Estamos no Expresso

Com algum atraso, é certo, mas aqui ficam as imagens da nossa primeira aparição na imprensa escrita:




Não nos perguntem como aconteceu - na realidade, se alguém souber, que nos diga. Como é habitual, a ligação fica guardada na barrinha da direita.

Árvores com história: Ulmeiro [Ulmus minor]


"Quando Joana Carda riscou o chão com a vara de negrilho, todos os cães de Cerbère começaram a ladrar…” (José Saramago, 1994). Assim começa a “Jangada de Pedra” do nosso Nobel da literatura, dando relevo a uma árvore outrora muito comum e que hoje vai rareando. 

Conhecida entre nós como “Avelaneira-brava”, “Lamegueiro”, “Mosqueiro”, “Negrilho”, “Olmeiro”, “Olmo”, “Ulmeiro-das-folhas-lisas”, “Ulmeiro” e “Ulmo” falamos de uma espécie cuja origem gera alguma controvérsia. Para uns trata-se de uma espécie autóctone, que em tempos se estendeu a todo o país (sobretudo no Norte), para outros de um arqueófito (espécie que terá sido introduzida numa época anterior aos Descobrimentos, possivelmente ainda na proto-história, no milénio I a.C.). 

Trata-se de uma árvore de folha caduca, de copa ovóide, arredondada ou algo irregular, podendo atingir facilmente os 20 m de altura e, não raramente, os 30 m. Rebentando facilmente de touça, apresenta uma casca cinzenta, fissurada. As suas folhas, simples, ovadas, alternas, podendo medir entre os 8,5 e os 12 cm de comprimento por 6 cm de largura, são pontiagudas de margem dentada ou serrada, apresentando uma base assimétrica que é característica do género. As inflorescências são cimos (tipo de inflorescência que lembra um glomérulo e que termina numa flor) densos compostas por flores rosa-purpúreas que produzem frutos (sâmaras) orbiculares a ovados com 20x17 mm e que apresentam a semente no seu terço superior. 

Comum em quase toda a Europa, Norte de África e Ásia ocidental, é uma espécie que gosta de luz, preferindo os solos profundos, férteis, ocorrendo junto a linhas de água, fundos de vales e em bosques mistos, podendo chegar até aos 1700 m de altitude. Tolerando a exposição marítima e resistente à poluição atrai numerosos insectos (especialmente lepidópteros) que dele se alimentam. Floresce usualmente entre Fevereiro e Março e os seus frutos amadurecem entre Abril e Maio. 

A espécie (como todas as demais do género) tem estado em declínio constante, um pouco por todo o mundo, devido a uma doença designada grafiose (DED - Dutch Elm Disease, em inglês) que matou milhões destas árvores um pouco por todo o mundo (para se ter uma ideia, só no Reino Unido e desde os anos 70 a doença já matou cerca de 26 milhões de ulmeiros). Trata-se de uma doença provocada por fungos que são transportados por escaravelhos que se alimentam da madeira. 

Na mitologia os ulmeiros encontram-se relacionados, na maioria das vezes, com a morte ou com a administração da justiça ou ambos e, como quase sempre, são os clássicos gregos que nos dão conta dos primeiros registos escritos sobre a espécie. 

Na Grécia antiga os ulmeiros estavam relacionados com o cultivo das vinhas, as quais cresciam sobre estas árvores, que lhes serviam de tutores. Ao longo do tempo foram adquirindo outros valores simbólicos, considerando-se que eram plantados por ninfas, filhas de Zeus, o que conferia ao ulmeiro o valor de uma espécie sagrada. Este estatuto figura na Ilíada de Homero (Livro 6): os ulmeiros bordam o túmulo de Eécion, rei de Tebas na Mísia, morto por Aquiles. 

Tal como para os gregos, para os antigos ingleses, suíços e alemães o ulmeiro estava ligado à morte e passagem para outra vida e ainda hoje a madeira desta espécie (talvez devido à sua resistência) continua a ser usada para a confecção de caixões. Na mitologia nórdica, sobretudo germânica, a mulher tinha origem no ulmeiro e o homem no freixo. Pelo contrário, na região do Mediterrâneo, o ulmeiro apresentava-se como uma figura de masculinidade, ligada ao vinho e à dignidade. 

Os romanos, muito mais práticos que os “científicos” gregos, e especialmente muito mais interessados em benefícios, disseminaram a cultura da vinha apoiada no ulmeiro que se estendeu a todo o império só sendo abandonada nos séculos XVI e XVII, à exceção da Itália, onde se manteve. Por outro lado, achavam que os ulmeiros tinham capacidades de adivinhação por entenderem que estimulavam os sonhos (a árvore estava consagrada a Morfeu). Na Idade Média, juntamente com o carvalho, foi-lhe dado um novo significado: debaixo da sua copa administrava-se a justiça, costume que se alargou a Portugal, onde a imponência desta árvore conferia dignidade aos actos. 

Dotado de uma madeira “dura, mas fácil de trabalhar”, a qual depois de molhada pode ser moldada, o negrilho foi usado em Portugal sobretudo na construção e mobiliário, apresentando-se como uma árvore economicamente importante. Da sua madeira produziram-se deques, soalhos, mesas, cadeiras, balcões, partes de arados, carroças, carruagens, suportes para armas e muito outros instrumentos. 

Devido à sua resistência à humidade foi usado para construir partes de barcos (ainda hoje é uma das madeiras preferidas para estes fins) e, sendo extremamente resistente, era usado em todos os componentes de utensílios e objectos que necessitassem resistir à pressão e ao movimento, incluindo rodas de carroças e carruagens, suportes de tracção, etc. 

Por outro lado era costume que, chegado o final do Verão, se colhessem ramos e folhas. As folhas eram usadas para alimentar o gado (especialmente ruminantes e suínos) e os ramos para servirem de estacas nas culturas. Em momentos de necessidade também os humanos consumiam as folhas (tanto na forma de sopas como em saladas) ou farinhas, obtidas a partir da casca. 

Podendo crescer e atingir proporções majestosas, o ulmeiro era uma das árvores mais imponentes da nossa paisagem (antes da grafiose) e daí ser dito, nas nossas lendas, que local onde existissem ulmeiros podiam existir bandidos, os quais se ocultariam nessa magnífica árvore. Mas não acredite em tudo o que se diz. Do ulmeiro espere uma linda e fresca sombra e uma beleza, hoje escassa, que merece fazer parte da nossa paisagem natural e da sua implementação em parques e jardins. 

Rubim Almeida, publicado no Projeto das 100.000 Árvores.

Prática de astronomia amadora em Martim Tirado - Céu escuro, com estrelas brilhantes - Rio d'Ouro

Bem-vindo.

Neste lugar, numa noite de céu limpo e escuro, se observar o brilho das estrelas e dos astros e simultaneamente meditar sobre os eternos enigmas que encerram, porventura encontrará o que há muito estava procurando: inspiração celeste para escrever um poema com uma beleza nunca vista, o poema da sua vida.

As estrelas e os astros iluminam a Terra desde há milhões de anos, e também iluminaram o espírito humano na observação e interpretação do universo e na admirável criação da cosmologia das civilizações. A luz celeste está também associada à criação do Mundo, quer do ponto de vista religioso (“faça-se a luz”) quer à origem do Universo (Big Bang), do ponto de vista científico.

Com a chegada da iluminação pública às cidades, vilas, aldeias e lugares, foi-se apagando ou diminuindo o seu brilho. Hoje, na Europa, as zonas de céu verdadeiramente escuro e limpo são, infelizmente, uma raridade.

Agora as crianças conhecem os corpos celestes através das fotografias dos livros porque, em regra, a poluição luminosa do lugar onde vivem não lhes permite vê-los directamente, ou vêem-nos com uma luz débil.

Porém, em lugares longínquos dos centros urbanos, há ainda pequenos territórios de noites escuras, onde se pode observar a harmonia e a beleza natural do Universo, povoado de corpos brilhantes.

Este ambiente ajuda-las-á a desenvolver a sua imaginação e criatividade, a compreender as leis do Universo, ao som de uma música suave trazida pelo vento não se sabe donde, e poderão escrever um poema de brilho original. 

Em 2001 foi publicado por Cinzano, Falchi e Elvidge o mapa do brilho do céu do globo. Os dados do mapa foram obtidos a partir de fotografias de satélite. Analisando esse mapa, facilmente se percebe que Martim Tirado se situa num dos poucos territórios de céu verdadeiramente escuro do Norte de Portugal:


Em Janeiro de 2015, Raul Cerveira Lima (ESTSP/IPP), investigador da Universidade de Coimbra na área da poluição luminosa, procedeu a medições do brilho céu nocturno no território indicado, extraindo- se das conclusões do seu relatório o seguinte:

Os primeiros resultados indiciam um céu de muito boa qualidade (valor médio da região acima de 21.50 mag/arcsec2, valor acima do valor de referência de 21.00 mag/arcsec2* usado para a classificação de reservas de céu escuro com nível “Silver” (segundo dos três níveis “Gold”, “Silver” e “Bronze”) pela International Dark-Sky Association (IDA) e referência também para classificação de reservas de céu escuro pela Starlight Foundation.

Indica-se, através do mapa das estradas, o local onde se obteve o valor mais elevado (21,60 mag/arcsec2), ao lado do entroncamento da estrada municipal de Martim Tirado com a estrada N221:



Aí, na berma da estrada municipal, em frente a uma paragem de autocarros, pode estacionar o seu automóvel. Um céu com aquela qualidade pode ser observado a olho nu, com binóculos ou com telescópio, nos dias sem luar intenso e sem nuvens altas.

António Júlio Lopes

*Um valor elevado de mag/arcsec2 corresponde a um brilho do céu menor, ou seja, a um céu mais escuro.

Preçário 2015

Aqui está o nosso preçário para 2015. Um pouco mais complexo que o anterior, mas também mais equilibrado. Os preço máximos sobem, os mínimos mantêm-se. Esperamos continuar a ter uma relação preço-qualidade imbatível, e a trazer novos exploradores para o Douro Internacional.


Dom Baldo de Martim Tirado e o seu palácio de uma torre - Capítulo XIX

Muitos anos depois faleceram, o Fidalgo e sua mulher. O palácio ficou desabitado e começou a degradar-se. Os filhos do fidalgo não queriam viver ali. Não se sabe por que razão.

Algumas pessoas, inimigas daquela família, diziam que os herdeiros do Fidalgo não queriam habitar aquele palácio, porque estava encantado e tinham medo dos fantasmas.

Então o mestre-de-obras Nuno Gomes Lopes, neto de Aníbal Lopes, que foi vizinho e amigo de Dom Baldo, comprou o palácio e mandou restaurá-lo, com um seu projecto e sob a sua direcção, depois de conhecer e respeitar toda a história daquela família, do mouro (que não se sabe com exactidão se era uma pessoa de carne e osso ou um fantasma), do seu castelo, das lendas das mouras encantadas, da mourama e da mouraria, do que diziam os bruxos (dos que falavam verdade e dos mentirosos) e da influência dos astros e das estrelas sobre o modo de viver das pessoas daquele povo. Para executar a obra contratou uns famosos pedreiros de Freixo de Espada à Cinta, conhecidos por Pintados.

O palácio está restaurado, com excepção da torre, e se antes estava encantado, agora mais encantado está. Quando a torre estiver concluída o Nuno poderá usar os títulos de Dom ou de Fidalgo ou os dois.

Quem olhar para este palácio ficará encantado para sempre.


 António Júlio Lopes (Natural de Martim Tirado)

Dom Baldo de Martim Tirado e o seu palácio de uma torre - Capítulo XVIII

A noite ia adiantada. Traçámos os planos de busca dos salteadores de acordo com as informações recolhidas, os presságios da lua cheia, e os poderes misteriosos do meu cavalo. Seguiríamos pelo caminho da Floresta do Palão. Porém, para evitar que as pessoas da povoação soubessem para onde íamos, tomámos inicialmente o caminho de regresso a Moncorvo. Só quando íamos longe e já ninguém nos podia ver virámos na direcção da Floresta do Palão.

Seguimos por uns atalhos pelo meio dos soutos. Ouvíamos o repetido piar das corujas, musica agoirenta que nos causava arrepios de medo. Para prevenir a surpresa de qualquer confronto desembainhei a espada e o Botelho por sua iniciativa empunhou a lança. A atmosfera agoirenta adensou-se. O jumento zurrou e o cavalo relinchou. Ocorreu-me a ideia de que também ficaram com medo, depois pareceu-me que comunicavam qualquer coisa com as corujas, mais tarde pensei que animais sem asas não comunicavam com os que as tinham, que comentariam entre si qualquer sinal que vinha da lua cheia e, por último, concluí que nada sabia. Mais adiante lembrei-me de ter lido num livro que na antiguidade havia cavalos alados. Se havia cavalos alados também havia jumentos alados, por uma questão de igualdade. Sendo assim, os nossos animais poderiam comunicar com as corujas.

Continuámos a caminhar em alerta máximo. O Botelho ia à frente sem dizer qualquer palavra. De vez em quando fazia exercícios com a lança. Seriam para se treinar ou para libertar a sua ansiedade ou as duas coisas. Os nossos animais de vez em quando paravam repentinamente, espirravam sem estarem constipados, arrebitavam as orelhas, olhavam para os lados e recuavam. Seria um sinal de que nas redondezas havia qualquer coisa estranha e perigosa. Estávamos perto de umas grutas da floresta do Palão. Ouvimos os gritos de um homem que pedia ajuda, e dizia, além de outras coisas, que havia ali ladrões.

Ao sairmos de um pinhal vimos o homem que pedia ajuda a fugir montado num cavalo e atrás dele iam também a cavalo dois supostos bandidos. O Botelho, que ia adiantado, mal viu os salteadores investiu na sua direcção com a lança em posição de os atingir. Imprevistamente o jumento transformou-se em animal alado e passou a correr ou a voar a grande velocidade e com grande ruído.

Fiquei com receio de que o Botelho os trespassasse com a lança. Tivemos sorte porque os supostos bandidos, ao verem a sua vida em risco, deitaram-se abaixo dos cavalos e logo iniciaram a fuga. De nada lhes valeu. Cercados por nós e pela pessoa que anteriormente estava a ser perseguida, renderam-se. Traziam à cinta, cada um, um punhal de lâmina comprida, tendo sido logo desarmados e acorrentados.

Seguidamente o Botelho foi buscar os cavalos que eles traziam, um deles com alforges. Perguntámos-lhes se os cavalos eram seus. Responderam que sim. Logo o perseguido afirmou que conhecia bem o cavalo dos alforges e que pertencia ao Fidalgo Baldo. Um deles respondeu que o tinham encontrado abandonado e enquanto não o reclamassem pertencia-lhes, segundo as leis do Reino. Revistados os alforges ali encontrámos ouro que pertenceria a uma Santa e uma salva em prata onde estava escrito: “oferta do povo de Lagoaça ao seu pároco na comemoração dos seus vinte e cinco anos de sacerdócio".

Um dos salteadores era alto e tinha a roupa rota. No chão estava um chapéu roto e um tapolho. Perguntámos-lhes se aqueles objectos eram seus. Responderam que não e viam muito bem.

Entretanto nasceu o sol. Olhei para o jumento e pude verificar que não tinha asas, não havia nenhumas caídas no chão e estava calmo. Então pus-me a pensar: terei visto na realidade o jumento com asas ou terei pensado que as tinha só porque era muito rápido? Não tinha dúvidas de que vi o jumento com asas. O mesmo foi-me confirmado pelo Botelho, acrescentando que as mesmas desapareceram quando desapareceu o luar da lua cheia. Não havia conhecimento de que os jumentos se transformavam em animais alados com o luar da lua cheia. Haveria outras explicações. Naquela noite tinha dado água ao jumento da que recolhi com um cântaro na fonte da moura, para curar o seu reumatismo. É provável que tivesse virtudes mágicas para o transformar em animal alado, por si, ou com a ajuda dos poderes da lua cheia. Poderia também ter acontecido que uma ave se tenha espojado num cruzamento de caminhos e que no mesmo sítio se tenha espojado depois o jumento. Se tal aconteceu estava aberta a possibilidade de o jumento se transformar em animal alado durante o luar da lua cheia.

Estávamos prontos para partir quando um pastor de ovelhas se aproximou de nós. Começou por saudar-nos. Depois contou-nos que aquele sítio era muito respeitado, porque nas grutas que estavam à nossa frente moravam os espíritos de uns famosos artistas que há milhares de anos ali viveram.

Foram esses artistas que gravaram animais num rochedo na margem direita do rio Douro, perto da povoação de Mazouco. Algumas dessas gravuras estavam danificadas, restando intacta apenas a de um cavalo.

Havia pessoas que diziam que entre as gravuras danificadas estava um jumento alado e outras afirmavam que não é um jumento, mas um cavalo alado.

Regressámos à Quinta de Dom Baldo, a quem entregámos o seu cavalo, depois de o reconhecer. Era o cavalo que lhe tinham roubado em Vale de Ferreiros.

Comemos dos restos que ficaram do casamento e depois iniciámos o regresso a Torre de Moncorvo.

Com a valentia e grande coragem demonstrados neste caso, o Botelho poderia ver cumprido o seu grande desejo de ser comandante ou governador. 

Dom Baldo de Martim Tirado e o seu palácio de uma torre - Capítulo XVII

Então ouviu-se o ranger do portão da cerca do palácio, e a Josefa abriu-o e fez-nos sinal para entrarmos. Um jardim, de forma rectangular, ocupava a parte central da cerca. Ao meio do jardim havia um espelho de água também rectangular, que logo se transformou em redondo. O Botelho não viu nenhuma transformação, talvez por distracção. De qualquer modo fiquei sem saber ao certo se o espelho de água, quando inicialmente o vi, era mesmo rectangular ou se o confundi com o formato do jardim, dada a forte luminosidade do sol de um céu limpo, que até feria a vista, o qual poderá ter criado ilusão de formas.

O jardim tinha rosas de várias cores e outras flores. Algumas daquelas plantas floridas, segundo constava, foram trazidas pelo mouro do Norte de Africa.

Depois choveu um pouco. As plantas guardaram uma parte daquela água para irem saciando a sua sede, e a outra parte transformaram-na em perfumes que iam espalhando no ar em sinal de agradecimento às nuvens pela prenda recebida, e para atrair os insectos.

Umas gotinhas daquela água ficaram a pairar no céu e então o sol, ao vê-las, lançou alegremente os seus raios dourados na sua direcção. Manifestaram recíproca paixão, formando um arco-íris para que todo o mundo o soubesse.

Associei emocionalmente as flores à delicadeza da noiva, à sua beleza, à primavera, à renovação e ao ciclo eterno da vida.

Circundado o jardim, estávamos à entrada de um forno ligado a uma adega. Aí duas doceiras do Felgar faziam os bolos do casamento e preparavam os assados de cordeiro. Uma vez dentro deparámos com vários presuntos pendurados do tecto, tábuas com dezenas de queijos de ovelha, umas pipas de vinho e bastantes pães de trigo cozidos.

A Josefa encaminhou-nos para a entrada do palácio. Em cima havia um brasão com os desenhos de uma torre, de abelhas a voar e um ramo de flor de amendoeira. A torre significava riqueza e poder, as abelhas trabalho e o ramo de flor de amendoeira beleza, cortesia, afectividade e nobreza.

O salão do palácio deixou-me surpreendido com o seu comprimento. Nunca tinha imaginado que houvesse uma salão assim, tendo havido também comentários idênticos do Botelho. A Josefa explicou-nos que se tratava de uma ilusão. Tudo resultava do reflexo dos espelhos colocados nas paredes.

À minha frente estava um quadro pintado a óleo cuja pintura representava Dom Baldo e a sua mulher, Dona Albertina. Ele usava traje de fidalgo: botas pretas altas, calças e camisas brancas, casaco e colete azuis, esporas de ouro tipo orientais e plumas no chapéu. Do seu lado direito, numa mesa decorativa, estava uma jarra de flores de amendoeira com abelhas a esvoaçar, semelhante ao brasão da família. Do seu lado esquerdo estava a Dona Albertina, com traje elegante e de qualidade correspondente ao de mulher de fidalgo.

Depois passámos para a salão do tesouro. Nas paredes havia tapetes decorados com cenas de caça e colecções de espadas e punhais. As espadas eram muito curvas na extremidade. Estas e os punhais tinham os punhos e as bainhas decorados com pedras preciosas embutidas de várias cores, sobretudo o azul marinho. Apesar de usar espada na minha profissão fiquei impressionado com o poder cortante daquelas que vi na parede. Em algumas vitrinas estavam elmos, esporas e estribos de ouro.

A Josefa pediu-nos para tocar naqueles objectos. Não fomos capazes de o fazer. Era-nos impossível mexer os pés e as mãos. Então explicou-nos que aquele tesouro tinha sido encontrado enterrado, dentro de arcas de pele de camelo, na torre do mouro. Para o retirar foi preciso chamar um mouro ou bruxo da Torre Dona Chama, que quebrou o encanto e voltou a encantá-lo naquela sala. Acrescentou que nas paredes do palácio de Dom Baldo residia uma moura e quando as pessoas se aproximam para roubar o tesouro, ela encantava-as deixando-as imobilizadas. Isso já tinha acontecido umas semanas antes com a quadrilha da Serra de Mós. Deu-nos pormenores sobre as características do seu chefe. Era alto e magro, usava calças e camisa rotas, um chapéu de aba larga com alguns buracos e um tapolho na vista direita, fazendo supor que aquela vista estava furada. O tapolho não só tapava o olho direito mas também metade da cara daquele lado. Havia quem afirmasse que ele não tinha qualquer defeito na vista e na cara e que usava o tapolho como disfarce. Era por isso que lhe chamavam o Tapolho de Mós.

A Josefa queria mostrar-nos as restantes divisões do palácio, a torre e os seus segredos. Tal não foi possível. Mal acabávamos a visita ao salão do tesouro ouviam-se pessoas a falar na cerca do palácio. Fomos ver, com excepção do Botelho e da filha da Josefa, que ficaram a conversar. Era o regresso do casamento. À frente iam os noivos e atrás deles os seus pais, com excepção do pai do noivo que já tinha falecido, os seus familiares e, por último, os convidados não familiares.

O cortejo parou devido a um acontecimento misterioso. Sem que nada o fizesse prever, do lado esquerdo da comitiva, a uns cinquenta passos de distância, num campo bem limpo, surgiu uma enorme plantação de palmeiras, agitadas pelo vento e trespassada por frescos e abundantes raios de sol. No meio desta havia uma estrada, em linha recta, em direcção à entrada de uma casa senhorial com apenas um piso e um pátio largo a toda a volta, sustentado por colunas. A casa estava caiada de branco, com excepção das extremidades das colunas e o rodapé que estavam caiados de azul.

Ao meio da casa havia uma entrada larga com as portas abertas e com sete velas acesas de cada lado.

Começou a ouvir-se a música de um pífaro mágico. Não se sabia se vinha do palmeiral ou do interior da casa. Então surgiu uma mulher alta e magra vinda do interior da casa em direcção à sua entrada. Usava um vestido branco que lhe chegava aos pés, um chapéu redondo sem abas da mesma cor em forma de cone e sandálias de pele fina. Demonstrava uma delicadeza surpreendente: caminhava devagar e parava depois de cada passo que dava, para logo prosseguir suavemente. Chegada ao terraço da casa parou por mais tempo. Depois curvou-se para a frente, cruzou os braços sobre o peito e começou a executar uma dança: girava em torno de si própria, primeiro devagar e depois com bastante velocidade, e nessa altura abriu os braços. Tive a impressão de que o espírito da mulher se uniu aos corpos celestes e girava com eles.

Dois cães, que estavam sentados à frente do pátio, deitaram-se no chão e adormeceram com a música do pífaro mágico. As aves pararam de voar e as árvores curvavam-se em homenagem ao músico que não se via e à dançarina presente.

Terminada a música e a dança, a mulher ficou a olhar para a comitiva do casamento com tantas lágrimas que podiam secar-lhe a alma em pouco tempo. Os cães aproximaram-se de nós com ar simpático, batendo com a cauda no ar.

Alguém duvidou da bondade do que se estava a passar e comentou em voz baixa que aquela mulher seria uma antiga namorada do noivo. A Igreja impedira este casamento por ela ser moura. Teria vindo ali para estragar a festa ou para lhe desejar boa sorte ao noivo. Dom Baldo que estava um pouco distante não ouviu este comentário. Porém, notava-se no seu rosto e na sua postura a desconfiança.

Pareceu ao Botelho que se tratava de um encantamento. Com grande velocidade, agora facilitada pela recente magreza, lançou-se na direcção daquele jardim, perseguindo com a sua lança os cães e a mulher até desaparecerem.

A governanta abriu as portas do salão principal e para aí se dirigiram os convidados. Muitos olhavam para a admirável decoração das paredes e dos tectos e outros para a comida. Ainda não havia ordem, nem para se sentarem, nem para comerem. Dom Baldo saudou os convidados e agradeceu-lhes a sua presença. Após ter dado sinal, o grupo musical de Mogadouro iniciou a execução de uma música, dedicada aos noivos, assim se cumprindo a tradição das casas nobres. O grupo musical era composto por quatro elementos: uma cantora, dois músicos de alaúde e um de rabeca.

Dos convidados de fora destacavam-se dois rapazes solteiros de famílias também fidalgas, um chamado Luís Comenda, que era do Canto, e outro chamado, Amílcar Pinto, que era da Portela.