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Centésimo vigésimo primeiro dia - gato-bravo

Acordei tarde e logo segui para Freixo. Precisava de comprar mercearias e uma máquina de lavar roupa para a casa. Aproveitei para consultar o email no sempre agradável Café Xangai e para falar com o carpinteiro. Era dia de feira, estava Freixo cheio de gente como nunca vi.

Voltei para continuar o chão. A verdade é que o trabalho solitário, as dores e o calor deitam qualquer um abaixo, mas quando se conclui que o trabalho não corre bem, o intelecto reage ainda pior, e vamo-nos abaixo. Foi o caso dontem, ao notar que parte do trabalho anterior não tinha corrido bem e que, mesmo sabendo disso, não conseguia dar a volta e fazer bem.

a sala

Tudo mudou hoje. Para além ter passado a ter todo cuidado do mundo com a água que uso para molhar o barro antes de aplicar a segunda camada, passei a aplicar o barro extremamente molhado (quem me ensinou falou-me em 'goma', e acho que o termo é correto). Assim, o remate final com a palustra é um ligeiro afagar duma 'goma' molhada. A palustra desliza como uma prancha de surf sobre uma onda.

a sala

E nota-se no resultado. Como a camada final é aplicada quase líquida, a água faz com que não sobrem espaços entre as areias e o barro, o que dá origem a uma superfície homogénea.

a sala

A Clementina deu-me a provar o doce (compota) de tomate acabada de fazer. Espalhei-a, ainda quente, sobre uma fatia de pão. Os turistas hão de fazer filinha, tia Clementina.

Ainda agora, seguia-me o Trovão a caminho da escola quando o vejo a largar encosta acima. Logo atrás dele seguiu a Fidalga. Seguiam atrás de um gato pardo, gordo e de cauda espessa. A perseguição continuou pelos pinhais, com cães de todo o lado a juntarem-se à festa. Ou é de mim ou era um gato-bravo.

Centésimo décimo sexto dia - barro

Como na semana passada, saí do Porto pelas nove. Não havendo gente na obra e mantendo-se o cansaço, não há pressa de voltar.


Pus-me na obra pouco depois das três. Depois de um rápido telefonema inquiridor, voltei à carga no barro. O quadradinho que deixei feito sábado passado soava a oco. O erro foi não ter molhado o saibro antes de aplicar o barro. Comecei no canto da sala, junto à salamandra. De início usei a misturadora emprestada para juntar o barro com a água num balde, mas logo a mandei às urtigas e voltei à fiel enxada, que combinada com um carrinho fazem de qualquer sonso um mestre das argamassas.

começando o barro

O segredo está em garantir a ligação entre as várias camadas. Deixar lanhos, que serão ocupados pela camada seguinte. E garantir a humidade. 'A água é o prego do cimento', já dizia o outro.

começando o barro

Demorei a arrancar mas agora corre tudo asinha. Deixei alguns retângulos com a primeira camada de barro para amanhã experimentar a camada final. Crivei um pouco e funciona, as areias maiores e a palha ficam pelo caminho.

embarro emcrivado

embarro emcrivado

Dois abelharucos namoram por cima da casa, enchendo o ar de trinados impossíveis.