Mostrar mensagens com a etiqueta amendoeira seca. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta amendoeira seca. Mostrar todas as mensagens

Trigésimo dia - amêndoa

dia-a-dia: mais um nível


Ontem fiz parte da viagem inebriado com um estranho cheiro a mel. Ou a mel ou a favos ou a uma flor que dá aroma ao mel. Também a lua me acompanhou, se não lua cheia pouco faltou, de início a pairar resvés sobre os montes, ao virar a sul, depois de Mirandela, já solta de tudo o que de terreno lhe podia sobrar, sorria-me do meio do céu, em esplendor total. É muito linda a lua em Trás-os-Montes.

Fiz um dos primeiros troços do IP4 convertido em A4 já aberto ao público. Continuo a ser contra esta autoestrada em sítio onde pouca gente viaja (e ainda mais quando penso no engodo financeiro utilizado para a construir), mas o facto de se construir uma via de tão grande capacidade numa região onde, segundo dizem os seus detratores, já não há população que justifique caminho-de-ferro, não deixa de ser paradoxal.

Voltei à obra depois de uma semana sem obra. Insisti que se as pedras das portas não vinham se devia avançar para outras partes, e já que se falou na forra da viga-lintel ela devia avançar. Os homens já ontem tinham lá estado e apenas forravam a viga-lintel com dez centímetros de pedra. Chegou o desmancha-prazeres que lá lhes disse que tinham de ser vinte os centímetros, de modo a tudo bater certo. Pela primeira vez pediram-me provas do que eu dizia. Um desenho. Disse-lhes que tinha desenhado tudo no computador. Ao ver que isto não era suficiente prometi-lhes um desenho feito à pata, despachado no carro em cinco minutos. O senhor António acalmou com a evidência da geometria mas o Paulo manteve a incerteza, sempre dizendo que faziam o que eu queria mas eu tinha de ter a certeza. Confrontei-o com mais umas verdades sobre a obra, o processo e as minhas decisões e lá se acalmaram todos. E tudo seguiu como planeado.

De pedido em pedido lá me vi sob as amendoeiras com um fardo (rede), uma vara de freixo e uma enorme vontade de apanhar amêndoas. O Hugo perguntou-me se eu ia varejar e logo a seguir surgiu para me ajudar. Como ele era entendido na arte deixei-o opinar, e a meio da tarde (antes de os homens irem embora) já tinha dominado a arte da apanha da amêndoa. Com uns cordéis atávamos o fardo às árvores circundantes (onde as havia - aqui percebi uma das vantagens de ter o compasso entre as árvores sem intervalos) ou às pedras dos muros e conseguíamos que as amêndoas não deslizassem monte abaixo. Depois era enfiá-las nas caixas que a Clementina nos emprestava e levar as caixas de volta à procedência.

o fardo do Amílcar e a minha amendoeira

a vara do Amílcar e a pobre da amendoeira

amêndoas por descascar

amêndoas prestes a descascar

Como não me imagino a mim nem a ninguém que conheça com paciência para partir a casca da amêndoa, doei a minha amêndoa à Clementina (um erro, foi o Amílcar que me emprestou o fardo e a vara). Ainda mal percebendo o que se fazia com as amêndoas, encontrei o Zé Manel ao início da manhã a manejar uma máquina elétrica que separava toda a folha das amêndoas e arrancava grande parte da sua pele. Convencido que a máquina era única na aldeia, ainda pensei em levar ao Zé Manel as minhas amêndoas, até que percebi que o Luís também tinha a sua máquina, e o trabalho consistia apenas em separar as 'secas' de entre as amêndoas que já tinham ido à máquina. Na casa do lado o Amílcar ocupava-se a descascar a pele exterior das amêndoas ele mesmo, apesar do vizinho ter uma máquina que lhe pouparia imenso trabalho. Coisas de aldeia, que ainda não percebo bem.

A estrutura que aparece na foto de baixo é uma passeira, que (neste caso) serve para passar figos. O processo ainda implica escaldamentos e açúcar em pó. Quando puder publico aqui a receita.

uma passeira em ação

Tentei dar banho à Fidalga. Conselho do médico, antisséptico na proporção de 1/10 na água, etc. A minha dúvida era se conseguiria prender uma cadela que tem pouco ou nada de domesticada e que tem óbvios traumas do passado. Prendi um cordel em volta dupla a uma pedra, ao qual prendi a trela que o Paulo me dera, à qual prendi a coleira da Fidalga. Tudo isto com algum planeamento anterior, trazendo a mangueira para perto, o medicamento, atraindo a cadela. No momento em que ela se percebeu presa entrou em pânico (já esperado), ganiu e ganiu e esperneou como se a estivessem a matar. Já eu avançava com o canivete para cortar o cordel quando ela quebrou o que a prendia com a força do seu desespero e fugiu para longe. Ainda atónito, tentei segui-la pelo pinhal, na esperança de recuperar a trela. Avancei um pouco mais do que o costume. Pelo caminho uma cobra, a maior que já vi, fugiu de mim para dentro de um tronco velho, muito mais assustada do que eu.

Vigésimo terceiro dia - ganhotos

dia-a-dia: é uma casa trasmontana com certeza

Chega às duas e acaba a capacidade de trabalho. Consegui desfazer um monte de lenha da gingeira e da amendoeira seca (hoje cortei-lhe os ramos - quando comprar a motosserra corto-lhe o tronco) e desisti de trabalhar mais. Ainda tentei um ou outro empreendimento. Em vão. As forças já eram.

as exéquias para o funeral

O dia começou com o típico momento National Geographic (infelizmente, sem David Attenborough). Parei o carro, ainda um pouco ensonado, para deixar passar a família Galaró (uma garbosa perdiz seguida de nove ou dez perdigotos). O caos instalou-se. A perdiz numa berma, a confrontar-me, e os perdigotos, um a um, a desaparecerem num arbusto à esquerda. Também à esquerda, um pouco mais perto do carro, uma cobra saltou. Em pânico, pensei eu na altura. A abocanhar meia dúzia de perdigotos, sei-o agora.

A Fidalga recebeu novo carregamento de comida. A anterior já tinha acabado e não sei quanto tempo esteve ela sem comer. A primeira gamela foi num piscar de olhos. À hora do almoço, como boa cadela que é, fez-me companhia enquanto eu comia.

a minha cadela

Percebi finalmente o que são os ganhotos. Os pedreiros chamam-no a tudo o que não é xisto, normalmente pedras maiores de mais perfeitas, como as de quartzo.

Não sei se é sol de pouca dura mas consegui finalmente uma confirmação mais definitiva dos pedreiros de que tentariam usar as pedras originais na reconstrução da porta. Já antes, por mais de uma vez, me confirmaram que sim, era possível reintroduzir as pedras, que era questão de encontrá-las, etc. Hoje voltaram com outra lenga-lenga: que era muito complicado, que faltavam pedras, que a ombreira não tinha altura, que lhe faltava a esquina para o encaixe da porta, que a soleira era muito larga para o espaço disponível. Fui ver. A soleira era, de facto, muito larga - 2 metros para um vão de 1,4 metros. Recorta-se com a rebarbadeira a parte interior e, senhor António, não ponha essa pedra aí. Essa mesmo. Não a ponha que fica a mais. A esquina para a a porta? Está aqui, esta é uma das ombreiras, está aqui por baixo a esquina. É muito baixa? Colocam-se estas ombreiras sobre a soleira e depois colocam-se pedras extra para acertar com os 2 metros. Sim, nem que se comprem as pedras. E, assim, resolveu-se a questão. Para já.

a soleira original da casa da tia Baldo

Há uns minutos a Fernanda largou a lide para, dizia ela, levar a 'Sagrada Família' à vizinha. Ó vizinha, tenho aqui a santinha! A tradição dita que todos os dias a 'santinha' migre para a casa seguinte, como uma devoção em movimento. A sorte da Fernanda é morar rodeada de casas. A vizinha da última casa tem de levar a 'santinha' até à Portela. O que para uma velhota, durante o verão, não é caminhada fácil.

as malfadadas larechas

Vigésimo segundo dia - 605 forte

dia-a-dia: uma pedra por dia

Passei a manhã e o início da tarde perdido nas burocracias da obra, entre Moncorvo e Freixo.

Voltado às Quintas, e com a roupa da cidade, insisti em arrumações. A madeira empilhada junto ao contentor (vinda da escombreira da casa da tia Baldo) tem de levar destino, e comecei a carregá-las para um telheiro construído pelo meu avô. (Re)descobri, no monte de tábuas indistintas, umas tábuas pintadas e decoradas, e separei-as. Parece renda em forma de madeira.

A seguir desci com a Fernanda e o Zé Manel à horta. Trouxemos batata e cebola. Vê-se logo que a horta é tua. Então porquê? Porque és o único a plantar girassóis no meio da horta, gracejava a Fernanda para o Zé Manel. A alegria com que ela encontrou as batatas vai-me ficar para sempre. Ai que ricas batatas! Para além de batatas, girassol e cebola, têm também grão-de-bico, tomate, morangos, couve e mais de quantas coisas.

recorde do guinness

Voltávamos para cima com o trator cheio de batatas quando me falaram duma amendoeira seca. Pobre coitada, seca no meio de amendoeiras tão verdejantes. Já prometi a mim próprio cortá-la quando chegar a altura das podas. Planto lá uma cerejeira. Fernanda e Zé Manel dizem que sim.

o amor e um trator

Mais à frente, outra visão insólita: dois velhos de volta de uma dourada, sobre um muro molhado. O molhado era de herbicida, que em vão tentavam entranhar na dourada. A dourada, essa, era para aliciar uma raposa, que lhes andava a rapinocar (!) as frangas. Ainda discutiram por uns momentos da pena de não terem 605 forte, que isso é que era.

o cenário do crime

E eu a pensar na pobre da raposa. O Zé Manel, à noite, confidenciou-me que isso da natureza estava muito bem, mas era dos coelhos e perdizes. Agora lobos e raposa é que não, para que é que os andam a largar? Outra vez a ideia dos fiscais dos parques que andam a largar lobos e o que for. Disse-lhe que isso nunca tinha acontecido e percebi que lho havia dito o mesmo antes. Talvez mais do que uma vez.