No espaço de um mês e pouco Martim Tirado foi referida nos dois jornais de referência em Portugal. Primeiro no Expresso, realçando a belíssima qualidade do nosso céu; depois no Público, com o trabalho feito pelo Arquivo de Memória na aldeia. A Isaltina e a Elisa, com todo o mérito, estão destacadas.
Agora o Público
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Estamos no Expresso
Com algum atraso, é certo, mas aqui ficam as imagens da nossa primeira aparição na imprensa escrita:
Não nos perguntem como aconteceu - na realidade, se alguém souber, que nos diga. Como é habitual, a ligação fica guardada na barrinha da direita.
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Árvores com história: Ulmeiro [Ulmus minor]

"Quando Joana Carda riscou o chão com a vara de negrilho, todos os cães de Cerbère começaram a ladrar…” (José Saramago, 1994). Assim começa a “Jangada de Pedra” do nosso Nobel da literatura, dando relevo a uma árvore outrora muito comum e que hoje vai rareando.
Conhecida entre nós como “Avelaneira-brava”, “Lamegueiro”, “Mosqueiro”, “Negrilho”, “Olmeiro”, “Olmo”, “Ulmeiro-das-folhas-lisas”, “Ulmeiro” e “Ulmo” falamos de uma espécie cuja origem gera alguma controvérsia. Para uns trata-se de uma espécie autóctone, que em tempos se estendeu a todo o país (sobretudo no Norte), para outros de um arqueófito (espécie que terá sido introduzida numa época anterior aos Descobrimentos, possivelmente ainda na proto-história, no milénio I a.C.).
Trata-se de uma árvore de folha caduca, de copa ovóide, arredondada ou algo irregular, podendo atingir facilmente os 20 m de altura e, não raramente, os 30 m. Rebentando facilmente de touça, apresenta uma casca cinzenta, fissurada. As suas folhas, simples, ovadas, alternas, podendo medir entre os 8,5 e os 12 cm de comprimento por 6 cm de largura, são pontiagudas de margem dentada ou serrada, apresentando uma base assimétrica que é característica do género. As inflorescências são cimos (tipo de inflorescência que lembra um glomérulo e que termina numa flor) densos compostas por flores rosa-purpúreas que produzem frutos (sâmaras) orbiculares a ovados com 20x17 mm e que apresentam a semente no seu terço superior.
Comum em quase toda a Europa, Norte de África e Ásia ocidental, é uma espécie que gosta de luz, preferindo os solos profundos, férteis, ocorrendo junto a linhas de água, fundos de vales e em bosques mistos, podendo chegar até aos 1700 m de altitude. Tolerando a exposição marítima e resistente à poluição atrai numerosos insectos (especialmente lepidópteros) que dele se alimentam. Floresce usualmente entre Fevereiro e Março e os seus frutos amadurecem entre Abril e Maio.
A espécie (como todas as demais do género) tem estado em declínio constante, um pouco por todo o mundo, devido a uma doença designada grafiose (DED - Dutch Elm Disease, em inglês) que matou milhões destas árvores um pouco por todo o mundo (para se ter uma ideia, só no Reino Unido e desde os anos 70 a doença já matou cerca de 26 milhões de ulmeiros). Trata-se de uma doença provocada por fungos que são transportados por escaravelhos que se alimentam da madeira.
Na mitologia os ulmeiros encontram-se relacionados, na maioria das vezes, com a morte ou com a administração da justiça ou ambos e, como quase sempre, são os clássicos gregos que nos dão conta dos primeiros registos escritos sobre a espécie.
Na Grécia antiga os ulmeiros estavam relacionados com o cultivo das vinhas, as quais cresciam sobre estas árvores, que lhes serviam de tutores. Ao longo do tempo foram adquirindo outros valores simbólicos, considerando-se que eram plantados por ninfas, filhas de Zeus, o que conferia ao ulmeiro o valor de uma espécie sagrada. Este estatuto figura na Ilíada de Homero (Livro 6): os ulmeiros bordam o túmulo de Eécion, rei de Tebas na Mísia, morto por Aquiles.
Tal como para os gregos, para os antigos ingleses, suíços e alemães o ulmeiro estava ligado à morte e passagem para outra vida e ainda hoje a madeira desta espécie (talvez devido à sua resistência) continua a ser usada para a confecção de caixões. Na mitologia nórdica, sobretudo germânica, a mulher tinha origem no ulmeiro e o homem no freixo. Pelo contrário, na região do Mediterrâneo, o ulmeiro apresentava-se como uma figura de masculinidade, ligada ao vinho e à dignidade.
Os romanos, muito mais práticos que os “científicos” gregos, e especialmente muito mais interessados em benefícios, disseminaram a cultura da vinha apoiada no ulmeiro que se estendeu a todo o império só sendo abandonada nos séculos XVI e XVII, à exceção da Itália, onde se manteve. Por outro lado, achavam que os ulmeiros tinham capacidades de adivinhação por entenderem que estimulavam os sonhos (a árvore estava consagrada a Morfeu). Na Idade Média, juntamente com o carvalho, foi-lhe dado um novo significado: debaixo da sua copa administrava-se a justiça, costume que se alargou a Portugal, onde a imponência desta árvore conferia dignidade aos actos.
Dotado de uma madeira “dura, mas fácil de trabalhar”, a qual depois de molhada pode ser moldada, o negrilho foi usado em Portugal sobretudo na construção e mobiliário, apresentando-se como uma árvore economicamente importante. Da sua madeira produziram-se deques, soalhos, mesas, cadeiras, balcões, partes de arados, carroças, carruagens, suportes para armas e muito outros instrumentos.
Devido à sua resistência à humidade foi usado para construir partes de barcos (ainda hoje é uma das madeiras preferidas para estes fins) e, sendo extremamente resistente, era usado em todos os componentes de utensílios e objectos que necessitassem resistir à pressão e ao movimento, incluindo rodas de carroças e carruagens, suportes de tracção, etc.
Por outro lado era costume que, chegado o final do Verão, se colhessem ramos e folhas. As folhas eram usadas para alimentar o gado (especialmente ruminantes e suínos) e os ramos para servirem de estacas nas culturas. Em momentos de necessidade também os humanos consumiam as folhas (tanto na forma de sopas como em saladas) ou farinhas, obtidas a partir da casca.
Podendo crescer e atingir proporções majestosas, o ulmeiro era uma das árvores mais imponentes da nossa paisagem (antes da grafiose) e daí ser dito, nas nossas lendas, que local onde existissem ulmeiros podiam existir bandidos, os quais se ocultariam nessa magnífica árvore. Mas não acredite em tudo o que se diz. Do ulmeiro espere uma linda e fresca sombra e uma beleza, hoje escassa, que merece fazer parte da nossa paisagem natural e da sua implementação em parques e jardins.
Rubim Almeida, publicado no Projeto das 100.000 Árvores.
Prática de astronomia amadora em Martim Tirado - Céu escuro, com estrelas brilhantes - Rio d'Ouro
Bem-vindo.
Neste lugar, numa noite de céu limpo e escuro, se observar o brilho das estrelas e dos astros e simultaneamente meditar sobre os eternos enigmas que encerram, porventura encontrará o que há muito estava procurando: inspiração celeste para escrever um poema com uma beleza nunca vista, o poema da sua vida.
As estrelas e os astros iluminam a Terra desde há milhões de anos, e também iluminaram o espírito humano na observação e interpretação do universo e na admirável criação da cosmologia das civilizações. A luz celeste está também associada à criação do Mundo, quer do ponto de vista religioso (“faça-se a luz”) quer à origem do Universo (Big Bang), do ponto de vista científico.
Com a chegada da iluminação pública às cidades, vilas, aldeias e lugares, foi-se apagando ou diminuindo o seu brilho. Hoje, na Europa, as zonas de céu verdadeiramente escuro e limpo são, infelizmente, uma raridade.
Agora as crianças conhecem os corpos celestes através das fotografias dos livros porque, em regra, a poluição luminosa do lugar onde vivem não lhes permite vê-los directamente, ou vêem-nos com uma luz débil.
Porém, em lugares longínquos dos centros urbanos, há ainda pequenos territórios de noites escuras, onde se pode observar a harmonia e a beleza natural do Universo, povoado de corpos brilhantes.
Este ambiente ajuda-las-á a desenvolver a sua imaginação e criatividade, a compreender as leis do Universo, ao som de uma música suave trazida pelo vento não se sabe donde, e poderão escrever um poema de brilho original.
Em 2001 foi publicado por Cinzano, Falchi e Elvidge o mapa do brilho do céu do globo. Os dados do mapa foram obtidos a partir de fotografias de satélite. Analisando esse mapa, facilmente se percebe que Martim Tirado se situa num dos poucos territórios de céu verdadeiramente escuro do Norte de Portugal:
Em Janeiro de 2015, Raul Cerveira Lima (ESTSP/IPP), investigador da Universidade de Coimbra na área da poluição luminosa, procedeu a medições do brilho céu nocturno no território indicado, extraindo-
se das conclusões do seu relatório o seguinte:
Os primeiros resultados indiciam um céu de muito boa qualidade (valor médio da região acima de 21.50 mag/arcsec2, valor acima do valor de referência de 21.00 mag/arcsec2* usado para a classificação de reservas de céu escuro com nível “Silver” (segundo dos três níveis “Gold”, “Silver” e “Bronze”) pela International Dark-Sky Association (IDA) e referência também para classificação de reservas de céu escuro pela Starlight Foundation.
Indica-se, através do mapa das estradas, o local onde se obteve o valor
mais elevado (21,60 mag/arcsec2), ao lado do entroncamento da
estrada municipal de Martim Tirado com a estrada N221:
Aí,
na berma da estrada municipal, em frente a uma paragem de
autocarros, pode estacionar o seu automóvel.
Um céu com aquela qualidade pode ser observado a olho nu, com
binóculos ou com telescópio, nos dias sem luar intenso e sem nuvens altas.
António Júlio Lopes
*Um valor elevado de mag/arcsec2 corresponde a um brilho do céu menor, ou seja, a um céu mais escuro.
Preçário 2015
Aqui está o nosso preçário para 2015. Um pouco mais complexo que o anterior, mas também mais equilibrado. Os preço máximos sobem, os mínimos mantêm-se. Esperamos continuar a ter uma relação preço-qualidade imbatível, e a trazer novos exploradores para o Douro Internacional.
Dom Baldo de Martim Tirado e o seu palácio de uma torre - Capítulo XIX
Muitos anos depois faleceram, o Fidalgo e sua mulher. O
palácio ficou desabitado e começou a degradar-se. Os filhos do fidalgo não queriam
viver ali. Não se sabe por que razão.
Algumas pessoas,
inimigas daquela família, diziam que os herdeiros do Fidalgo não queriam habitar aquele palácio, porque estava encantado e
tinham medo dos fantasmas.
Então o
mestre-de-obras Nuno Gomes Lopes, neto de Aníbal Lopes, que foi vizinho e amigo de Dom Baldo, comprou o palácio e mandou
restaurá-lo, com um seu projecto e sob a sua direcção, depois de conhecer e
respeitar toda a história daquela família, do mouro (que não se sabe com exactidão se era uma
pessoa de carne e osso ou um fantasma), do seu castelo, das lendas das mouras
encantadas, da mourama e da mouraria, do que diziam os bruxos (dos que falavam verdade e
dos mentirosos) e da influência dos astros e das estrelas sobre o modo de viver
das pessoas daquele povo. Para executar a obra contratou uns famosos pedreiros de
Freixo de Espada à Cinta, conhecidos por Pintados.
O palácio está
restaurado, com excepção da torre, e se antes estava encantado, agora mais encantado está. Quando a torre estiver concluída o Nuno
poderá usar os títulos de Dom ou de Fidalgo ou os dois.
Quem olhar para este
palácio ficará encantado para sempre.
António Júlio Lopes
(Natural de Martim Tirado)
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Dom Baldo de Martim Tirado e o seu palácio de uma torre - Capítulo XVIII
A noite ia adiantada. Traçámos os planos de busca dos
salteadores de acordo com as informações recolhidas, os presságios da lua cheia, e os
poderes misteriosos do meu cavalo. Seguiríamos pelo caminho da Floresta do Palão. Porém,
para evitar que as pessoas da povoação soubessem para onde íamos, tomámos inicialmente
o caminho de regresso a Moncorvo. Só quando íamos longe e já ninguém nos podia ver
virámos na direcção da Floresta do Palão.
Seguimos por uns
atalhos pelo meio dos soutos. Ouvíamos o repetido piar das corujas, musica agoirenta que nos causava arrepios
de medo. Para prevenir a surpresa de qualquer confronto desembainhei a espada e o
Botelho por sua iniciativa empunhou a lança. A atmosfera agoirenta adensou-se. O
jumento zurrou e o cavalo relinchou. Ocorreu-me a ideia de que também ficaram com
medo, depois pareceu-me que comunicavam qualquer coisa com as corujas, mais tarde
pensei que animais sem asas não comunicavam com os que as tinham, que comentariam
entre si qualquer sinal que vinha da lua cheia e, por último, concluí que nada
sabia. Mais adiante lembrei-me de ter lido num livro que na antiguidade havia cavalos
alados. Se havia cavalos alados também havia jumentos alados, por uma questão de igualdade.
Sendo assim, os nossos animais poderiam comunicar com as corujas.
Continuámos a
caminhar em alerta máximo. O Botelho ia à frente sem dizer qualquer palavra. De vez em quando fazia exercícios com a
lança. Seriam para se treinar ou para libertar a sua ansiedade ou as duas coisas.
Os nossos animais de vez em quando paravam repentinamente, espirravam sem estarem constipados, arrebitavam as orelhas, olhavam para os lados e recuavam. Seria um sinal
de que nas redondezas havia qualquer coisa estranha e perigosa. Estávamos perto de
umas grutas da floresta do Palão. Ouvimos os gritos de um homem que pedia ajuda, e
dizia, além de outras coisas, que havia ali ladrões.
Ao sairmos de um
pinhal vimos o homem que pedia ajuda a fugir montado num cavalo e atrás dele iam também a cavalo dois supostos
bandidos. O Botelho, que ia adiantado, mal viu os salteadores investiu na sua direcção
com a lança em posição de os atingir. Imprevistamente o jumento transformou-se em animal
alado e passou a correr ou a voar a grande velocidade e com grande ruído.
Fiquei com receio de
que o Botelho os trespassasse com a lança. Tivemos sorte porque os supostos bandidos, ao verem a sua vida em risco,
deitaram-se abaixo dos cavalos e logo iniciaram a fuga. De nada lhes valeu.
Cercados por nós e pela pessoa que anteriormente estava a ser perseguida, renderam-se.
Traziam à cinta, cada um, um punhal de lâmina comprida, tendo sido logo desarmados e
acorrentados.
Seguidamente o
Botelho foi buscar os cavalos que eles traziam, um deles com alforges. Perguntámos-lhes se os cavalos eram seus. Responderam
que sim. Logo o perseguido afirmou que conhecia bem o cavalo dos alforges
e que pertencia ao Fidalgo Baldo. Um deles respondeu que o tinham encontrado
abandonado e enquanto não o reclamassem pertencia-lhes, segundo as leis do Reino.
Revistados os alforges ali encontrámos ouro que pertenceria a uma Santa e uma salva
em prata onde estava escrito: “oferta do povo de Lagoaça ao seu pároco na
comemoração dos seus vinte e cinco anos de sacerdócio".
Um dos salteadores
era alto e tinha a roupa rota. No chão estava um chapéu roto e um tapolho. Perguntámos-lhes se aqueles objectos eram
seus. Responderam que não e viam muito bem.
Entretanto nasceu o
sol. Olhei para o jumento e pude verificar que não tinha asas, não havia nenhumas caídas no chão e estava calmo. Então
pus-me a pensar: terei visto na realidade o jumento com asas ou terei pensado que as
tinha só porque era muito rápido? Não tinha dúvidas de que vi o jumento com asas. O
mesmo foi-me confirmado pelo Botelho, acrescentando que as mesmas desapareceram
quando desapareceu o luar da lua cheia. Não havia conhecimento de que os jumentos se
transformavam em animais alados com o luar da lua cheia. Haveria outras explicações.
Naquela noite tinha dado água ao jumento da que recolhi com um cântaro na fonte da
moura, para curar o seu reumatismo. É provável que tivesse virtudes mágicas para o
transformar em animal alado, por si, ou com a ajuda dos poderes da lua cheia.
Poderia também ter acontecido que uma ave se tenha espojado num cruzamento de caminhos e
que no mesmo sítio se tenha espojado depois o jumento. Se tal aconteceu estava
aberta a possibilidade de o jumento se transformar em animal alado durante o luar da lua
cheia.
Estávamos prontos
para partir quando um pastor de ovelhas se aproximou de nós. Começou por saudar-nos. Depois contou-nos que aquele sítio
era muito respeitado, porque nas grutas que estavam à nossa frente moravam os
espíritos de uns famosos artistas que há milhares de anos ali viveram.
Foram esses artistas
que gravaram animais num rochedo na margem direita do rio Douro, perto da povoação de Mazouco. Algumas dessas gravuras
estavam danificadas, restando intacta apenas a de um cavalo.
Havia pessoas que
diziam que entre as gravuras danificadas estava um jumento alado e outras afirmavam que não é um jumento, mas um cavalo
alado.
Regressámos à Quinta
de Dom Baldo, a quem entregámos o seu cavalo, depois de o reconhecer. Era o cavalo que lhe tinham roubado em Vale de
Ferreiros.
Comemos dos restos
que ficaram do casamento e depois iniciámos o regresso a Torre de Moncorvo.
Com a valentia e
grande coragem demonstrados neste caso, o Botelho poderia ver cumprido o seu grande desejo de ser comandante ou governador.
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