Centésimo trigésimo dia - raposa

O servente, que tão prestimoso se revelou a acabar o saibro, mostrou-se lento e inábil na primeira camada de barro. A olho, parecia demorar o dobro do tempo que eu demoraria a encher um retângulo de barro, ainda para mais numa camada que se quer tosca e expedita. Foi-se embora sem acabar a cozinha, coisa que tentei acabar eu próprio ao final da tarde, sem sucesso.

a cozinha

O dia atrasou-se-me por via dum emprevisto. Um dos vizinhos sentia-se mal e a mulher, à falta de táxis que a acudissem, veio 'falar-me' do caso. Prontifiquei-me a levá-los a Freixo, ao Centro de Saúde, que posteriormente os enviou para Mirandela. Só voltei depois das três.

Quando cheguei acabei o envernizamento das divisões de cima. Durante a manhã acompanhei o patrão dos carpinteiros revendo armários e medidas, e o funcionário no avançar dos trabalhos. Esqueci-me dizer - já chegaram as portas interiores!! Com acertos a fazer, principalmente nas portas da casa de banho do quarto de cima, que teimam em bater uma na outra.

à volta dos aros

Preocupado com a secagem do saibro, tenho mantido todas as portas e janelas bem abertas, e hoje abri também as claraboias. Para meu agrado, o vento puxou bem durante o dia, se bem que este vendaval noturno me deixa de sobreaviso. Imagino que não haja problema, desde que não chova.

Ontem, durante a noite, um bichito ladrou por trás da minha cama, lá fora. Uma raposa, talvez.

Centésimo vigésimo nono dia - choiba

Hoje, finalmente, entrou o servente para me ajudar no chão. Veio de Carviçais. Pu-lo a acabar o saibro no quarto de baixo, enquanto eu ataquei a parte de cima. Era hora de começar a primeira mão de verniz. 88% de linhaça, 10% de aguarrás e 2% de secante.

kit de envernizamento

quarto de cima

Ao voltar para a escola, ainda agora, parei para cumprimentar a tia Alcina e o tio Amílcar. Não me ligaram muito. Estamos com medo que choiba, confidenciou-me o tio Amílcar, e nos molhe a amêndoa toda. Ora choiba. Mais uma palavra 'galega' tão longe da Galiza. Foram certamente colonos que andaram por aqui.

a ver se não vem a chuva

Já a sair ouvi, de pessoa não identificada, tenho de amerrindar o cu que estou cansada. E assim se passou mais um dia.

Centésimo vigésimo oitavo dia - esquilo

Comecei a trabalhar, já depois das dez, na parte de cima. Interessa-me, quanto antes, rematar o barro na sala e no quarto de cima para se dar início ao envernizamento. Na sala faltava ainda a primeira camada de barro em duas linhas - check; no quarto faltavam quatro linhas da última camada, entretanto despachadas. Com o barro crivado que sobrou avancei para fechar a segunda camada na sala, que não acabei por um inusitada dor nas costas.

quarto de cima

a sala

Vi um esquilo morto junto ao bairro Ferrominas, no Carvalhal. Uma senhora que mora à entrada de Martim Tirado correu atrás do carro quando me viu a passar. Deu-me oito ovos.

Centésimo vigésimo sexto e centésimo vigésimo sétimo dias - linhas

Quarta fiz sete linhas. Ontem fiz cinco. Hoje fiz três e meia. Falo, como é óbvio, de linhas de barro. Fiquei a quatro de acabar o quarto de cima.

quarto de cima

Ontem tive de gerir a maralha de eletricistas que se ajuntaram na obra. Eles vinham com o objetivo específico de rematarem tudo mas, para além de não terem trazido todo o material necessário, o que faltava era de mais para só um dia. Puseram um dos candeeiros de cortiça no ar. Ficou bem.

primeiro candeeiro

armário a caminho

Hoje voltou o carpinteiro. Com as ligações elétricas no armário entre a sala e a cozinha despachadas, era hora de fechar o armário. Azar dos azares, o forro não chegou (grande surpresa), e o dia de trabalho acabou mais cedo. Passei por Freixo para ver a banca. Fiquei um pouco desagradado com o resultado, mas a culpa é só minha. Ficaram já montadas as prateleiras na passagem entre a sala e a cozinha, enviesadas, como a casa é enviesada. Ficaram bem.

armário a caminho

A tia Alcina convidou-me para almoçar. Era meio-dia e o tio Amílcar ainda não lá estava. Encontrei-o junto da passeira, a abrir ameixoas. Para o ano faço uma.

Centésimo vigésimo quarto e centésimo vigésimo quinto dias - floribella

Perdi a noção dos dias, das horas, do trabalho. Ontem, exausto, fui incapaz de escrever o diário. Fui direto para a cama. Talvez por causa disso, talvez por os dias serem todos iguais, hoje não tinha noção do trabalho que tinha feito. Pô, eu fiz isso tudo hoje? Afinal, fiz mesmo.

Começando por ontem, o carpinteiro começou o armário entre a sala e a cozinha, e logo me assustou. Quando, depois do almoço, chegou o patrão com as caixas para o armário, as medidas não batiam certo certo e o carpinteiro, isto assim não dá, então não sabiam medir bem as coisas, a conversa do costume. Deixei-o falar, o dia foi avançando e tudo se compôs. Muito mal não estaria. Ficou a face do armário virada para a sala quase acabada.

armário a caminho

No barro, acabei a primeira camada do quarto de cima e com o barro que sobrou fiz uma parte do quarto de baixo. O barro começa-me a parecer pouco. Ao fim do dia ainda fiz duas filas da segunda camada no quarto de cima (nota mental: já é tempo de os quartos terem nome).

Hoje custou-me a levantar. Na obra já o carpinteiro se azafamava, sequioso de continuar o trabalho. Em pouco tempo acabou a face da sala, e quando se preparava para fazer o mesmo na face virada para a cozinha, pedi-lhe para abrandar. Se ele fechasse tudo os eletricistas não podiam fazer as ligações. Contrariado, e depois de muito rabujar, lá se virou às escadas, autêntico jogo de construção infantil.

armário a caminho

o escadório a meio caminho

No campo do barro, e ainda para mais num dia com novidades, telefonemas, ida a Freixo e acompanhamento do trabalho do carpinteiro, fiquei surpreendido ao ver que tinha feito mais de um terço da segunda camada de barro do quarto de cima. De facto, o trabalho só não anda quando se está parado. Mesmo em dias maus como o de hoje, se levarmos o trabalho cadenciado e ligeirinho o resultado surge, brilhante.

quarto de cima

Quando estão para bater as onze começo a cheirar, como os cachorros, a ver se encontro as senhoras. Vejo-as ao longe, chego-me perto para as cumprimentar, e faço o que posso para que me convidem para almoçar. Hoje de manhã a tia Alcina lá vinha, toda curvadinha, da apanha da amêndoa. Vinha cansada, não ia fazer nada de especial para comer, ao que lhe respondi que não se preocupasse comigo, que tinha o que comer. Deve ter percebido tudo ao contrário porque pouco depois apareceu-me com um saco com um ovo cozido, um naco de pão e um chouriço, e pediu-me sigilo, com medo da reação do marido. A irmã, talvez para não ficar atrás, trouxe-me três pepinos e seis ovos ao final da tarde, para uma omolete, para além dos seis abrunhos que me trouxera antes. Com tão pouco, senti-me rico. Como a Floribella.

Centésimo vigésimo terceiro dia - escadório

Carpintaria de volta à obra. E desta é para acabar, garantem-me. Hoje começou-se pelo forro das casas de banho (que à hora do almoço já tinha acabado, como de vezes anteriores - é difícil, com as emendas e erros, medir com precisão as quantidades necessárias).

o quarto de cima

Os da aldeia já andam à amêndoa. Perguntei-lhes se devia fazer o mesmo e responderam-me que a minha era mais tardeira. Mas era olhar para a árvore. Fiquei confuso.

Ao fim da tarde passei na oficina do carpinteiro para discutir pormenores da banca e do armário entre a sala e a cozinha. A escada, parte integrante desse armário, já estava cortada.

o escadório real

Centésimo vigésimo segundo dia - bolhinhas

Novo problema, desta feita bem menor: a mistura, estando super-líquida, pode ganhar bolhinhas. Mais uma para o catálogo.

a sala

Cheguei às quatro exausto, encostado a uma parede, abafado pelo calor. Acabei a sala. Antes de ir embora fui apanhar figos e pêssegos. As figueiras, que não foram regadas, cresceram pouco este ano: poucos ramos novos, poucas folhas, figos pequenos. Os pessegueiros, pelos quais não dava dois chavelhos (e que no ano passado nem pêssegos deram), surpreenderam-me com pêssegos saborosos que, quando escachados, soltam um sumo que nos molha os pés. O segredo, ao contrário das figueiras, é não regar, segundo o tio Luís, que me veio ajudar. Imagino que assim dê menos pêssegos, mas mais saborosos.

Comecei o quarto de cima depois do almoço mas o calor levou a melhor. Tou fora.

o quarto de riba