Da cumeeira da tia Baldo se fez uma senhora saboneteira

Já desde a altura da demolição que olho para o que restou de madeiras da casa da tia Baldo a tentar perceber como dar-lhes uma nova vida. Sobrou algo dos armários, e sobretudo muita madeira das coberturas. Esta madeira tinha ficado encostada ao contentor durante bastante tempo, e para alindar um pouco mais o exterior da casa (e como os homens do lixo, obviamente, não tocaram na madeira), serrei e arrecadei todas os caibros, cúmeos e tábuas que sobraram.

O recheio da casa nova, comprado quase inteiramente no IKEA, foi sempre visto por mim como algo de transitório. Ponho aqui este mobiliário barato e bonito, e ao longo dos anos vou trocando móveis e acessórios por outros com mais valor, sentimental ou estético.

De muito olhar para as madeiras sobrantes lembrei-me de cortar pedaços dos cúmeos e, aproveitando a madeira boa do seu interior, fazer peças que pudessem tornar a Casa mais atraente para os seus hóspedes.

E assim se fez esta saboneteira, primeira de muitas. A madeira ainda não está bem identificada (o vizinho disse que seria pinho, mas não me parece uma madeira muito utilizada nas cumeeiras). Depois de sacado um pedaço (com uma serra e uma enxó), o trabalho seguinte passou por lixar e escavar (com uma navalha normal e uma faca de fazer colheres, de lâmina curva). Mantive a forma original e as faces queimadas pelo fumo. Fez-se o furo para escoar a água, alteou-se a base (para que a água não empape) com batentes pequenos e, por fim, dei-lhe duas camadas de óleo mineral, (mais uma vez) comprado no IKEA. Et voilá:


(mais fotos no flickr)

Dom Baldo de Martim Tirado e o seu palácio de uma torre - Capítulo VIII

Pouco tempo depois chegámos às imediações de uma igreja cristã, cujo santo se chamava Cristóvão, o qual protegia as pessoas em viagem, quer durante a vida, quer depois da morte. A povoação que ficava ao seu lado também tinha o mesmo nome.

Subimos as escadas de um grande rochedo, talhadas na pedra, para entrarmos naquela igreja, visitar o seu santo e pedir-lhe protecção. O santo concedia aquela protecção, não a toda a gente, mas apenas às pessoas que de facto se arrependessem das suas más acções. Não bastava dizer que estavam arrependidas. O santo averiguava a autenticidade do que diziam, porque tinha acesso directo ao seu pensamento. Certamente que nunca daria a sua protecção aos viajantes salteadores das estradas que não quisessem mudar de vida.

Encontrámos as portas da igreja fechadas, mas pudemos ver o seu interior através de umas janelas com grades de ferro, destinadas a permitir às pessoas em viagem que pudessem ver e falar com o santo a qualquer hora do dia, dado que ali passava muita gente. O santo, durante o dia, estava sempre disponível para receber as pessoas.

Na parede da igreja estava pintada a figura daquele santo, em cima de um rochedo, com uma barca de cada lado. A barca maior transportaria as pessoas vivas e a mais pequena as almas, dada a magreza das figuras humanas que estavam dentro dela e sua aparente leveza. Ao leme das barcas via-se uma figura brilhante parecida com o São Cristóvão, ou seria ele mesmo. 

Porém, a ribeira que circundava o templo nunca teve água suficiente para nela navegarem barcas, salvo em raras ocasiões de trovoadas com chuvas abundantes.

Talvez as barcas simbolizassem as viagens humanas, os caminhos e as estradas, fossem as pessoas a pé, a cavalo, de barco, através das nuvens ou de qualquer outro meio de transporte.

Detive-me a observar outra pintura no tecto da igreja, sobre o firmamento, tal como se encontra descrito no Livro do Génesis. A pintura estava tão bem feita que me pareceu por momentos que estava a ver o céu natural, salvo umas pequenas diferenças, das quais já não me recordo bem. 

No centro do firmamento encontrava-se a Terra e à sua volta as estrelas e os astros. A Terra era maior do que as estrelas e os outros astros.

Descíamos as escadas do rochedo, pela parte da frente da igreja, quando o meu ajudante caiu em cima delas, ficando ferido pelo menos nas costelas. Então queixava-se, ai, ai… e suplicava valha-me Deus. No meio deste triste episódio lembrou-se de que não tínhamos feito o pedido de protecção ao santo. Propus que o pedido se fizesse ali mesmo, pois o espírito do santo estava em todo o lado. Mas ele, pessoa entendida no assunto por ter frequentado o seminário durante alguns anos, do qual só saiu por ter que cuidar dos irmãos por morte do pai de todos eles, explicou que o pedido feito nas escadas não tinha tanto valor como aquele que era feito à janela da igreja se esta estivesse fechada ou dentro dela se estivesse aberta. A observação tinha razão de ser. De facto, atendendo à preguiça que reina no ser humano, desde o tempo de Adão e Eva, que quiseram comer o fruto da árvore que não plantaram, se os pedidos feitos nas escadas valessem o mesmo daqueles que eram feitos junto às janelas do templo, quando estivesse fechado ou no seu interior, quando estivesse aberto, então as pessoas evitariam subir as escadas. Além disso, o ser humano gosta de receber muito e de dar pouco ou nada. Seja como for, não visitar o santo estando perto dele, seria para ele uma desconsideração.

Cumprida a nossa obrigação junto do santo e depois de descer as escadas do rochedo, já nos dirigíamos ao lugar onde se encontravam os nosso animais e então, virando-me para a fachada da igreja para me despedir do santo, reparei que do lado direito dela existia um caminho junto a uma necrópole e do seu lado esquerdo um caminho junto a uma povoação com muitos habitantes. Isto surpreendeu-me. Relacionei estes caminhos com as barcas. O da povoação representaria a viagem dos vivos e o da necrópole representaria a viagem das almas.

As sepulturas escavadas na rocha alinhavam-se em forma de barca. Algumas tinham uma cobertura apropriada e outras estavam a descoberto. Talvez estas tenham sido violadas por ladrões de tesouros. De facto, naquela povoação os familiares dos defuntos depositavam nos seus túmulos comida para a viagem daqueles e alguns artefactos, se possível em ouro, para os usarem no outro mundo, caso fosse permitido ou pelo menos para se apresentarem.

Havia também sepulturas escavadas na terra, com coberturas de lajes de xisto, algumas removidas, porventura por ladrões. Em muitas coberturas estavam gravados os nomes dos defuntos. Um dos nomes tinha o meu apelido. Fiquei muito emocionado, por pensar que seria o apelido de um meu antepassado. Aliás, já alguém me havia dito que antepassados meus viveram na povoação de São Cristóvão. Isto emocionou-me profundamente. Curvei-me em frente daquele túmulo em homenagem à pessoa que ali foi enterrada. O meu ajudante fez o mesmo, talvez para agradar ao seu comandante, cargo que muito gostaria de ocupar.

Desde tempos remotos viveu ali gente e quis deixar gravado na rocha o seu modo particular de viver e transmiti-lo às gerações futuras. Sem aquelas rochas escavadas, sem as inscrições nas coberturas das sepulturas, sem os artefactos colocados nos túmulos e sem a igreja, provavelmente nem saberíamos que aquele lugar foi povoado tão remotamente.

Dom Baldo de Martim Tirado e o seu palácio de uma torre - Capítulo VII

No dia seguinte, saímos da povoação de Carviçais antes do amanhecer. Já íamos longe quando tocou o sino da sua igreja, para a missa ou para um baptizado. O sol abriu as suas portas e então pude ver ao longe, entre as montanhas e o céu, a Quinta do Fidalgo de Martim Tirado, a qual distava dali umas cinco léguas, seguindo pelo caminho do Canamor. Tive que esperar um pouco porque o meu ajudante se atrasou. 

Entretanto pus-me a observar aquelas montanhas, parecendo-me que estavam pintadas. Eram uma coisa admirável. Porém, o Botelho explicou-me que não estavam pintadas, mas cobertas de um manto multicolor de arbustos e árvores, sobretudo rosmaninho, giesta, esteva, pinheiros, castanheiros, amendoeiras, oliveiras e cereal. 

Os pássaros, com os mais variados chilreios, saudavam a chegada do sol e os insectos zumbiam em coro por todo o lado, lançando-se sobre as flores para recolherem o seu néctar.

Tomámos o caminho do Canamor e pouco depois penetrámos num bosque de sobreiros, onde vimos algumas pessoas conhecidas do Botelho a tirar a cortiça daquelas árvores, que naquele sítio serviam para fazer colmeias e barcos para transportar sonhos.

Continuando a nossa viagem avistámos perto de nós, numa colina, as ruínas de uma vila romana. Fiquei assombrado com uma luz azul que as ligava, em arco, à copa dos sobreiros da mata que acabávamos de atravessar. A cor azul da luz misturada com a cor verde dos sobreiros criava uma cor verde-clara cujo matiz não era conhecido na natureza. Nunca tinha visto nem ouvido falar de coisa semelhante. O Botelho primeiro dizia que não via nada, talvez por estar virado de frente para o sol. Persignou-se e mudou de direcção. Então exclamou maravilhado que aquilo era um milagre ou uma coisa extraordinária do outro mundo. Louvado seja Deus! Não se ficou a saber se o Botelho passou a ver o que não via antes por ter mudado de direcção ou por se ter persignado. Talvez estivesse em pecado e ao persignar-se terá expulsado o demónio, bruxedo ou coisa parecida que o impedia de ver. Poderia estar a ver coisa diferente do que eu via por se ter persignado. 

Tinha dúvidas sobre se o arco da luz partia das ruínas romanas em direcção aos sobreiros, ou se partia destes em relação àquelas. Aproximámo-nos das ruínas e então pudemos ver que a luz partia de um altar romano, que estava no cruzamento de caminhos. Tudo indicava que a luz provinha do interior da rocha do altar. A ser assim estávamos a assistir a um milagre. Além disso, até então ninguém tinha falado naquela luz. Aproximámo-nos mais e então eram visíveis uns veios azuis na pedra. 

Poderia a luz azul ser o reflexo daqueles veios e não vir do seu interior. Não constava que até então alguém tivesse visto aquela luz. O Botelho explicou que aquele altar tinha sido desenterrado uns dias antes, e que estaria muito sujo da terra que o cobria. No dia em que ali chegámos choveu muito, a chuva terá limpado o altar e então passou a brilhar. Mudámos o altar numa direcção em que não recebia directamente os raios do sol. A luz azul continuava a sair do altar mas um pouco menos intensa. Poderia receber a luz solar indirectamente, que era muito intensa, naquele sítio. Poderia ser também o espírito de um ou vários romanos que, tendo fugido do inferno ou do purgatório, vagueavam pelo mundo. 

Nisto vimos uma mulher velha de luto a aproximar-se de nós com uma vassoura na mão. O Botelho, dado o seu carácter impetuoso e a ambição de ganhar fama, em vez de falar com a mulher, logo considerou que ela era uma bruxa perigosa, pegou na lança e foi na sua direcção com o objectivo de a agredir ou trespassar se necessário. A mulher ou bruxa, ao aperceber-se das intenções daquele, logo desatou a correr e desapareceu de forma misteriosa atrás de uns penhascos. Teria razão o Botelho ao considerá-la bruxa? Se fosse bruxa teria usado a vassoura para voar e não o fez. Talvez não o tenha podido fazer porque o Botelho usava na lança um crucifixo benzido pelo bispo de Vila Real. 

Com boas intenções admiti mais tarde como possível que a vassoura que a mulher trazia fosse de giesta que ali colheu e a levasse para varrer a sua casa. Ou talvez fosse devota do culto romano e fosse ali para comunicar com os seus antepassados. 

Entretanto um corvo pousou nos sobreiros que recebiam a luz do altar romano, o qual dizia coisas que não se percebiam bem. Fiquei com a ideia de que eram insultos dirigidos ao Botelho. Talvez fosse a mulher que anteriormente perseguiu com a lança e se tenha transformado em corvo. Via-se no rosto do Botelho que estava amedrontado com os previsíveis poderes do corvo. Ficámos sem saber o que se passou. Só os sacerdotes poderão desvendar o mistério.

Dom Baldo de Martim Tirado e o seu palácio de uma torre - Capítulo VI

Ao final da tarde chegámos a Carviçais. Da feira que naquele dia ali se realizava já restava pouco. Os nossos animais contornaram a igreja para ao fundo desta beberem no tanque de uma nascente. Tivemos que aguardar em fila que as pessoas que estavam à nossa frente se abastecessem daquela água, num tanque reservado para elas, e se refrescassem molhando a testa com a água que elevavam nas conchas das mãos. Fiz o mesmo, e esta experiência deu bom resultado. Além de me refrescar, a água tirou-me as dores de cabeça. Aquela fonte era famosa por causa desta particularidade. As pessoas consideravam aquela água benta por passar debaixo da igreja. Além disso, para reforçar os seus poderes curativos e purificadores, também era benzida pelo padre, de sete em sete dias. Eu sabia que a água benta se deitava na cabeça das crianças para as purificar na cerimónia do baptismo, mas não sabia que também se podia beber. Também não tinha conhecimento de que ela tivesse feito mal a quem porventura a tivesse bebido por descuido ou intencionalmente. É certo que se dizia que presunção e água benta cada um podia tomar a que quisesse. Porém, aqui a palavra tomar não era entendida no sentido de a beber ou de alguém se purificar, mas pelo contrário, de alguém querer fazer crer que valia muito quando na realidade valia pouco ou quase nada.

Chamavam-lhe a Fonte Santa de Carviçais, para a distinguir de outra que existia no município de Mogadouro. Nisto sucedeu uma coisa surpreendente: depois de o jumento beber daquela água, o seu olho amarelo transformou-se em olho normal, facto que foi presenciado por bastantes pessoas. Toda a gente ficou assombrada com o que viu e com medo de que alguma coisa estranha lhes pudesse acontecer. Olhavam com pavor umas para as outras para verem se a vista de alguma delas tinha virado amarela. Entretanto o padre, que ia da sua residência para a igreja, depois de ouvir contar o sucedido, admitiu que no olho amarelo do jumento estivesse metida uma feiticeira ou o espírito desta. Terá fugido devido à água que o jumento bebeu ser benta, ou devido à sua aproximação. 

Marcámos dormida na hospedaria da praça e metemos os nossos animais na cavalariça. Ali, de modo discreto, pedimos informações sobre se havia notícia dos salteadores.

Por devoção entrámos na igreja pela porta principal, virada para poente, estando já a decorrer a missa. O padre fez uma longa homilia sobre um monge pintor e guerreiro do castelo da Cigadonha, cujo enterro se realizou naquele dia. Foi ele quem pintara o tecto da igreja onde nos encontrávamos, dando especial importância a um monte com sete patamares em círculo que significava o Purgatório. Um deles ficou inacabado. 

As pessoas subiam os patamares carregando fardos às costas, não se sabendo o que tinham dentro. À medida que subiam, os fardos diminuíam de tamanho. Chamou-me a atenção a existência de diversas árvores com frutos parecidos com as laranjas, maçãs e as uvas, nas colunas do altar. Talvez aquela fruta fosse para oferecer às pessoas como prémio do sacrifício que fizeram para chegarem ao cimo do monte e para prosseguirem a sua viagem.

Dom Baldo de Martim Tirado e o seu palácio de uma torre - Capítulo V

Quando subíamos a encosta do Monte da Mua ou da Mula, observámos um espectáculo surpreendente: o sol atravessava aquela montanha através de uma mina, o que sucedia todos os anos no início do Verão. Era uma coisa impressionante! A luz quando entrava na mina era branca e quando saía tinha cores e matizes variadas. Ninguém sabia ao certo por que razão tal acontecia. De qualquer modo naquele dia ninguém se aproximava da mina com receio de lá ficar preso por encantamento. 

No mesmo monte havia outras minas em vários patamares. Estes começavam por um caminho na base da montanha que a circundava sete vezes até atingir o seu cume. Nos patamares movimentavam-se pessoas com sacos de minério às costas. 

A meio da tarde, quando nos aproximávamos da povoação de Vale de Ferreiros, uma chuva de relâmpagos lançava-se contra as encostas daquele monte, acompanhada de trovões. Porém, o monte ficava igual, não se percebendo para que servia aquela fúria e tanta pressa. Partiam de uma nuvem escura pousada no cimo do monte da Mua. 

Os seres humanos e os animais amedrontavam-se com o relampejar e o trovejar, especialmente quando eram tão frequentes. Um rapaz tocava o sino da igreja daquela povoação e um padre lia passagens da Bíblia. Havia a crença de que estas práticas tornavam as trovoadas mais ligeiras e breves. 

A chuva começou a cair com gotas grossas e depois em forma de granizo. Abrigámo-nos na primeira oficina de ferreiros que encontrámos. Estes tinham coroas de louro na cabeça e suspenderam o trabalho até a trovoada passar. O Botelho pediu-lhes coroas de louro para nós e para os nossos animais. Esta prática baseava-se na experiência popular, segundo a qual os raios caíam muitas vezes nas árvores de várias espécies, mas nunca atingiam os loureiros. Se os loureiros estavam imunes aos raios, seria suficiente usar alguns ramos deles na cabeça para os afastar. Os ramos assumiam a forma de coroas para se segurarem na cabeça. 

Acreditava-se que o diabo levou para o pico do monte da Mula os melhores ferreiros que havia em Vale de Ferreiros para fabricarem raios. O diabo queria castigar os seres humanos que lhe desobedeciam lançando raios contra eles. Por isso os seres humanos, querendo retaliar ao diabo, diziam: raios o partam ou raios partam o diabo. Mas dizê-lo pouco ou nada valia, porque os raios não se viravam contra ele. 

Provavelmente alguns dos homens que se movimentavam nos patamares do monte da Mula com sacos às costas transportavam minério para a oficina do diabo para aí os ferreiros fabricarem os raios. Quiçá os raios que caíam perto de nós não seriam uma maldição, mas apenas faíscas lançadas pelo bater dos poderosos martelos dos ferreiros no ferro a altas temperaturas para fabricar os raios que o diabo queria espalhar por todo o universo. Os trovões seriam o som do bater dos martelos que ecoava repetidas vezes nos montes e o que parecia ser uma nuvem escura seria o fumo das forjas.

Dom Baldo de Martim Tirado e o seu palácio de uma torre - Capítulo IV

Continuámos a nossa viagem por um vale estreito, num espantoso silêncio, donde se avistava a povoação do Felgar a meio da encosta do nosso lado direito. Era um povoado com as casas caiadas de branco, cercado por olarias e com uma igreja no seu ponto mais alto. As ruas estavam quase desertas àquela hora. Uma mulher vestida de luto encontrava-se no adro da igreja, com as mãos pousadas em cima do lenço da cabeça, aparentemente a observar a povoação ou a meditar sobre o transcendente. Não esteve ali muito tempo. Pegou no cesto que estava no chão, com uma lebre, pô-lo à cabeça em cima de uma rodilha e juntou-se a uma caravana de cavalos que transportava cântaros de barro para vender na feira de Moncorvo.

Pouco depois parei num cruzamento à espera do Botelho para lhe perguntar que direcção devíamos tomar, pois ele conhecia melhor aqueles caminhos. Antes de o ouvir, o meu cavalo impetuosamente tomou o caminho que dava para o cemitério, ao lado da igreja, o que não era do meu agrado, porque durante a lua cheia, ali poderiam aparecer espíritos, fantasmas, almas penadas ou pessoas perdidas que fugiram do outro mundo. Do cemitério saíam lentamente fios finos de fogo, os quais paravam no ar e depois apagavam-se. Ouvia-se ou parecia-me que se ouvia um ruído semelhante ao do arrastar de lajes, que vinha dos lados do cemitério. Provavelmente era o ruído das coberturas das sepulturas que estavam a ser abertas pelos seus ocupantes.

Seguiu-se o piar de uma coruja. Olhando em redor nada se via, nem se sabia donde vinha aquela música melancólica que nos causava arrepios de medo. O piar da coruja pronunciava mau augúrio, mas quando tal acontecia junto dos cemitérios estava ligado ao anúncio próximo da morte de alguém, ou que alguma alma penada vagueava por ali.

Enquanto isto sucedia, surgiram dois vultos à nossa retaguarda, do tamanho de pessoas. Mais adiante, em campo descoberto, vimos claramente que tinham o corpo de homens e a cabeça de lobos. Havia a crença popular de que comiam carne humana.

Puseram-se um ao lado do outro, virados na nossa direcção, uivavam como lobos, escavavam com as patas da frente no chão, levantavam o pelo, abriam a boca ao máximo e mostravam os dentes afiados para com a maior fúria e velocidade se atirarem contra nós e contra os nossos animais. Criaram um ambiente de terror. O meu ajudante, profissional experiente nestas batalhas, sabia que o relampejo da prata os afugentava.

Por isso, quando se lançaram contra nós, o Botelho aproximou o crucifixo de prata (que usava na lança) do olho luminoso do jumento e a luz reflectida logo os afastou. Então procuraram atacar-nos pela retaguarda. Para os podermos atacar de frente era necessário que os nossos animais estivessem treinados para rodar rapidamente sobre si mesmos, mas não estavam. Assim, o jumento, devido ao reumatismo de que padecia e à falta de treino, ao iniciar tal manobra logo caiu ao chão com grande estrondo, acontecimento que perturbou os lobisomens e os fez recuar. Embora estivesse vivo, ali permaneceu sem procurar levantar-se nem sequer pestanejar. Na altura não se sabia, nem houve tempo para se saber, se tal comportamento se deveu a uma impossibilidade de se levantar ou se quis permanecer deitado devido à preguiça que reinava e ainda reina nestes animais, ou se quis fingir que estava morto para que o deixassem em paz, de acordo com a sua natureza pacífica. De qualquer modo não reza a história que com a colaboração destes animais se tenha ganho qualquer batalha.

Então o Botelho quis resolver o problema sozinho, tendo em conta a sua formação em infantaria. Enfrentou os lobisomens levantando a lança para os atingir de tal modo que os pudesse cortar ao meio. Porém, os lobisomens, apercebendo-se do perigo que corriam naquela situação desvantajosa para eles, não esperaram pelo pior, fugiram e pararam à distância, em cima de um rochedo. Entretanto nasceu um novo dia, e com o aparecimento do sol os lobisomens voltaram à forma humana, e o jumento, já livre de perigo, levantou-se como se nada lhe tivesse acontecido.

Estava certo o saber popular: havia homens que durante a lua cheia se transformavam em lobisomens e quando esta acabava, ao nascer do sol, regressavam à configuração humana. Se essas pessoas se transformavam em lobisomens por vontade própria ou por uma maldição, não se sabia. De qualquer modo, quando se desconfiava que determinada pessoa fosse lobisomem, os populares, amedrontados, com o pretexto de que seria possuído pelo demónio, expulsavam-no da sua povoação. Para não serem descobertos, escondiam-se durante o dia e atacavam as pessoas durante a noite.

Dom Baldo de Martim Tirado e o seu palácio de uma torre - Capítulo III

Entre a povoação do Carvalhal e as minas com o mesmo nome, imergimos numa densa floresta de carvalhos, castanheiros, pinheiros e aveleiras, na qual entrava pouca luz do luar - por isso ia à frente o jumento para assinalar o caminho, dadas as suas excepcionais capacidades de visão nocturna. Nisto, avistámos ao longe uns vultos de pessoas a cavalo, que vinham na nossa direcção, com tochas acesas. Vestiam capas negras e usavam chapéus de abas largas da mesma cor. Parecia que traziam uma arca ou um caixão no dorso de um cavalo, preso com cordas entre dois feixes de palha. Se fosse uma arca poderiam trazer lá dentro, entre outras coisas, um tesouro ou roupas finas de linho ou de seda. Ou então viria sem nada. Se fosse um caixão poderia estar vazio ou trazer um defunto para enterrar no cemitério do Felgar. Pararam mal nos viram e depois dois cavaleiros daquele grupo aproximaram-se de nós, ficando a cerca de cem passos de distância a olhar-nos. Então um deles deu ordem de retirada e afastaram-se numa cavalgada infernal. Não ficámos a saber se eles eram monges ou os salteadores da estrada que procurávamos ou se eram pessoas comuns, pacíficas, que pensavam que os salteadores éramos nós.

Porventura, ter-se-ão assustado com a luz amarela do olho do jumento, supondo que se tratava de um lobisomem. Tal suposição é admissível. De facto, segundo a sabedoria popular, uma pessoa que se deitasse num cruzamento de caminhos onde se espojou um burro durante as noites de lua cheia podia transformar-se num ser humano com cabeça semelhante à daquele animal. Por outro lado, a postura do jumento também os pode ter assustado: ao vê-los, por uma questão de vaidade ou numa atitude de defesa arregalou os olhos, levantou o pescoço, inclinou as orelhas para a frente, pôs os dentes a descoberto, abriu a boca ao máximo e zurrava Hi-Hó… 

Apesar da dúvida, o Botelho queria investir contra eles, dada a sua valentia, a vontade de se tornar famoso, o sentido exagerado do seu dever profissional, e por ter ouvido dizer, quando andava na tropa, que quem prestasse bons serviços na nossa profissão poderia ser promovido a comandante ou a governador. Aproveitei para lhe dizer que segundo o nosso regulamento, que ele ainda não tinha acabado de ler, em caso de dúvida não se deviam atacar as pessoas. Por isso nada fizemos. De resto, perseguir homens a cavalo com um jumento com reumatismo numa pata não daria bons resultados.