Dom Baldo de Martim Tirado e o seu palácio de uma torre - Capítulo XVII

Então ouviu-se o ranger do portão da cerca do palácio, e a Josefa abriu-o e fez-nos sinal para entrarmos. Um jardim, de forma rectangular, ocupava a parte central da cerca. Ao meio do jardim havia um espelho de água também rectangular, que logo se transformou em redondo. O Botelho não viu nenhuma transformação, talvez por distracção. De qualquer modo fiquei sem saber ao certo se o espelho de água, quando inicialmente o vi, era mesmo rectangular ou se o confundi com o formato do jardim, dada a forte luminosidade do sol de um céu limpo, que até feria a vista, o qual poderá ter criado ilusão de formas.

O jardim tinha rosas de várias cores e outras flores. Algumas daquelas plantas floridas, segundo constava, foram trazidas pelo mouro do Norte de Africa.

Depois choveu um pouco. As plantas guardaram uma parte daquela água para irem saciando a sua sede, e a outra parte transformaram-na em perfumes que iam espalhando no ar em sinal de agradecimento às nuvens pela prenda recebida, e para atrair os insectos.

Umas gotinhas daquela água ficaram a pairar no céu e então o sol, ao vê-las, lançou alegremente os seus raios dourados na sua direcção. Manifestaram recíproca paixão, formando um arco-íris para que todo o mundo o soubesse.

Associei emocionalmente as flores à delicadeza da noiva, à sua beleza, à primavera, à renovação e ao ciclo eterno da vida.

Circundado o jardim, estávamos à entrada de um forno ligado a uma adega. Aí duas doceiras do Felgar faziam os bolos do casamento e preparavam os assados de cordeiro. Uma vez dentro deparámos com vários presuntos pendurados do tecto, tábuas com dezenas de queijos de ovelha, umas pipas de vinho e bastantes pães de trigo cozidos.

A Josefa encaminhou-nos para a entrada do palácio. Em cima havia um brasão com os desenhos de uma torre, de abelhas a voar e um ramo de flor de amendoeira. A torre significava riqueza e poder, as abelhas trabalho e o ramo de flor de amendoeira beleza, cortesia, afectividade e nobreza.

O salão do palácio deixou-me surpreendido com o seu comprimento. Nunca tinha imaginado que houvesse uma salão assim, tendo havido também comentários idênticos do Botelho. A Josefa explicou-nos que se tratava de uma ilusão. Tudo resultava do reflexo dos espelhos colocados nas paredes.

À minha frente estava um quadro pintado a óleo cuja pintura representava Dom Baldo e a sua mulher, Dona Albertina. Ele usava traje de fidalgo: botas pretas altas, calças e camisas brancas, casaco e colete azuis, esporas de ouro tipo orientais e plumas no chapéu. Do seu lado direito, numa mesa decorativa, estava uma jarra de flores de amendoeira com abelhas a esvoaçar, semelhante ao brasão da família. Do seu lado esquerdo estava a Dona Albertina, com traje elegante e de qualidade correspondente ao de mulher de fidalgo.

Depois passámos para a salão do tesouro. Nas paredes havia tapetes decorados com cenas de caça e colecções de espadas e punhais. As espadas eram muito curvas na extremidade. Estas e os punhais tinham os punhos e as bainhas decorados com pedras preciosas embutidas de várias cores, sobretudo o azul marinho. Apesar de usar espada na minha profissão fiquei impressionado com o poder cortante daquelas que vi na parede. Em algumas vitrinas estavam elmos, esporas e estribos de ouro.

A Josefa pediu-nos para tocar naqueles objectos. Não fomos capazes de o fazer. Era-nos impossível mexer os pés e as mãos. Então explicou-nos que aquele tesouro tinha sido encontrado enterrado, dentro de arcas de pele de camelo, na torre do mouro. Para o retirar foi preciso chamar um mouro ou bruxo da Torre Dona Chama, que quebrou o encanto e voltou a encantá-lo naquela sala. Acrescentou que nas paredes do palácio de Dom Baldo residia uma moura e quando as pessoas se aproximam para roubar o tesouro, ela encantava-as deixando-as imobilizadas. Isso já tinha acontecido umas semanas antes com a quadrilha da Serra de Mós. Deu-nos pormenores sobre as características do seu chefe. Era alto e magro, usava calças e camisa rotas, um chapéu de aba larga com alguns buracos e um tapolho na vista direita, fazendo supor que aquela vista estava furada. O tapolho não só tapava o olho direito mas também metade da cara daquele lado. Havia quem afirmasse que ele não tinha qualquer defeito na vista e na cara e que usava o tapolho como disfarce. Era por isso que lhe chamavam o Tapolho de Mós.

A Josefa queria mostrar-nos as restantes divisões do palácio, a torre e os seus segredos. Tal não foi possível. Mal acabávamos a visita ao salão do tesouro ouviam-se pessoas a falar na cerca do palácio. Fomos ver, com excepção do Botelho e da filha da Josefa, que ficaram a conversar. Era o regresso do casamento. À frente iam os noivos e atrás deles os seus pais, com excepção do pai do noivo que já tinha falecido, os seus familiares e, por último, os convidados não familiares.

O cortejo parou devido a um acontecimento misterioso. Sem que nada o fizesse prever, do lado esquerdo da comitiva, a uns cinquenta passos de distância, num campo bem limpo, surgiu uma enorme plantação de palmeiras, agitadas pelo vento e trespassada por frescos e abundantes raios de sol. No meio desta havia uma estrada, em linha recta, em direcção à entrada de uma casa senhorial com apenas um piso e um pátio largo a toda a volta, sustentado por colunas. A casa estava caiada de branco, com excepção das extremidades das colunas e o rodapé que estavam caiados de azul.

Ao meio da casa havia uma entrada larga com as portas abertas e com sete velas acesas de cada lado.

Começou a ouvir-se a música de um pífaro mágico. Não se sabia se vinha do palmeiral ou do interior da casa. Então surgiu uma mulher alta e magra vinda do interior da casa em direcção à sua entrada. Usava um vestido branco que lhe chegava aos pés, um chapéu redondo sem abas da mesma cor em forma de cone e sandálias de pele fina. Demonstrava uma delicadeza surpreendente: caminhava devagar e parava depois de cada passo que dava, para logo prosseguir suavemente. Chegada ao terraço da casa parou por mais tempo. Depois curvou-se para a frente, cruzou os braços sobre o peito e começou a executar uma dança: girava em torno de si própria, primeiro devagar e depois com bastante velocidade, e nessa altura abriu os braços. Tive a impressão de que o espírito da mulher se uniu aos corpos celestes e girava com eles.

Dois cães, que estavam sentados à frente do pátio, deitaram-se no chão e adormeceram com a música do pífaro mágico. As aves pararam de voar e as árvores curvavam-se em homenagem ao músico que não se via e à dançarina presente.

Terminada a música e a dança, a mulher ficou a olhar para a comitiva do casamento com tantas lágrimas que podiam secar-lhe a alma em pouco tempo. Os cães aproximaram-se de nós com ar simpático, batendo com a cauda no ar.

Alguém duvidou da bondade do que se estava a passar e comentou em voz baixa que aquela mulher seria uma antiga namorada do noivo. A Igreja impedira este casamento por ela ser moura. Teria vindo ali para estragar a festa ou para lhe desejar boa sorte ao noivo. Dom Baldo que estava um pouco distante não ouviu este comentário. Porém, notava-se no seu rosto e na sua postura a desconfiança.

Pareceu ao Botelho que se tratava de um encantamento. Com grande velocidade, agora facilitada pela recente magreza, lançou-se na direcção daquele jardim, perseguindo com a sua lança os cães e a mulher até desaparecerem.

A governanta abriu as portas do salão principal e para aí se dirigiram os convidados. Muitos olhavam para a admirável decoração das paredes e dos tectos e outros para a comida. Ainda não havia ordem, nem para se sentarem, nem para comerem. Dom Baldo saudou os convidados e agradeceu-lhes a sua presença. Após ter dado sinal, o grupo musical de Mogadouro iniciou a execução de uma música, dedicada aos noivos, assim se cumprindo a tradição das casas nobres. O grupo musical era composto por quatro elementos: uma cantora, dois músicos de alaúde e um de rabeca.

Dos convidados de fora destacavam-se dois rapazes solteiros de famílias também fidalgas, um chamado Luís Comenda, que era do Canto, e outro chamado, Amílcar Pinto, que era da Portela.

Dom Baldo de Martim Tirado e o seu palácio de uma torre - Capítulo XVI

Imergimos num silêncio quase absoluto, interrompido pelo ladrar intermitente de um cão de guarda do rebanho de ovelhas de Dom Baldo. Era um cão simpático que ladrava com bons modos e só o necessário. Pressentiria o aproximar de alguém ou de algum animal ou seria apenas para se distrair. Curioso, subiu ao cimo de um penedo para dali poder observar melhor o que se passava à sua volta.

Uma cigarra que estava pousada num pinheiro nas nossas imediações, acordada pelo ladrar do cão, quis mostrar o seu desagrado entoando um canto estridente e incomodativo para as pessoas e os animais.

Interrompeu o seu canto quando um bando de aves se aproximou para pousar na mesma árvore e, se pudesse, devorá-la. Não por qualquer ressentimento, mas somente por uma questão de sobrevivência. Insectos daquele tamanho davam uma boa refeição para uma ave grande e várias refeições se a ave fosse pequena.

Indiferentes a tudo isto, as formigas em filas intermináveis carregavam o cereal da eira para o seu celeiro.

Trazido pelo sol e pelo vento começou a ouvir-se o tropel de animais de carga e da música agradável das suas campainhas, o qual vinha dos lados da Fonte da Saúde, situada num desfiladeiro cujas profundezas dali não se viam. Apesar da distância o som ouvia-se nitidamente, devido ao eco produzido nos rochedos de ambos os lados do vale estreito. Rochedos aqueles compostos de variados tipos de rocha que se combinaram entre si de diversas formas, dando um brilho cintilante como se estivessem em movimento. Estas gigantescas rochas escarpadas apresentavam-se enrugadas, tal como as rugas da testa de uma pessoa com mais de cem anos. Seriam as marcas da sua idade ou da pressão exercida por algum gigante para lhes dar aquela forma. De qualquer modo eram acolhedoras: ali faziam o ninho as grandes aves planadoras, as aves de menor porte e ali se refugiavam as cabras selvagens, quando perseguidas pelos lobos. Os lagartos de diversas cores e tamanhos aí habitavam nas suas tocas, e passeavam-se ao sol para se aquecerem e caçar insectos, os quais se confundiam com a cor variada da rocha e do seu musgo. 

Ouvia-se também o falar de duas pessoas, um rapaz e uma rapariga, vindo do mesmo lugar, juntamente com o murmúrio da água da fonte.

Nisto, o Aníbal e a Alzira, que eram vizinhos de Dom Baldo, saíram apressados de casa e vieram ao nosso encontro bem atentos ao que de novo se passava. À frente chegou o Aníbal com duas crianças pela mão, o Armando e o António Júlio, e atrás vinha a Alzira com uma menina ao colo chamada Maria da Graça. Não demoraram a surgir na Portela duas pessoas a cavalo, um rapaz e uma rapariga, os quais vinham na nossa direcção. O rapaz usava polainas pretas, calças e camisa brancas, um colete azul e uma espada à cinta.

À Alzira parecia-lhe que eram o seu filho e a mulher deste, os quais viviam em Freixo de Espada à Cinta. Esperámos que se aproximassem. Tratava-se de uma caravana de cinco animais: os dois da frente transportavam o rapaz e a rapariga e os restantes malas e cestos com laranjas do pomar da Ventosa.

A Alzira e o Aníbal trataram o rapaz por Ademar, e a rapariga por Maria Eugénia. Esta trazia uma novidade: estava grávida e se a criança fosse um rapaz queria que se chamasse Arlindo. Prenderam os animais a umas pedras ao alto, à frente do palheiro do José Paulo, a uns cinco ou seis passos de nós. O Ademar ia tirando laranjas dos cestos transportados por um dos animais e descascava-as com uma pequena espada que trazia à cinta, com a marca de uma oficina de Vale de Ferreiros. Distribuiu-as pelas pessoas presentes, uma a uma, assinalando que eram muito doces e que curavam as constipações. Os contemplados comiam-nas devagar e com grande cerimónia. Depois lambiam os lábios para que nada se desperdiçasse. As cascas davam-nas aos cavalos. Impressionaram-me as boas maneiras daquelas pessoas. Provavelmente aprenderam-nas com o Fidalgo.

O Aníbal, surpreendido com a doçura e os aromas das laranjas, pediu ao filho que lhe comprasse a laranjeira que desse frutos idênticos àqueles para a plantar no seu pomar da Fonte da Saúde. Quando já não o pudesse cultivar ficaria para ele. Plantaria a laranjeira mesmo ao lado da fonte, de modo a ficarem ligadas uma à outra. A laranjeira e as laranjas beneficiariam da qualidade da água da fonte. A Fortuna, que usava como símbolo um ramo de laranjeira florido, augurava que as nuvens trariam sempre chuva. A fonte nunca se secaria, renovar-se-ia sempre e a laranjeira também. Haveria sempre um amanhecer depois de cada entardecer. As laranjas teriam a cor do sol ao entardecer e ao amanhecer.

O Ademar e a mulher negociavam em tecidos de linho, de seda e lã, tendo aprendido a profissão de mercadores quando viviam em Viana da Foz do Lima. Eram amigos do judeu que estava junto de nós. Tratavam-no por Albino. Este, que tinha uma filha para casar, logo mostrou interesse em ver a mercadoria que traziam nas arcas. Gostou das colchas de seda e de linho e depois de muito regatear o preço sinalizou a compra de algumas peças com moedas de ouro.

O Ademar deu voltas ao fundo de uma das arcas, transportada por um dos cavalos. Dali tirou uma guitarra de braço comprido, chapéu e capa pretos idênticos aos que usava o Albino. Depois de pedir licença pôs o chapéu na cabeça e vestiu a capa.

Despertou a minha curiosidade o facto de o Ademar, não sendo judeu, usar um chapéu daquele estilo, e uma capa judaica. Provavelmente estaria convencido que um seu antepassado longínquo era judeu ou então traria aquele traje para o vender nas feiras. De qualquer maneira relacionava-se bem com o Albino e a Eugénia, e acabou por afirmar que conhecia uma filha daquele, chamada Raquel, da qual era amiga.

A pedido do judeu o Ademar tocou lindamente uma canção antiga e bastante conhecida enquanto aquele a cantava tão bem que nos causou grande emoção. Depois cantaram os dois juntamente e a Eugénia tocava um tambor e dançavam em círculo. Nesta situação, ambos com trajes idênticos e a cantarem e a dançarem juntos, afigurou-se-me que se pareciam um com o outro, ou seria imaginação minha.

O Ademar, quando ia com a sua caravana às feiras, tocava esta e outras canções por prazer e para atrair o povo, e depois procurava vender-lhe as suas mercadorias.

Da letra da canção recordo-me apenas que repetia muitas vezes a ideia de que haviam de voltar.

Não se sabia ao certo qual o significado da ideia de voltar da canção. Talvez não passasse da imaginação do poeta que a escreveu. Ou seria um poeta judeu que desejaria voltar a Israel ou interpretaria um sentimento comum dos judeus de regressar à terra dos seu antepassados.

Dom Baldo de Martim Tirado e o seu palácio de uma torre - Capítulo XV

Entretanto, saiu da cerca do palácio um grupo de pessoas com uma noiva montada a cavalo. 

Vinham em direcção ao lugar onde nós estávamos: à frente caminhava um casal, cuja mulher era Dona Albertina e o homem era Dom Baldo. Este perguntou-me, em tom cortês, o que estava ali a fazer. Respondi-lhe que estava ver o belo palácio - ou castelo - de Sua Senhoria. Ficou muito contente e agradeceu com bons modos. Depois de pensar um pouco esclareceu que ele era Dom Baldo ou Fidalgo e que Sua Senhoria era só a sua mulher, de acordo com as regras da nobreza. Creio que as regras da nobreza ensinam que os fidalgos se podem tratar também por Senhoria e suas mulheres por donas.

Em particular perguntei-lhe sobre as características dos salteadores que o tinham ferido e roubado, para procurá-los e levá-los à Justiça. Respondeu-me que naquele momento não tinha tempo para isso e que esperássemos pelo seu regresso do casamento, convidando-nos a participar na boda. Chamou pela Josefa, sua governanta, a quem disse para nos mostrar o palácio e a torre logo que terminasse o trabalho que terminasse o trabalho que estava a fazer.

Terminada esta conversa alguém da comitiva perguntou-lhe se não queria usar a sua espada na cerimónia do casamento. No momento não tinha a certeza se ficava bem fazê-lo. Pediu que fossem buscar a espada e o livro de cerimónias dos Fidalgos. Abriu-o no capítulo terceiro e no seu artigo quinto estava escrito que a deviam usar nas cerimónias de casamento dos filhos ou das filhas. Pôs a espada à cinta do seu lado esquerdo, tal como ensinava o livro, e a comitiva seguiu sem mais incidentes.

O fidalgo Baldo era um homem alto e magro, com olhos cor de açafrão, com uma barba comprida como se fosse oriental. Levava uma camisa branca, laço, colete, casaco azul, calças brancas, polainas pretas de cano alto, um chapéu de aba larga e uma capa de cerimónias.

A sua mulher também era alta e magra com rosto de características lusitanas. Levava uma saia comprida de cor bege com barra azul larga com flores de amendoeira bordadas à mão, um lenço azul na cabeça e uma sombrinha, tudo de acordo com a condição de mulher de fidalgo.

Dom Baldo segurava a rédea do cavalo. Uma colcha de seda feita em Freixo de Espada à Cinta cobria a sela do cavalo. Na colcha estavam bordados bichos-da-seda, uma amoreira cujas folhas lhes serviam de alimento e um freixo com uma espada à cinta, símbolo daquele povo.

A noiva que ia a cavalo era a sua filha mais velha, de nome Maria. Mostrava a sua alegria no rosto redondo e claro. Levava um vestido branco, o qual lhe chegava aos pés, uma sombrinha, um ramo de rosas brancas do seu jardim, argolas grandes e um colar, tudo em ouro amarelo. Ia casar-se com um rapaz da Quinta da Estrada, que se chamava Gordete. Um pouco mais atrás vinham os irmãos da noiva, duas raparigas chamadas Clementina e Alcina e um rapaz chamado António.

Enquanto esperávamos falámos com algumas pessoas que por ali passavam, sobre a presença ou não dos salteadores naquela zona. Entre elas um peleiro, conhecido por Judeu de Lagoaça, disse-nos que durante a última noite desconhecidos assaltaram a igreja daquela povoação e a residência do padre, donde roubaram ouro e prata. Constava que se tinham refugiado nas grutas da serra do Palão. 

Dom Baldo de Martim Tirado e o seu palácio de uma torre - Capítulo XIV

Quando já estávamos perto do palácio de Dom Baldo, mandei o meu ajudante prender os nossos animais a um olmo e que fosse ao comércio comprar dez reis de cevada fresca para lhes dar.

Olhei novamente para o palácio quando estava a uns cinquenta passos de distância, o qual pela sua originalidade me causou espanto e admiração. Um palácio de uma torre tão nobre naquela serra! Nem acreditava que fosse real o que estava a ver. Era um palácio fantástico.

As paredes eram de pedra. As pedras eram de um xisto invulgar, todas diferentes e de grande beleza.

Pareceu-me que tinham vida e que se moviam em varias direcções, algumas mais rápidas e outras mais devagar, de acordo com a sua inclinação. Outras estavam dormindo, outras associavam-se formando barcos à vela, esta de tela fina, que transportavam a nossa imaginação em direcção às estrelas ou até aos mistérios da origem do universo.

Como era possível não chocarem umas com as outras! Talvez a Providência o quisera assim ou porque apesar de serem todas diferentes tinham o mesmo valor, ou tinham um poder desconhecido que evitava a colisão.

Quando estava mais perto tive a impressão que elas se moviam num lago de águas limpas e pouco depois não tinha dúvidas de que era mesmo água boa para beber, como aquela das fontes mais famosas. Então apareceu uma mulher a cantar, com um vestido da cor do fogo, sentada numa pedra que flutuava na água, a qual se transformou numa mulher a fiar com uma roca à cinta e uma pedra à cabeça. Pôs a pedra no chão, a qual passou a jorrar água como se fosse uma fonte. Acreditei que de acordo com lendas antigas aquela água fosse milagrosa e que pudesse curar a minha doença e a do jumento.

Aproximei-me para a beber e encher uma cântara de barro. Surpreendentemente, ao tocar nas pedras a figura e o cenário desapareceram. Então lembrei-me do que havia lido no livro sagrado, o Alcorão, que é mais ou menos assim: ninguém deve tocar numa mulher muçulmana, a não ser o seu marido. Afastei-me das paredes e logo continuou a cena interrompida. Sem tocar nas pedras enchi o cântaro do jorro da água da fonte.

Um pouco mais distante pareceu-me que as pedras andavam no espaço cósmico, semelhantes aos cometas e depois com o girar do sol algumas brilhavam como as estrelas e outras espalhavam uma luz suave como a da lua cheia. Talvez fossem mensageiras das estrelas e da lua.

Depois parecia-me que tinham rostos jovens, calmos e encantadores. Provavelmente eram o espelho da beleza e serenidade de uma pessoa ou fantasma que vivia dentro delas.

Elas eram a memória do fogo antigo no interior da terra, da força erosiva dos ventos e da água, dos diferentes climas da terra e dos seres vivos primitivos que com elas se fundiram.

O homem ao observá-las impressionou-se com a sua beleza misteriosa, acreditou que transportavam os segredos do princípio do universo e apaixonou-se por elas.

Para quem era aquela mensagem? Era para ele, e logo começou a trabalhá-las para construir casas, castelos e palácios, impregnando-os da sua imaginação criadora, dos seus sentimentos, dos seus sonhos, da sua cultura, dando-lhes vida e criando quadros como os dos pintores famosos. Queria que a sua obra viajasse no tempo.

A torre, também construída de pedras semelhantes, era circular, e tinha várias janelas, algumas alinhadas com o nascer do sol no início do Verão e do Inverno. Outras eram utilizadas para durante a noite observar o céu. Era importante para os camponeses saberem quando se aproximava a época das sementeiras e das colheitas.

Numa das suas pedras estavam gravadas umas palavras em árabe e um desenho de um homem que observava os astros. Não tinha nenhuma ideia sobre o significado daquelas palavras. De qualquer modo o desenho significava certamente que a torre serviu de observatório astronómico dos mouros.

Dom Baldo de Martim Tirado e o seu palácio de uma torre - Capítulo XIII

Já perto do cimo do monte avistámos à distância uma povoação com muitas casas do mesmo estilo, dispostas em círculo, como uma espécie de observatório astronómico e, no meio delas, erguia-se uma torre também circular e um palácio.

No cimo da torre via-se um grupo de pessoas, cada uma com um saco ao ombro com todos os seus haveres. Creio que esperavam por uma nuvem que se aproximava. Então ergueram uma escada para subirem para ela. A nuvem, admitindo que adivinhou o desejo delas, transportá-los-ia seguindo o caminho do sol e do vento, ou quereriam elas que as levasse para a eternidade, ou teriam apenas um sonho de viajar nas nuvens. As velas acesas na torre iluminariam a viagem ou serviriam apenas para manter vivo um sonho, uma fantasia, de viajar não se sabe ao certo para onde.

Entrámos na povoação para a visitar. As casas, construídas em pedra de xisto, tinham as paredes arredondadas, e os tectos a forma de cone como as chaminés dos vulcões extintos que se encontravam à sua volta. As casas, a torre, o palácio e o meio circundante harmonizavam-se. As pessoas respeitavam a natureza e gostavam de viver ali. Impressionou-me a cor das pedras das casas: um azul claro semelhante ao azul do céu limpo. Lembrei-me de ouvir dizer a um sábio que em tempos muito recuados o tecto de qualquer homem era o céu em qualquer lugar onde estivesse. Só depois construiu as casas de pedra, os castelos e os palácios. Perdeu a liberdade de viajar. Ter-se-á arrependido. 

No cimo, os tectos das casas tinham uma faixa circular de cor branca. O mesmo sucedia na primavera aos montes quando tinham nuvens ou neve nos cumes. O cimo dos tectos seria construído em pedra branca, estaria pintado de branco ou seria uma nuvem que ali adormeceu ou ali quis apenas repousar.

À volta das casas havia plantas e ervas aromáticas floridas e ao longe viam-se campos cobertos de trigo e de centeio. As diversas cores e formas das flores levavam-me a supor que havia um concurso de beleza entre elas ou um concurso para atraírem os insectos mais simpáticos. Miraculosamente iam mudando os matizes das cores, conforme a espécie dos insectos que se aproximavam. Parecia que existia uma especial estima entre as flores e os insectos que as visitavam, traduzida numa admirável delicadeza recíproca.

Algumas daquelas plantas trepavam pelas paredes das casas e davam flores elegantes que caíam no chão das ruas, formando tapetes perfumados. Talvez quisessem agradar aos habitantes para não as cortarem ou procederiam assim desinteressadamente.

Das ervas aromáticas faziam-se chás, simples ou com diversas ervas misturadas. Elas curavam ou supunha-se que curavam algumas doenças das pessoas, ou aliviavam as suas dores e davam-lhe boa aparência física e bom estado de espírito.

Alguns habitantes vestiam trajes típicos, de tecido fino de cor clara, sobretudo branco, bordados com fio vermelho ou cor-de-rosa, e usavam chapéus com a forma das cúpulas das casas, e eram altos, elegantes, simpáticos, e pareciam felizes. Estes trajes usavam-nos especialmente aos domingos ou em dias de festa.

Entrámos numa casa a convite dos seus habitantes. O chão era feito de barro batido, de cor viva, dividido em rectângulos com divisórias de madeira. Para dar maior consistência ao barro misturavam-lhe palha de centeio. A casa tinha uma divisória ao meio, em madeira. Uma parte servia de cozinha e de sala e a outra, com duas divisórias, para dormitório. A luz do sol entrava sobretudo pela abertura do tecto. A luz suave e abundante dava-me uma especial satisfação e afastava as minhas preocupações. Gostaria de viver ali. A temperatura no interior era agradável: o ar entrava pelo postigo da porta e saía pela chaminé, renovando-se constantemente. Na divisória da cozinha viam-se umas pedras no chão onde se acendia o lume para cozinhar, buracos nas paredes, que serviam para guardar diversas coisas, um escano, um armário com cantareira, várias talhas de barro e uma tulha para guardar o cereal.

Ofereceram-nos para comer pão e queijo de ovelha curado e para beber uma cântara de água. O Botelho, depois de muito gabar a comida, bebeu da água da cântara.

Não demorou a ficar enjoado, com a cara vermelha, mais magro e alto e o nariz comprido. Dizia que ouvia pessoas a falar, sem que elas estivessem presentes. Seguiram-se dores pelo corpo todo.

A mulher explicou que ele bebeu não água mas um xarope destinado a impedir o sangramento excessivo das mulheres depois do parto. Era um xarope leve quando o fez, mas com o passar do tempo parte da água sumiu-se e tornou-se mais forte. Tinha-o guardado num buraco da parede, foi verificar o seu estado e por descuido deixou-o em cima da mesa das refeições. 

Não quis dizer quais os ingredientes que usava para o fazer. Por acaso vi num buraco da parede uma malga com cravagem de centeio, também conhecida pelo nome cornelhos, e fiquei convencido de que os utilizava para fabricar aquele xarope.

Entretanto agravaram-se as dores. A mulher foi ao armário buscar outro xarope, este feito pelos monges da Cigadonha, para acalmar as dores. O Botelho bebeu dois ou três goles dele e sem grandes demoras tornou-se muito bem-disposto.

Surpreendentemente este xarope entrou em guerra com os seus intestinos e por isso saiu rapidamente de casa, saltou por cima dos muros, em direcção a um bosque.

Mais tarde soubemos que os donos da casa para a qual nos convidaram a entrar e a comer eram familiares dos salteadores que nós procurávamos. Ter-nos-ão dado o xarope para nos impedir de prosseguirmos a nossa viagem.

Dom Baldo de Martim Tirado e o seu palácio de uma torre - Capítulo XII

Em dia de tanto calor despertou-nos a atenção o murmúrio da água de uma fonte. Não a víamos, talvez devido a umas árvores que se encontravam à nossa frente ou a algum penedo. No cruzamento os nossos animais, por sua iniciativa, viraram na sua direcção. Era a fonte dos Couços, famosa pela pureza e frescura da sua água, tal como a da Fonte da Saúde.

Nisto ouviu-se uma pessoa a cantar. O canto era alegre e suave. Surpreendeu-nos não podermos saber donde vinha a voz, talvez devido ao eco repetido que fazia no vale. Enquanto falávamos no assunto, vimos que uns ramos de uma figueira se mexiam, sem que houvesse vento ou que se visse qualquer pessoa que os fizesse mexer. A situação era estranha. Por precaução empunhámos as nossas armas. O Botelho gritou: apresente-se o cantor ou o fantasma. Então saiu de trás de um muro um rapaz conhecido do Botelho que andava ali com um cesto a colher figos e uvas. Nesse momento deixou de se ouvir cantar e os ramos da figueira já não mexiam. Seria ele quem anteriormente cantava e mexia nos ramos da figueira.

Entretanto chegaram várias pessoas à fonte, para dar de beber aos animais e transportar água. No dorso dos animais traziam uns cestos de vime com cântaros de barro. As mulheres usavam lenços na cabeça, as mais novas de cores variadas e as mais velhas de cor preta, segundo a tradição.

Dom Baldo de Martim Tirado e o seu palácio de uma torre - Capítulo XI

Continuando a viagem íamos ambos calados. Só se ouvia o tropel dos nossos animais, o seu espirrar intermitente para afastar as moscas, o ruído das quedas de água e o incómodo cantar das cigarras, situação que era muito aborrecida para mim. Então pedi ao Botelho, que era natural de Martim Tirado, para falar da história do Fidalgo e da sua Quinta.

Segundo o meu ajudante, Dom Baldo, antes de ser Fidalgo, era conhecido pelo apelido de Estanqueiro, o qual vinha da sua antiga família da povoação de Mós. Levantava-se cedo, logo depois do cantar do galo na capoeira, e ainda de noite rumava para os campos que cultivava com dois jumentos, cuja preocupação era fazerem o menos possível. O Estanqueiro contrariava a sua preguiça com umas ligeiras chibatadas. Não os queria molestar muito pois sabia que aqueles animais tinham pouca força, não nasceram para trabalhar e queria evitar remorsos de agredir animais tão mansos. Mesmo assim com eles cultivava os cereais necessários para o seu consumo, depois de guardar as sementes para o ano seguinte, de pagar as avenças ao barbeiro, ao ferrador e as maquias ao moleiro. Além disso, na segunda parte do dia guardava um pequeno rebanho de ovelhas e com dois galgos caçava coelhos e lebres e de vez em quando um pequeno javali. Colhia uns cestos de uvas, das quais guardava algumas para passar e restantes pisava-as num tanque de granito, cujo vinho dava para encher umas duas ou três talhas de barro. O vinho era bom devido à qualidade das uvas e ao modo como o fazia. O segredo de o fazer assim guardava-o só para ele.

A sua principal distracção, especialmente quando guardava o rebanho, era tocar flauta que ele próprio fez de um ramo de sabugueiro. Inventava as músicas que tocava, inspirado no canto das aves, das cigarras, no soprar do vento, nas quedas de água, no cair da chuva e no uivar dos lobos. Não se saía nada mal. Havia mesmo quem o gabasse de tanto jeito para a música. De qualquer modo convidavam-no para tocar em festas e ele aceitava.

Perto da casa dele havia uma quinta com terrenos férteis e muita água, e um palácio de uma torre. Pertencia a um mouro, que desapareceu dali havia muito tempo em circunstâncias misteriosas. Talvez tivesse ido ao Norte de África visitar a família, como era seu costume, e tivesse ficado por lá, vivo ou morto. Constava que a quinta estava encantada por uma moura que a guardava. Ninguém ousava entrar ali, com receio de que alguma coisa trágica pudesse acontecer.

Para espanto e admiração de todos, o Estanqueiro anunciou que tinha comprado aquela quinta, sem explicar a quem a comprou, por que preço e onde foi buscar o dinheiro. Não a ocupou logo. Uns dias depois do anúncio da compra, apareceu ali com o bruxo da Torre D. Chama, que era o mais poderoso de toda a região, e com três ajudantes, também bruxos. Tanto procuraram que encontraram a fonte da quinta onde morava a moura que encantava a quinta, e negociaram com ela. Esta permitia que Dom Baldo entrasse na quinta com a condição de a deixar morar no palácio ou na torre.

Firmado o contrato com a moura, o Estanqueiro aproveitou a proximidade da Feira dos Gorazes, que se realizava todos os anos em Mogadouro, para aí trocar os seus jumentos por dois cavalos, dos mais caros, pagando logo a diferença em dinheiro. Aí comprou também a pronto pagamento dois rebanhos de ovelhas. Um indivíduo da Macieirinha, que antes morara nas Peladinhas, conhecido por Quim, assistiu ao negócio.

Contratou pessoal suficiente para cultivar a quinta e para reparar o palácio e a torre, o qual em tamanho e qualidade era o melhor das redondezas. Para recuperar a torre e o palácio chamou mestres de obra famosos.

Passou a vestir-se como um nobre. Mudou também o seu apelido de Estanqueiro para Baldo. Este apelido era usado pelo Conde de Vimioso.

Então as pessoas do seu povo e dos povos vizinhos passaram a tratá-lo por Fidalgo Baldo ou Dom Baldo. O Botelho não acreditava que estes títulos fossem oficiais. Terá sido ele que os pôs a si próprio.

Quanto à origem do dinheiro havia várias opiniões.

Algumas pessoas diziam que o Estanqueiro teria enriquecido com o negócio do minério. Comprá-lo-ia na Fonte Santa de Mogadouro ou na Quinta das Pereiras e vendê-lo-ia aos castelhanos perto da fronteira de Freixo de Espada à Cinta. Tudo em segredo. Isto era a voz do povo, que umas vezes acerta e outras erra. Só é seguro que ele tinha uma mina de ferro na ladeira da Odreira que herdou de seu pai, a qual vinha do tempo dos romanos. Mas nunca a explorou, nem ninguém queria explorá-la. Tudo porque segundo os relatos antigos aquela mina era muito comprida, atravessando o monte, e as pessoas e animais que lá entravam não voltavam a ser vistos, salvo um cão que entrou num lado do monte e saiu do outro lado. A água que vinha da mina, antes das pessoas e animais lá desaparecerem, saía limpa e depois passou a ser vermelha, aumentando o medo de lá entrar.

Havia outras pessoas que diziam que não se enriqueceu com o negócio do minério, mas com uma fortuna herdada de um tio de sua mulher que era judeu, não tinha descendentes e viveu em Macedo de Cavaleiros.

O bruxo de Meirinhos – pessoa muito mentirosa – dizia que Dom Baldo encontrou um cordeiro de ouro, em tamanho natural, quando no lugar do Canamor escavava a terra para plantar uma árvore.

Terminava assim a história do Estanqueiro, e começava a história de Dom Baldo.