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Nonagésimo segundo dia - fungicida


Passei o dia inteiro a olhar para os carpinteiros a trabalhar e meio dia a tentar corrigir um erro que vinha de trás. Habituado a pensar com o Autocad e uma calculadora à frente, a ausência destes e a presença dos carpinteiros desligou-me o cérebro. Só mais tarde, em recolhimento (e com o telemóvel a servir de calculadora), lá dei a volta à coisa. O essencial das réguas de vinte centímetros ficou feito.

o Carlos planeia. Nem todos o fazem
(foto)

O pulverizador do tio Aníbal voltou à vida! Com fita preta a vedar uma fuga no tubo (não resultou), já com a mistura feita (5 litros de água com menos de uma colher de sopa de calda bordalesa - sapec, 20% de sulfato de cobre), pulverizei as parreiras e os pessegueiros. E, já que estava com a mão na massa, os olmos. Se o que os mata é um fungo, nada melhor do que um fungicida.

O Zé Manel, sorridente, trouxe-me um pingente à mão. A mulher diz que é São Cristóvão. É consensual que  é antigo. Os especialistas o dirão.

pingente achado na ribeira
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Octogésimo segundo dia - crivando


Trouxe comigo a motosserra. Ontem tinha cortado, com a serra de cabo comprido, algum ramos secos dos olmos, e achei que hoje era o dia em que cortava os olmos mortos pela malina. Ao fim de algumas peripécias (falta de gasolina e óleo, motosserra engasgada) tinha dois olmos tombados sobre o caminho. Ia para desmontar as árvores quando achei que era altura de apertar a corrente. Quando desisti tinha meia motosserra desmontada. E duas árvores tombadas sobre o caminho. Sem a motosserra, peguei na serra de podas e desmanchei a árvore à pata. 

Como algumas das lousas se soltaram, segui o conselho do empreiteiro e comecei a encher as juntas com terra. Encontrei um crivo deixado pela minha avó na casa do avô velhinho (o meu bisavô). Enchi um balde com terra, crivei-a e pu-la sobre as juntas. Reguei tudo e repeti a dose. A Clementina, sempre previdente, veio repetir-me que a chuva ia levar tudo, se eu queria tinha era de pôr barro.

crivando
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uma primeira achega
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Andava eu nestes preparos e chegou o carpinteiro. Pela primeira vez, alguém que diz que o pavimento talvez fique bonito. Falámos de revestimentos, de métricas e de ripados, do parvo do arquiteto e as suas medidas irreais. Já o Bruno ia de saída e chamou-me. Então a motosserra? Homem santo, o Bruno. Curou-me a motosserra e aliviou-me a alma.

Septuagésimo sétimo dia - Couços

A tarde apertava. Fiz a borda de dentro do caminho, de seguida a borda de fora. Tinha acabado de desistir, de deixar tudo para o dia seguinte, chegando mais pedras para escolher, quando sinto um trator a passar. Para baixo só o Zé Manel, a cuidar da sua horta. Era mesmo. Levava o pai de pendura no arado. Ainda corri a chamá-lo mas não me ouviu. Encontrei-o no fundo do vale, numa horta que não a dele. Enquanto o pai tirava as pedras para um canto o Zé Manel vai arando com o trator. O sítio, se bem que inóspito no verão, tem água a correr. Na fonte à minha frente (Couços) estão duas rãs no bem-bom.

na horta
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Estamos agora na horta do Zé Manel (Olmo). Ele atarefa-se a fazer molhos com os espigos das nabiças, cortados com uma foicinha; eu fotografo bichos em flores e como morangos. Não sei se é do bucólico do lugar mas nunca me souberam tão bem.

na horta
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Vi o Zé Manel e o pai a plantar rebentos de cebola e logo me voluntariei para ajudar. O Zé Manel, qual super-homem da horticultura, planta e tapa à velocidade da luz. Quem começou nisto aos oito anos nem pensa no que está a fazer. Aliás, se parar para pensar fica-se confundido e já não sabe o que se está a fazer.

Algumas voltas ao motor e lá brota a água. Logo o Zé Manel, munido da sua enxada, abria sulco atrás de sulco, que se iam inundado. Ainda a água não tinha atingido o fim do sulco já ele o tapava e abria logo novo sulco. Sempre à velocidade da luz. Uma máquina. Se eu tivesse tempo. O meu pai, se fosse preciso, ficava aí a manhã toda a plantar as cebolas.

na horta
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Durante o dia voltámos ao lajeado. Os eletricistas e o empreiteiro e o Hugo estavam lá desde a manhã, mas os do pladur não. Telefonei ao patrão deles. Mais uma altercaçãozinha ao telefone e passado umas horas lá estavam eles. Era suposto, já que tinham de trabalhar em conjunto com os eletricistas. Haja paz na aldeia.

lajeado - 2 de 3
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