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Décimo sétimo dia - a primeira visita

dia-a-dia: está a ganhar cor a coisa

Convidei o Quim, o meu anfitrião na Macieirinha, para vir ver a casa. Ficou espantado com a parede de pedra, até eu fiquei, um primeiro pedaço de parede à minha medida, depois da desilusão da semana anterior. Fruto de eu ser um chato com os homens e da arte do Paulo, que vai procurando as pedras compridas e tenta estreitá-las com o martelo. Não é fácil Nuno, então tu não vês que para ter uma pedra de trinta e cinco centímetros é preciso partir e isto racha tudo? Já estás a ver o trabalho que dá, ó Nuno. Mas compensa. Menos pedras lisas, mais falheiras, mais pedras compridas.


uma parede a sério

Décimo segundo dia - cerejal de uma cerejeira só

dia-a-dia: começa a haver casa

Hoje foi dia de almoço em Mazouco, de promessas de visitas a vinhas, de sacos e caixas cheios de laranjas e de uma garrafa de bagaço. Feito obviamente com bagaço, mas com algum vinho também, quando há. Bagaço de vinho com benefício. Eh lá.

Antes do almoço, mais uma vez a Clementina, voz sã em terra de anafados vocálicos, mostrou-me o 'cerejal' escondido atrás da casa velha, a da capela (capela, por Martim Tirado, é um forno). O 'cerejal' era uma cerejeira apenas, brava, a precisar de enxertia, nascida longe o suficiente da parede para não o desmanchar quando crescer e perto o suficiente para não ter sido levada por algum trator. Tratamos de limpar as redondezas e tapar tudo à volta com uma camada generosa de terra, não vá a cerejeira ser mal agradecida e, prontos, morrer.

Depois do Poio (ainda as pedras por cortar, vi apenas uma ombreira, de um total de 27 peças), voltei pela Pesqueira. Deixo a foto falar por si.

a vinha na Pesqueira

A Amélia, no Mazouco, mostrou-me uma árvore (cerejeira) constantemente ratada por todo o bicho do ar. Pendurou-lhe plásticos e todo o tipo de coisas reluzentes. E uma cobra. Como tudo o resto não funcionava comprou uma cobra de borracha e pendurou-a (os pássaros continuam a dar-lhe - e a Amélia continua a achar que a cobra foi uma boa ideia). Oh, um pássaro olha para ali e vê que a cobra está morta. Assim, esticada. Não, não, não acha. Ai não?

Hugo, Paulo e Sô António

Quarto dia - podas

dia-a-dia: chuva, tudo em casa a dormir

Ontem a sogra do Joaquim veio ver como estava a casa e encontrou-me a meio do pequeno-almoço. Sapiente das coisas da vida, achou uma tristeza o facto de (ainda) não ser casado. Então, arranja uma moça guapa, jeitosa, fiel e rica. Nem a minha observação de que eram quatro características muito exigentes a demoveu, se arranjar moça com duas características dessas já é bom, nada disso, guapa, jeitosa, fiel e rica. Chiça. Agora percebo por que tantos portugueses acabam solteiros.

Hoje veio dizer-me que lá em Martim Tirado é que estava mal fazer a obra, havia de ser cá na Macieirinha. Aquilo lá está tudo a morrer.

Terceiro dia - o cimento

dia-a-dia: com a chegada do cimento, todos rejubilam

o Carlos descarregando a palete, contendo a excitação

confirma-se: a chegada do cimento deixou todos em êxtase

isto é um macho, mistura de um equídeo com um asinino

para decorar o fim da publicação, a flor da amendoeira

Segundo dia - caboucos

dia-a-dia: fugiu a casa

Passei mal a noite. Cheguei tarde à obra, um tanto depois das dez. Dois homens (Paulo e Carlos, vim a saber depois) limpavam os caboucos. Um com a enxada, mais ativo, o outro com a pá, só intervindo quando surgia uma pedra maior. Um deles (Paulo) lá se ia queixando que aquilo com a máquina é que era. Assim demoramos o dobro do tempo, tá-me a perceber? Ao fim do dia já me dizia que despacharam, só eles, o serviço. Falava-me garboso, que o patrão queria só metade mas eles fizeram tudo. Tirando um canto, refém da água da chuva acumulada.

Antes do almoço encontrei-me com o empreiteiro e com o carpinteiro, o Bruno. Dois mundos opostos. Um, ininteligível, fechado. Conduz um Audi. Mora numa casa virada para as arribas, onde planeia construir uma piscina. O outro é novo, simpático, acessível. De trato fácil. Gosto dele. Só não usamos madeira de castanheiro cortada por ele porque a seca é de pelo menos um ano. Dois verões, dois verões com um inverno. Até se arranja, isso logo se vê.

A tarde passei-a a tirar peças de roupa com o calor e a tentar achar jeito num monte de entulho. Passadas as quatro da tarde consegui soltar um olmo cortado e achar a moldura da porta da casa. Peças gigantes. Uma parece a soleira, pelo desgaste. Outra uma ombreira. Notei pela face trabalhada e pelos líquenes.

Achei pedras lindas. Tentei pôr os seixos de quartzo separados dos outros, enquanto imaginava uma casa feita só de quartzo. Um pedaço de xisto escuro pareceu-me madeira. Um tronco de xisto. Noutra os líquenes eram laranjas. Achei também uma das pedras que encimavam a lareira. Estava queimada num dos cantos.

Ao fim da tarde, com os homens já longe, lembrei-me da roseira a podar a pedido do meu pai. Como a tesoura e a serra do Luís podei uma vide e duas figueiras. Só parei quando o Luís me avisou que o tempo já tinha passado. A roseira já tinha folha, já não era o tempo também.

o Luís chegou com as giestas

O Zé Manel e a Fernanda (a minha futura cozinheira) convidaram-me para jantar. Gosto muito deles. Quando os achei estava o Zé Manel a ordenhar as cabras, e antes de sair fotografei a Fernanda a fazer o queijo. Não fossem os cabritos a mamar e dava para fazer três queijos.

fabrico de queijo 1: espremer

fabrico de queijo 2: encher

fabrico de queijo 3: comer

Liguei o aquecedor a gás para não morrer de frio na cama. A ver se durmo melhor.

Primeiro dia - demolições

dia-a-dia: demolições

Cheguei às onze, duas horas depois do combinado. Ainda agora, já de noite, não consigo entender bem o que senti quando cheguei, nem tão pouco o que sinto agora. O património existente acabou. O castiço, o dramaticamente belo, fazem parte do passado. A cada momento relembro mais uma parte que cedeu sob o peso da pá da retroescavadora. O menir junto à porta, lembro agora. As pedras sobre a lareira. As toiças e as ombreiras, algures sob a escombreira. Apenas a laje da lareira, à qual sempre liguei pouco, sobrou como marco do que existiu.

Algures atrás do monte de escombros descobri também uma fímbria de luz. Não é trágico, isto. O projeto avança desde dois mil e quatro. São sete anos de progresso lento, numa vida de arquiteto sem obra feita. De repente, uma escombreira sem forma nem beleza aparente transformou-se num bolo num forno. Sem forma nem beleza, mas a acontecer.