Centésimo nono dia - azulejo

A tropa seguia insatisfeita com as condições de trabalho. Ah, tanta coisa com o rio e tal e nada de rio. Que não seja por isso. Seguimos diretamente para Mazouco, para uns mergulhos após o almoço. Avançámos para a sala, já com a técnica aprimorada. Ainda não é desta que entra o barro.

Os senhores do azulejo vieram de manhã e despacharam a cozinha. No entanto, o azulejo das casas de banho vinha errado, por isso fica para a semana essa parte.

azulejo à vista

Centésimo oitavo dia - aprender

Nem a fita de eletricista nem a fita-cola de papel barata - só a fita da tesa nos safou. Logo que chegámos despachámos a proteção da madeira, tanto da grelha como da caixa técnica (esta última com cartão canelado). Quando acabámos juntaram-se todos à minha volta, como numa aula, à volta do professor. Lamento, só sei que é para molhar, aplicar e bater. A técnica vem depois.

o Hugo a pôr fita

Choveu a noite toda. A Alcina pedira-nos chuva, como quem pede uma maçã.

Centésimo sétimo dia - fita


Primeiro dia da nossa pequena oficina informal de terra batida. Somos quatro arquitetos, prontos para tudo. Bater saibro, domar osgas, apanhar abrunhos em ruínas. Hoje, como começamos apenas perto das cinco da tarde, deu apenas para pôr fita no quarto de cima e na sala. Os 36° da última sexta fizeram todo o tipo de fita descolar, mas hoje, com um dia fresquinho e com fita-cola de papel tesa tudo se resolveu.

o Hugo numa pausa
Os carpinteiros passaram o dia na obra e deixaram tudo pronto para a terra, e pregaram mais uns barrotes para o armário entre a sala e a cozinha.

Amanhã somos cinco. Aí ninguém nos para.

Centésimo sexto dia - batman

Talvez o dia mais difícil de passar até agora. Disse-me um taxista conhecido, em Freixo, que estariam 36°. E quando o sol surgia por detrás das nuvens. Deus meu.

O dia comecei-o cedo, como já é hábito. Tinha de descarregar o carro, em parte cheio de material para a terra batida, por outro lado carregadíssimo com o essencial da loiça sanitária para a casa. Testei também uma mangueira nova, ligada à torneira da banca dos meus avós. A mangueira servirá para humedecer o saibro e para molhar o barro, a usar no chão. 

Os carpinteiros começaram com o reguado (para conter a terra batida) no quarto de cima. Como eu esperava que as réguas fossem de contraplacado (1,8 centímetros de espessura), disse ao carpinteiro que podia cortar as réguas transversais, que serviam como bitola, com 18 centímetros, e as compridas vinham com folga e acertavam-se na obra. Para minha surpresa, as réguas eram de madeira maciça e tinham mais de 2 centímetros de espessura. Ao juntar-se as réguas todas não batia certo, portanto todas as bitolas tiveram de ser acertadas um milímetro. Como em tudo na vida, só custa à primeira.

o Carlos em ação

desfasado

quarto, sala, cozinha. assim se faz uma casa

Com o trabalho a avançar a bom ritmo (e como ninguém me fez o almoço em Martim Tirado), rumei a Freixo, para rango pago, uma máquina de lavar roupa para escolher e uma incrível exposição de arte quinhentista para visitar. Não sei quem se lembrou de inventar que teria sido Grão Vasco a pintar as telas (que fazem parte do retábulo da Matriz e foram recentemente restauradas na biblioteca, já que os freixenistas fizeram barulho e não deixaram sair as telas), mas a exposição vale bem a pena. Aconselho a visita agora, que as telas estão à altura dos olhos, porque em setembro voltam ao retábulo, e aí só de binóculos.

(não é Grão Vasco)

Ao voltar, uma contrariedade. A luz falhou, a vizinha não deixava ligar à casa dela, e o trabalho dos carpinteiros ainda mais atrasado. Sempre a apagar fogos, lá convenci a vizinha a emprestar a luz até ao fim do dia, e chamei o piquete da EDP para o conserto, concretizado ao fim da tarde. O impasse traduziu-se no trabalho inacabado.

Também por lá passou o senhor do gás, que selou o tubo furado na semana passada e o senhor dos materiais de construção, que me trouxe o barro. O saibro chega amanhã. 

Comecei a proteção da madeira. Da fita-cola de eletricista (um flop), passei para fita-cola de papel, mais apropriada à madeira mas ligeiramente mais larga. Tive de tirar o excesso ao X-ato, o que torna o processo mais trabalhoso. E ainda estou para ver se a fita-cola de papel não salta como saltou a de eletricista.

Pedi ao Zé Manel que me mostrasse um amendoal que o meu pai não herdou e que estaria ao abandono. E É GIGANTE. E eu que achava que as minhas quinze amendoeiras eram muitas. Ali haveria mais de cem, todas por limpar, o terreno por arar, silvas a prosperar. Talvez algum dia lhes possa dar a devida atenção.

Lá fora ouço o morcego, sempre a chiar. Talvez por isso não tenha insetos no quarto. Tenho o batman do meu lado.

Centésimo quinto dia - lenga-lenga

Onde foi este gigante criado?
Nas Quintas de Martim Tirado.
Com leite quente bem migado
e toro de míscaro assado.

E avança tudo, em força. Os eletricistas montam caixas e assentam candeeiros; os carpinteiros montam calhas e assentam móveis. Apenas um pequeno detalhe: um dos carpinteiros furou um dos tubos de ar condicionado, atrasando o fecho das calhas. Primeiro temos de chamar um senhor para soldar o tubo, segundo temos de injetar gás de novo no sistema. Com outro senhor, imagino eu.

a estrutura

calha técnica 1

calha técnica 2

Centésimo quarto dia - na piscina

Eletricistas em força, a furar o quintal (e o muro) para fazer a ligação da casa à rede. O carpinteiro apareceu a meio da manhã para medir as placas para tapar a zona técnica. Amanhã monta-se. A tarde passei-a na piscina de Moncorvo.

o senhor da eletricidade faz a sua cena

Centésimo terceiro dia - gineta


Começou agosto, entraram os eletricistas. Logo de manhã vieram três eletricistas (um para explicar como era a obra e os outros para executar) e o engenheiro (basicamente para me dar nas orelhas, que assim não podia ser, etc.). Começou-se a instalar o que dá - interruptores, apliques, a caixa da eletricidade, da API.

primeira tomada

A construção em terra pode ser incrivelmente benéfica para o ambiente, mas, como em tudo, tem de ser bem pensada. Durante a tarde, depois de uma soneca pós-almoço sob os pinheiros, fui ver do saibro. Quem me atendeu o telefone falou que sim, claro que se arranjava o saibro, apesar dos ambientalistas. E lá estava o saibro, em pilhas gigantes. Trouxe uma amostra para testes.

Ao voltar do saibro encontrei uma gineta, morta por algum carro. Já vi várias a fugir dos faróis dos carros, mas nunca assim tão próxima, tão real. Pobre coitada.

pobre da gineta

Pouca sorte teve também a Fidalga. Passou um dia presa a um laço (mais uma vez, de autor anónimo) que lhe prendeu a pata, que ficou ferida.

Talvez por causa da pata dorida, a Fidalga não quis acompanhar-me na caminhada do costume. Cortei pela eira junto à casa, pinhal adentro. Passado o cabeço, desci por um amendoal. Atraía-me uma casa abandonada, mais uma, esta com dois pisos, que em Martim Tirado só acontecia quando construídas sobre desníveis. Via-se de fora que o telhado não dura muito. O interior, no entanto, estava mantido. Casa de morcegos, que esbracejavam sobre a minha cabeça. A casa, comprada pelo que me dizem por pessoas do Porto, tinha de ser recuperada agora, antes que caia o telhado.

todas as casas têm um