Nonagésimo sétimo dia - cadelo


De pé às seis e meia; na obra às sete e meia; vinte minutos depois chega o empreiteiro. Amanhã fazemos o chão, anunciei em tom triunfante ao empreiteiro. O chão das casas de banho, isto é. Chão de cimento revestido a tinta de piscinas. Algumas camadas, é tudo. Ronda de explicações. Uma quezília. Eu explico o que quero aos carpinteiros e eles arranjam maneira de o fazer. É assim que se faz. Bô bô bô. Tu pedes muito, isto não é assim como tu dizes, ó Nuno. Ó senhor Manuel, cada um sabe da sua arte. Eu digo ao carpinteiro e ele faz como eu quero. Eu não sou pedreiro, eu não sei como se faz. Digo-lhe o que quero e você arranja uma maneira. É assim ou não é?

o duche a ganhar forma
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Afinal, é. Tudo se resolveu. Não sabia como fazer o chão com o ralo e o sifão embutidos. Isto depois de, na semana passada, lhe ter mostrado os ralos e os sifões. Chamou-se o picheleiro. Para a vinda não ser em vão, arranjei-lhe mais tarefas. Tapar com grelhas os buracos da ventilação, mudar o tubo do saneamento da máquina de lavar a roupa, instalar a caixa do contador. Como nenhum dos fornecedores me arranjou uma caixa metálica, tivemos de optar por uma convencional, de plástico. Na última versão do plano, a caixa ficava embutida na parede, coisa que sempre odiei, e que ainda para mais implicava pedra partida e trabalhos extra. Imerso na dúvida, coloquei a caixa encostada à parede. Com um jeito de caixa do correio, coisa que nunca envergonhou nenhum muro. Com a ajuda de spray preto, pintei a tampa e a caixa interior de preto e pedi ao picheleiro para a fixar à parede.

cucu! sou uma caixa.
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cucu! desapareci.
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Tudo isto com um calor que já se sentia às nove da manhã e só amainou depois do jantar.

As minhas noites na Macieirinha têm sido acompanhadas pelo deambular constante de uma coruja. Para os mais pacientes ela deixa-se ver, pousada nos postes de eletricidade a chamar pela fêmea (ou vice-versa). Gosto dela. É minha amiga.

Diz-me a senhora ao meu lado, eles moram sozinhos lá em cima, só com o gado e os cadelos. Quando uso palavras que aprendo na Galiza, é porque sou maluquinho. Ora eu uso-as exatamente por saber que, mais cedo ou mais tarde, as encontro em Portugal.

Nonagésimo sexto dia - Trovão


A mãe do homem do motopico teve uma consulta e o chão das casas de banho ficou para a semana. Espero que a greve dos médicos não me trame a obra.

Chegou-me a Alcina para que lhe abrisse a casa. Sentia o Trovão a ganir, e como não sabiam dele ela intuiu que tivesse passado a noite na obra. E lá estava o bicho, irrequieto como sempre. Saiu da casa aos pulos. Mais um hóspede contente.

Assusta-me a ideia de acordar às seis da manhã. Agora acordar às seis da manhã para nada ainda me desagrada mais. Sem homens para orientar, virei-me para a cortiça que sobrou. Chegou a hora de a guardar. Lá pelas dez e meia chegaram os senhores do ar condicionado. Com a presteza habitual, acabaram tudo antes das quatro. E ala que se faz tarde.


ar condicionado
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Nonagésimo quinto dia - tronco


À entrada de Martim Tirado, uma surpresa, certamente obra do nouvel habitant de Martim Tirado:

cosmopolaite
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Assim se confirma Martim Tirado como o centro cosmopolita do Nordeste. O Porto que se cuide. E Londres.

Logo desde cedo continuei com os carpinteiros a laboriosa obra de dar vida a desenhos estranhos.

duo dinâmico
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Como os homens deixaram o serviço acabado cedo pus-me em arrumações. Primeiro a desmanchar as podas dos olmos. Passado um tempinho, mais uma calda, desta sobretudo nos olmos, a ver se o fungicida faz efeito. Mais ao fim, e como vou voltar de carro, decidi finalmente carregar o tronco de amendoeira para o carro. , prepara-te que aqui vou eu.

Nonagésimo quarto dia - rodapé

Cheguei no comboio do almoço. A seguir a Moncorvo sucediam-se os troncos laranja de sobreiros, frescos da passagem dos descortiçadores. O calor aperta. Os carpinteiros chegaram pouco depois de mim. Primeiro tratámos de comprovar que o arquiteto percebe pouco da arte. Pedi-lhes para fazerem uma forma de madeira para que o empreiteiro se pudesse orientar ao fazer o rodapé. O Carlos convenceu-me que, para além de ser de difícil instalação, o rodapé não ia servir de nada. Amanhã vê-se.

reguando
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Passei por Freixo para tratar de mais burocracia. Comprei também o ralo e o sifão, para que ao fazer a pavimenta se deixe essas peças imbutidas.

Nonagésimo terceiro dia - salamandra

Acordei tarde. O plano para o dia consistia em esperar um telefonema da empresa de lareiras a avisar-me que tinha chegado a salamandra. Chegando o bicho, era levá-lo a Martim Tirado. Fui a Freixo limpar o pó às burocracias. Ao início da tarde chegaram os senhores das lareiras e a ADF 480 NM-RS. Confesso que o meu entusiasmo com as salamandras antigas se esfumou quando vi os modelos da ADF. E se não gostei à primeira da que acabei por comprar (a que encomendei, a MULTIO S, estava esgotada na fábrica), toda e qualquer dúvida esfumou-se ao vê-la no sítio. A sala parecia esperar por ela. Tanto tempo chateado por não ter orçamento para os recuperadores vistosos que via nos catálogos e acabei por comprar uma salamandra a um preço aceitável que certamente deixará os meus futuros hóspedes com mais uma razão para voltar. Assim espero.


a bela da salamandra
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O serviço, no entanto, não ficou acabado. Os homens esqueceram-se duma gola para a parte de fora e eu não gostei da solução para tapar o buraco na madeira. Já esperava. Um cilindro que atravesse um plano inclinado não produz uma circunferência, mas sim uma elipse. A solução deles era um espelho circular. Não resultou. A ver o que inventam amanhã.

a seguir, fumo pela chaminé
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Nonagésimo segundo dia - fungicida


Passei o dia inteiro a olhar para os carpinteiros a trabalhar e meio dia a tentar corrigir um erro que vinha de trás. Habituado a pensar com o Autocad e uma calculadora à frente, a ausência destes e a presença dos carpinteiros desligou-me o cérebro. Só mais tarde, em recolhimento (e com o telemóvel a servir de calculadora), lá dei a volta à coisa. O essencial das réguas de vinte centímetros ficou feito.

o Carlos planeia. Nem todos o fazem
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O pulverizador do tio Aníbal voltou à vida! Com fita preta a vedar uma fuga no tubo (não resultou), já com a mistura feita (5 litros de água com menos de uma colher de sopa de calda bordalesa - sapec, 20% de sulfato de cobre), pulverizei as parreiras e os pessegueiros. E, já que estava com a mão na massa, os olmos. Se o que os mata é um fungo, nada melhor do que um fungicida.

O Zé Manel, sorridente, trouxe-me um pingente à mão. A mulher diz que é São Cristóvão. É consensual que  é antigo. Os especialistas o dirão.

pingente achado na ribeira
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Nonagésimo primeiro dia - penúltimo marco


Mais sono que discernimento e cruza-se uma raposa à frente do carro. Durante o dia, a sem-vergonha.

Cheguei já os carpinteiros se atarefavam. Com a obra tão avançada já pouco queda por fazer. Verifiquei se o trabalho dos pedreiros estava feito - a picagem do chão das casas de banho, as pedras tiradas do quintal. Tudo feito. Os carpinteiros lá iam descarregando o mdf, também a banca de pedra do Poio. Começava a azáfama de colocar as réguas na parede de acordo com o desenho. As impoderáveis são tantas que só profissionais capazes e um bom acompanhamento garantem bons resultados finais.

 primeira régua, sempre a mais complicada
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Já depois do almoço dei na cabeça do carpinteiro mais novo. As réguas cortadas por ele ficavam lascadas, enquanto que as cortadas pelo patrão estavam perfeitas. Tu não vês que o mdf fode os discos? Então desde a manhã para a tarde? Ah pois é. Afinal não era nada. Confrontando com o trabalho da tarde dele e do outro carpinteiro, logo percebemos que o disco era desculpa para a falta de jeito. O calo ganha-se. Parte das coisas podia fazê-las a dormir, dizia o Carlos.

o Bruno, fantasma
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Voltei agora do pinhal. Em jeito glorioso, um pouco antes de voltar, decidi cortar pelo matagal, de baixo para cima, orientando-me com a segurança da fronteira entre o meu prédio e o vizinho, claro mais abaixo, impercetível em cima. Queria perceber se a desmatação a que me tinha dedicado era fora ou dentro do meu prédio. Percebi que estava a desmatar no limite, por isso vou continuar apenas para a esquerda. Imbuído da genica que nunca me falta no meio do monte, continuei na linha reta imaginária para o outro lado do caminho, onde me asseguraram existir uma nesga de pinhal que me pertence. Já tinha avançado imensas vezes para lá do caminho mas nunca achara os marcos certos, mas outros marcos, de outros prédios. E hoje, a poucos metros de onde tenho trabalhado, lá estava o malfadado marco, dois na realidade, a marcar o remate do meu prédio. Foi bom de ver.

O Zé Manel chegou agora de regar. As tardes longas dão para muita coisa. Na orelha traz um ramito. Digo-lhe. Isto? É para afugentar as moscas. As moscas? Esta hortelã cresce lá em baixo na ribeira, e tendo isto já as moscas não se chegam.