Centésimo vigésimo sexto e centésimo vigésimo sétimo dias - linhas

Quarta fiz sete linhas. Ontem fiz cinco. Hoje fiz três e meia. Falo, como é óbvio, de linhas de barro. Fiquei a quatro de acabar o quarto de cima.

quarto de cima

Ontem tive de gerir a maralha de eletricistas que se ajuntaram na obra. Eles vinham com o objetivo específico de rematarem tudo mas, para além de não terem trazido todo o material necessário, o que faltava era de mais para só um dia. Puseram um dos candeeiros de cortiça no ar. Ficou bem.

primeiro candeeiro

armário a caminho

Hoje voltou o carpinteiro. Com as ligações elétricas no armário entre a sala e a cozinha despachadas, era hora de fechar o armário. Azar dos azares, o forro não chegou (grande surpresa), e o dia de trabalho acabou mais cedo. Passei por Freixo para ver a banca. Fiquei um pouco desagradado com o resultado, mas a culpa é só minha. Ficaram já montadas as prateleiras na passagem entre a sala e a cozinha, enviesadas, como a casa é enviesada. Ficaram bem.

armário a caminho

A tia Alcina convidou-me para almoçar. Era meio-dia e o tio Amílcar ainda não lá estava. Encontrei-o junto da passeira, a abrir ameixoas. Para o ano faço uma.

Centésimo vigésimo quarto e centésimo vigésimo quinto dias - floribella

Perdi a noção dos dias, das horas, do trabalho. Ontem, exausto, fui incapaz de escrever o diário. Fui direto para a cama. Talvez por causa disso, talvez por os dias serem todos iguais, hoje não tinha noção do trabalho que tinha feito. Pô, eu fiz isso tudo hoje? Afinal, fiz mesmo.

Começando por ontem, o carpinteiro começou o armário entre a sala e a cozinha, e logo me assustou. Quando, depois do almoço, chegou o patrão com as caixas para o armário, as medidas não batiam certo certo e o carpinteiro, isto assim não dá, então não sabiam medir bem as coisas, a conversa do costume. Deixei-o falar, o dia foi avançando e tudo se compôs. Muito mal não estaria. Ficou a face do armário virada para a sala quase acabada.

armário a caminho

No barro, acabei a primeira camada do quarto de cima e com o barro que sobrou fiz uma parte do quarto de baixo. O barro começa-me a parecer pouco. Ao fim do dia ainda fiz duas filas da segunda camada no quarto de cima (nota mental: já é tempo de os quartos terem nome).

Hoje custou-me a levantar. Na obra já o carpinteiro se azafamava, sequioso de continuar o trabalho. Em pouco tempo acabou a face da sala, e quando se preparava para fazer o mesmo na face virada para a cozinha, pedi-lhe para abrandar. Se ele fechasse tudo os eletricistas não podiam fazer as ligações. Contrariado, e depois de muito rabujar, lá se virou às escadas, autêntico jogo de construção infantil.

armário a caminho

o escadório a meio caminho

No campo do barro, e ainda para mais num dia com novidades, telefonemas, ida a Freixo e acompanhamento do trabalho do carpinteiro, fiquei surpreendido ao ver que tinha feito mais de um terço da segunda camada de barro do quarto de cima. De facto, o trabalho só não anda quando se está parado. Mesmo em dias maus como o de hoje, se levarmos o trabalho cadenciado e ligeirinho o resultado surge, brilhante.

quarto de cima

Quando estão para bater as onze começo a cheirar, como os cachorros, a ver se encontro as senhoras. Vejo-as ao longe, chego-me perto para as cumprimentar, e faço o que posso para que me convidem para almoçar. Hoje de manhã a tia Alcina lá vinha, toda curvadinha, da apanha da amêndoa. Vinha cansada, não ia fazer nada de especial para comer, ao que lhe respondi que não se preocupasse comigo, que tinha o que comer. Deve ter percebido tudo ao contrário porque pouco depois apareceu-me com um saco com um ovo cozido, um naco de pão e um chouriço, e pediu-me sigilo, com medo da reação do marido. A irmã, talvez para não ficar atrás, trouxe-me três pepinos e seis ovos ao final da tarde, para uma omolete, para além dos seis abrunhos que me trouxera antes. Com tão pouco, senti-me rico. Como a Floribella.

Centésimo vigésimo terceiro dia - escadório

Carpintaria de volta à obra. E desta é para acabar, garantem-me. Hoje começou-se pelo forro das casas de banho (que à hora do almoço já tinha acabado, como de vezes anteriores - é difícil, com as emendas e erros, medir com precisão as quantidades necessárias).

o quarto de cima

Os da aldeia já andam à amêndoa. Perguntei-lhes se devia fazer o mesmo e responderam-me que a minha era mais tardeira. Mas era olhar para a árvore. Fiquei confuso.

Ao fim da tarde passei na oficina do carpinteiro para discutir pormenores da banca e do armário entre a sala e a cozinha. A escada, parte integrante desse armário, já estava cortada.

o escadório real

Centésimo vigésimo segundo dia - bolhinhas

Novo problema, desta feita bem menor: a mistura, estando super-líquida, pode ganhar bolhinhas. Mais uma para o catálogo.

a sala

Cheguei às quatro exausto, encostado a uma parede, abafado pelo calor. Acabei a sala. Antes de ir embora fui apanhar figos e pêssegos. As figueiras, que não foram regadas, cresceram pouco este ano: poucos ramos novos, poucas folhas, figos pequenos. Os pessegueiros, pelos quais não dava dois chavelhos (e que no ano passado nem pêssegos deram), surpreenderam-me com pêssegos saborosos que, quando escachados, soltam um sumo que nos molha os pés. O segredo, ao contrário das figueiras, é não regar, segundo o tio Luís, que me veio ajudar. Imagino que assim dê menos pêssegos, mas mais saborosos.

Comecei o quarto de cima depois do almoço mas o calor levou a melhor. Tou fora.

o quarto de riba

Centésimo vigésimo primeiro dia - gato-bravo

Acordei tarde e logo segui para Freixo. Precisava de comprar mercearias e uma máquina de lavar roupa para a casa. Aproveitei para consultar o email no sempre agradável Café Xangai e para falar com o carpinteiro. Era dia de feira, estava Freixo cheio de gente como nunca vi.

Voltei para continuar o chão. A verdade é que o trabalho solitário, as dores e o calor deitam qualquer um abaixo, mas quando se conclui que o trabalho não corre bem, o intelecto reage ainda pior, e vamo-nos abaixo. Foi o caso dontem, ao notar que parte do trabalho anterior não tinha corrido bem e que, mesmo sabendo disso, não conseguia dar a volta e fazer bem.

a sala

Tudo mudou hoje. Para além ter passado a ter todo cuidado do mundo com a água que uso para molhar o barro antes de aplicar a segunda camada, passei a aplicar o barro extremamente molhado (quem me ensinou falou-me em 'goma', e acho que o termo é correto). Assim, o remate final com a palustra é um ligeiro afagar duma 'goma' molhada. A palustra desliza como uma prancha de surf sobre uma onda.

a sala

E nota-se no resultado. Como a camada final é aplicada quase líquida, a água faz com que não sobrem espaços entre as areias e o barro, o que dá origem a uma superfície homogénea.

a sala

A Clementina deu-me a provar o doce (compota) de tomate acabada de fazer. Espalhei-a, ainda quente, sobre uma fatia de pão. Os turistas hão de fazer filinha, tia Clementina.

Ainda agora, seguia-me o Trovão a caminho da escola quando o vejo a largar encosta acima. Logo atrás dele seguiu a Fidalga. Seguiam atrás de um gato pardo, gordo e de cauda espessa. A perseguição continuou pelos pinhais, com cães de todo o lado a juntarem-se à festa. Ou é de mim ou era um gato-bravo.

Centésimo vigésimo dia - chichi de obra


Hoje foi um bom dia de trabalho. Tirando o início da manhã, em que acompanhei o picheleiro no conserto da fuga, trabalhei seguidinho. Acabei a primeira camada de barro na sala e, ao fim da tarde, recomecei a segunda camada. Os processos vão simplificando-se à medida que os dias correm, mas a segunda camada continua a ser a mais custosa e demorada. O meu braço direito só aguenta o esforço à custa de muito voltaren. A ver quanto mais tempo duro.

O chão avança, se bem que com algumas dúvidas. Parte dos retângulos que enchi na semana passada ganharam um tom pardo. Quando se olha com mais pormenor vê-se que há áreas em que uma das argilas, de tom mais amarelado, se sobrepõe ao barro vermelho e quebra a homogeneidade. Mudei algumas coisas no processo, a ver se consigo evitar isto.

a sala

Hoje fiz o meu primeiro chichi de obra. Felizmente havia sanita.

A Clementina voltou a ter televisão (malfadada tdt). O país arde.

Centésimo décimo nono dia - caranguejo

Começo a duvidar seriamente das capacidades do picheleiro. Pedi-lhe para tratar da fuga durante o fim de semana. Veio ontem. Quando cheguei à obra, hoje, depois do almoço, liguei a água para testar a eficácia do conserto. Percebi na hora que o problema estava por resolver - a rodinha do contador girava e o saibro logo voltou a encharcar-se. Aproveitei a presença dos eletricistas e pedi-lhes para soltarem a tomada embutida, para que se pudesse levantar a tábua que tapava o furo. O interior da tomada estava encharcada, assim como todo o espaço sob a tábua. Mexi na maralhada de tubos e percebi que era ali o problema. De tanto se mexer nos tubos da água (é das zonas da casa com mais confusão de tubos e canudos), uma das ligações soltou-se, e daí fugia a água.


malfadado furo

Pela minha parte, de volta ao chão. Ainda não consegui alguém que trabalhe à geira e possa ajudar-me. A casa já está ligada à rede elétrica. Quando cheguei, o Amílcar, não sei se da leitura dos jornais, questionava-se se existirá solução para os problemas do país. Não será concerteza com a austeridade da troica, assevera. Encontrei o Luís e a Clementina à entrada de Martim Tirado. Vinham da feira de Mogadouro.

os elétricos em operação
Ao limpar os cacos da tragédia da outra semana surgiu-me isto:

não fujas aranhinha

Costeiro que sou, pensei que fosse um caranguejo.