como Carviçais. Não será a isto que o meu pai chama de cabanal, mas é mais uma vez a realidade a dar razão aos meus desenhos. Vou aplicar já.

barraco

Na obra já há telha, e muita. O empreiteiro queixa-se, e com razão, que aquela não é a telha mais apropriada para aquelas claraboias. É para aquelas telhas baixas, diz ele.

A penúltima das cachorrinhas seguiu hoje comigo. Vai ter casa em Baião. Sobra uma.

a bilucas, a caminho de Baião

Quadragésimo nono dia - carvalhal

dia-a-dia: está na hora do telhado

O dia acabado, já pouca luz sobrava sequer para caminhar, e eu ainda lá, na Quinta dos Baldo. Primeiro olhava as telhas, um beiral já acabado, um esboço do que será um telhado acabado. Depois o interior. Algum clique ficou por acontecer no meu cérebro porque continuo a passar longos minutos embasbacado a olhar as madeiras, sempre ao fim da tarde, depois dos homens partirem. O fascínio continuou mesmo depois de arrancar para a Macieirinha. Parei o carro um pouco mais à frente para olhar o beiral.

A Clementina, mal cheguei, logo me intimou a livrar-me dos cachorros. A cadela já não tem leite, os cachorros já comem comida, ainda ontem lhes dei arroz. A cachorrada tem de ir. O empreiteiro e o Luís, um dos assalariados, levaram cada um o seu cachorro. Eu levo outra amanhã. Fica apenas mais uma, cachorrinha, adoentada, a mais pequena de todas. Preciso de um dono que precise de uma cachorrinha.

À hora do almoço, a caminho de Freixo para mais uma jornada de burocracia, reparei na beleza do carvalhal. O terreno, pertença do Estado, já ardeu várias vezes, e está agora, penso, na guarida das Juntas. Como nas Juntas não entra a questão do lucro rápido, entra a razão. Plantar eucaliptos e pinheiros, que ardem todos os anos? Isso é estúpido. Planta-se é carvalhos, que quando há incêndios permanecem. E assim foi. Tanto plantaram os carvalhos, americano e alvarinho, como agora limparam o terreno à volta dos carvalhos, para que cresçam com mais vigor. E podaram os carvalhos mais pequenos. E arrancaram as mimosas, quase já a formar um bosquete. Quase me vieram lágrimas, tanta era a alegria. Todo um país podia ser assim, simples.

um carvalhal em crescimento

Quadragésimo oitavo dia - corvos

dia-a-dia: abarracado

A manhã começou com uma alerta vermelho - a Fidalga ladrou a noite toda e um dos cachorros estava em falta. Dizia-me isto a Clementina, que também dizia ouvir um latir, sem saber bem a origem. A Fidalga bem andava pelo meio das nossas pernas, em pânico aparente, como se os seus uivos lhe restituíssem o filhote. Que foi fácil de achar. Um pouco mais abaixo no caminho, desamparado, lá estava um dos cachorros, ainda sem conseguir andar sozinho. Talvez um bicho qualquer, uma raposa, o tivesse rapinado do ninho, e o tivesse deixado no meio do caminho sob a ameaça da Fidalga. E a Fidalga, pobre coitada, não conseguiria pegar na cria sozinha, e assim o cachorro passou a noite ao relento. Mas gordos como estão tudo parece bem.

À hora do almoço, quando voltava da Macieirinha, notei um enxame de aves, mesmo sob o carro, a encher o céu. O normal era serem grifos, acabados de topar alguma carcaça. Ouvia-os a grasnar e pouco percebia da língua deles. Afinal eram corvos.



Durante a tarde os carpinteiros acabaram a parte deles. Fica a faltar o remate dos outões, a colocação da onduline e de seguida da telha. E fica o remate entre os dois telhados. Talvez com um rufo.

acabando o telhado

Quadragésimo sétimo dia - frio


assim não entra o frio

As manhãs surgem cobertas de nevoeiro. Por causa dos pés frios, o carpinteiro acende todos os dias uma lareira dentro da obra, e eu acabo inevitavelmente no borralho, junto da Alcina e do Amílcar. Nestes dias o topo dos pinheiros gela. Tudo gela. As pontas das amendoeiras, as ervas, tudo.

paisagem gelada 


talvez o gelo mate o fungo dos olmos

Quadragésimo sexto dia - construção em madeira

dia-a-dia: isolamento telhado acima

Sinto que devo perder algum tempo a descrever a carpintaria, que é uma arte nobre, com o Bruno como um dos seus artistas principais. O Bruno, o Carlos e o Bruno júnior. A montagem dos caibros (as vigas inclinadas que sustentam o telhado) e dos cúmeos (as vigas da cumeeira do telhado) foi feita na semana passada, tomando as duas asnas metálicas como referência. Como a altura dos cúmeos e a inclinação dos caibros (os homens chamam-lhes caibrios) era orientada pelas asnas, a parte de baixo (a casa tem dois telhados) foi canja. Já a parte de cima, com apenas uma asna metálica, foi mais complicada. Para construir a asna de madeira a meio do vão foi necessário fazer um molde junto à asna metálica. Depois de colocada a asna de madeira, foi fácil distribuir os cúmeos e os caibros pela cobertura. A viga horizontal da asna só foi colocada esta semana, ficando a colocação dos varões dependente de eu os comprar amanhã, em Carviçais.

Hoje, pela primeira vez, fui pedir a um dos velhos para me ajudar com as podas. Neste caso ao tio Amílcar, para as parreiras (vides). Primeiro para as duas dentro da curralada da tia Baldo. A ideia, já antiga, é de fazer uma ramada (aqui chamam-lhe latada), ideia que muito agradou ao Amílcar. E retoma-se o uso original que o tio Baldinho imaginara para os menires, o de sustento dos arames que seguram a ramada. O tio Amílcar sugeriu que se encaminhasse uma das parreiras para pingar sobre a porta. Bestial. A seguir demos um jeito nas parreiras no quintal dos meus avós.

Quadragésimo quinto dia - dona sancha

dia-a-dia: é a loucura na obra

Hoje fui para Martim Tirado a pé e voltei para a Macieirinha de bicla, com temperaturas muito baixas. Acabei de desfazer o mito que diz que Portugal é um país muito frio para andar de bicicleta. Obrigado.

bué de montes

De resto, a obra segue. Enquanto eu não chegava, os homens começaram o forro. Ontem falaram-me que era necessária uma régua para rematar o forro nalgumas partes; como torci o nariz, hoje já tinha uma solução para mim. Gente competente.

senhor forro

no borralho manda o fogo

Depois do almoço, cravado à Alcina, o tio Silvério, cunhado do meu avô, fez o favor de seguir comigo ao pinhal para me mostrar quais os meus e quais os dos outros. Ficou quase tudo esclarecido. E ainda me achou uma sancha, que assei na lareira, com sal. Nham.

cuidado

é a loucura no monte

Quadragésimo quarto dia - Estrela

dia-a-dia: agora já ninguém goza comigo

Raio de frio. Frio frio frio. Frio de manhã, antes de acordar, à tarde, ontem à noite, ainda agora. Aliás, gelo no vidro do carro às nove da noite? É frio. Muito frio.

Ontem apercebi-me que ninguém sobrevive sem gás nem lenha por estas paragens. Na semana passada, que nem puto inteligente, comprei antecipadamente a botija de gás que me manteria vivo durante esta semana. Ontem cheguei achando que a botija me salvaria, mas nada, não encaixava, não encaixava. Talvez a cama, com lençóis novos, térmicos. Nada. Frio.

a asna, que claramente não é a mulher do asno

A meio da manhã, com tudo embalado na obra, fui a Lagoaça comprar pão. O pão é bom. Voltei à obra. Carpintaria a rolar. Excursão a Carviçais para comprar gás. De volta à Macieirinha, liguei a botija de gás. Já tenho gás para o banho. Achei-me mais inteligente do que antes e tentei pela quarta vez o aquecedor a gás. Nada. A válvula não dava. Um pouco esbaforido e totalmente desanimado, deitei um olho ao quarto do Quim, não fosse estar esquecida por lá alguma botija de água. Bingo. Achei-a e achei que tudo era possível, por isso avancei sobre a botija (de gás) para a quinta (sexta?) tentativa. E atinei com a válvula. É essa botija que neste momento me mantém vivo.

Os cachorros já abrem os olhos. Fiz questão que olhassem para mim, para perceberem quem manda. Sou eu. Os homens falavam de uma cena de porrada entre gajas, em Freixo. No borralho, o Amílcar e a Alcina discutiam casas-de-banho, aparentemente uma discussão que já dura há anos. Chegado o Luís, pedi-lhe e ao Amílcar que me acompanhassem ao meu pinhal. Já o sabia, mas difícil foi convencê-los. O monte é tanto que até um homem se assusta. Encontrámos marcos que eu tinha marcado com um spray na tentativa anterior, marcos com paus ao alto, outros tombados. Parte dos marcos são bem difíceis de achar. Prometi-lhes que ia marcar o meu terreno e limpá-lo.

o mais claro é o bilucas

tio Amílcar e tio Luís, monte acima

Ao chegarmos junto das casas, já o Luís ia longe, tentei fazer conversa. E este castanheiro, antigo, não? Este? Com esta largura, mais de cem anos terá. Olhe, vou contar-lhe uma coisa que se calhar não vai acreditar. Vê aquela serra, aquela última? E se eu lhe dissesse que aquela é a Serra da Estrela?

Vá dizendo, tio Amílcar. Vá dizendo que eu acredito em tudo.

a Serra da Estrela é já ali