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Centésimo vigésimo dia - chichi de obra


Hoje foi um bom dia de trabalho. Tirando o início da manhã, em que acompanhei o picheleiro no conserto da fuga, trabalhei seguidinho. Acabei a primeira camada de barro na sala e, ao fim da tarde, recomecei a segunda camada. Os processos vão simplificando-se à medida que os dias correm, mas a segunda camada continua a ser a mais custosa e demorada. O meu braço direito só aguenta o esforço à custa de muito voltaren. A ver quanto mais tempo duro.

O chão avança, se bem que com algumas dúvidas. Parte dos retângulos que enchi na semana passada ganharam um tom pardo. Quando se olha com mais pormenor vê-se que há áreas em que uma das argilas, de tom mais amarelado, se sobrepõe ao barro vermelho e quebra a homogeneidade. Mudei algumas coisas no processo, a ver se consigo evitar isto.

a sala

Hoje fiz o meu primeiro chichi de obra. Felizmente havia sanita.

A Clementina voltou a ter televisão (malfadada tdt). O país arde.

Centésimo décimo nono dia - caranguejo

Começo a duvidar seriamente das capacidades do picheleiro. Pedi-lhe para tratar da fuga durante o fim de semana. Veio ontem. Quando cheguei à obra, hoje, depois do almoço, liguei a água para testar a eficácia do conserto. Percebi na hora que o problema estava por resolver - a rodinha do contador girava e o saibro logo voltou a encharcar-se. Aproveitei a presença dos eletricistas e pedi-lhes para soltarem a tomada embutida, para que se pudesse levantar a tábua que tapava o furo. O interior da tomada estava encharcada, assim como todo o espaço sob a tábua. Mexi na maralhada de tubos e percebi que era ali o problema. De tanto se mexer nos tubos da água (é das zonas da casa com mais confusão de tubos e canudos), uma das ligações soltou-se, e daí fugia a água.


malfadado furo

Pela minha parte, de volta ao chão. Ainda não consegui alguém que trabalhe à geira e possa ajudar-me. A casa já está ligada à rede elétrica. Quando cheguei, o Amílcar, não sei se da leitura dos jornais, questionava-se se existirá solução para os problemas do país. Não será concerteza com a austeridade da troica, assevera. Encontrei o Luís e a Clementina à entrada de Martim Tirado. Vinham da feira de Mogadouro.

os elétricos em operação
Ao limpar os cacos da tragédia da outra semana surgiu-me isto:

não fujas aranhinha

Costeiro que sou, pensei que fosse um caranguejo.

Centésimo décimo oitavo dia - infiltração

O picheleiro voltou de manhã para acabar o serviço. A bomba de calor ficou presa à parede, igual para os lavatórios. Falei-lhe do episódio do tubo de gás, e do meu medo de igual azares para os tubos da água e da luz. Tentou tranquilizar-me apontando para o contador: se a água está a correr vê-se a bolinha a girar. Olhei com algum cuidado. Nada parecia mexer-se.

Durante o dia continuei a trabalhar na sala. O processo é muito lento e cansativo, e estou sempre a sentar-me e a levantar-me, seja para mudar de caixa seja para ir buscar mais barro. Com o barro húmido é mais fácil um bom acabamento, se bem que o espalhar do barro na caixa, antes de usar a palustra, é mais complicado.

começando o barro

Ao fim da tarde surgiu a notícia previsível. Duas caixas de saibro estavam molhadas, sinal de fuga de água. Ainda pensei teria sido um problema semelhante ao do gás mas logo concluí que a água vinha da ligação ao autoclismo, que infiltrou água na parede, e dá para o chão. Cortei a água, telefonei ao picheleiro e fiquei a rezar para que seja só isso.

*!?

Ao ver os abelharucos pelo ar a tia Alcina chamou-os pelo nome verdadeiro: pitas-barranqueiras. Diz que quando se vêm no ar, lá no alto, que se sabe que aí vem vento.

Centésimo décimo sétimo dia - Púlpado

Dia agitado. O picheleiro levou o dia a montar sanitários. Volta amanhã para acabar. Eu passei a manhã às voltas entre Freixo e Moncorvo. Os homens da Câmara ligaram o ramal da água e o contador pouco depois do almoço. A casa já tem água, mas não tive coragem de a ligar. Amanhã testa-se.


sanitários

Deixei de ontem para hoje alguns retângulos com a primeira camada de barro a secar. Crivei algum barro e comecei a segunda camada, tendo o cuidado de molhar o barro que já estava colocado antes, que de ontem para hoje secou demais. A técnica, que consiste em aplicar o barro bem húmido e afagá-lo com uma palustra é demorado e intrincado. Neste momento sinto que não vou ter tempo de acabar o chão a tempo e horas sozinho, mas logo se vê.

começando o barro

Na semana passada vi o Amílcar a ler a Bola. Então tio Amílcar, não sabia que gostava de futebol. Olhe que é coisa a que não ligo nadinha. O Amílcar lia a Bola porque não tinha mais nada para ler. O genro, esse sim leitor assíduo, fazia questão de comprar o jornal todos os dias, e eram os jornais comprados durante a estadia do genro que o Amílcar ia lendo. Nem pensei duas vezes. Os jornais que vou lendo ou ficam no metro ou vão parar à reciclagem. Passei a deixá-los ao Amílcar, e dá gosto vê-lo a ele e à Clementina, de óculos postos, a virar cada página com tempo e atenção.

Passadas as sete, deixei o trabalho para trás e fui dar a habitual volta ao Púlpado com a Fidalga e o seu bravo escudeiro, o Trovão. Levei a máquina, antecipando os contrastes que o pôr do sol traria. Comi tantas amoras que nem quis jantar.

a caminho do Púlpado

O vento bule na copa dos pinheiros. Já se sente o frio.

Nonagésimo sétimo dia - cadelo


De pé às seis e meia; na obra às sete e meia; vinte minutos depois chega o empreiteiro. Amanhã fazemos o chão, anunciei em tom triunfante ao empreiteiro. O chão das casas de banho, isto é. Chão de cimento revestido a tinta de piscinas. Algumas camadas, é tudo. Ronda de explicações. Uma quezília. Eu explico o que quero aos carpinteiros e eles arranjam maneira de o fazer. É assim que se faz. Bô bô bô. Tu pedes muito, isto não é assim como tu dizes, ó Nuno. Ó senhor Manuel, cada um sabe da sua arte. Eu digo ao carpinteiro e ele faz como eu quero. Eu não sou pedreiro, eu não sei como se faz. Digo-lhe o que quero e você arranja uma maneira. É assim ou não é?

o duche a ganhar forma
(foto)

Afinal, é. Tudo se resolveu. Não sabia como fazer o chão com o ralo e o sifão embutidos. Isto depois de, na semana passada, lhe ter mostrado os ralos e os sifões. Chamou-se o picheleiro. Para a vinda não ser em vão, arranjei-lhe mais tarefas. Tapar com grelhas os buracos da ventilação, mudar o tubo do saneamento da máquina de lavar a roupa, instalar a caixa do contador. Como nenhum dos fornecedores me arranjou uma caixa metálica, tivemos de optar por uma convencional, de plástico. Na última versão do plano, a caixa ficava embutida na parede, coisa que sempre odiei, e que ainda para mais implicava pedra partida e trabalhos extra. Imerso na dúvida, coloquei a caixa encostada à parede. Com um jeito de caixa do correio, coisa que nunca envergonhou nenhum muro. Com a ajuda de spray preto, pintei a tampa e a caixa interior de preto e pedi ao picheleiro para a fixar à parede.

cucu! sou uma caixa.
 (foto)

cucu! desapareci.
(foto)

Tudo isto com um calor que já se sentia às nove da manhã e só amainou depois do jantar.

As minhas noites na Macieirinha têm sido acompanhadas pelo deambular constante de uma coruja. Para os mais pacientes ela deixa-se ver, pousada nos postes de eletricidade a chamar pela fêmea (ou vice-versa). Gosto dela. É minha amiga.

Diz-me a senhora ao meu lado, eles moram sozinhos lá em cima, só com o gado e os cadelos. Quando uso palavras que aprendo na Galiza, é porque sou maluquinho. Ora eu uso-as exatamente por saber que, mais cedo ou mais tarde, as encontro em Portugal.

Octogésimo sexto dia - molhada

Picheleiro, montadores de pladur e carpinteiros. Seis pessoas na obra. Não é recorde mas pouco faltará. Os do pladur fecharam tudo o que fosse parede e teto, para a semana começar o amassamento; o picheleiro veio desviar tubos de ventilação e abrir um buraco para o extrator (da cozinha, do sistema de climatização passivo); os carpinteiros vieram ripar o pladur, o que antecede a colocação das réguas de mdf folheado. Muita confusão, alguma tragédia (reparar, assim de repente, que as clabóias da casa de banho de cima estão totalmente descentradas e nem sequer estão certas uma pela outra), alguma paz de espírito por ver a obra a avançar e os prazos a cumprirem-se.

o ripanço
(foto)

clarabóia fora do sítio
(foto)

Sexagésimo sexto dia - diploma


Voltei ao comboio. Não sei se graças à minha intervenção junto do sindicato dos maquinistas - mas espero que sim-, as sempiternas greves deixaram de afetar as ligações para o Pocinho. São apenas cinco por dia, a linha é terrivelmente deficitária (principalmente da Régua para cima) e as greves duram meses, com vários dias seguidos sem ligações para o Pocinho. É fazer o trabalho da troika. E apelar ao uso do carro.

O senhor Gaspar, o picheleiro, passou o dia na obra, montando a rede de água quente e fria. A fria com tubos de plástico (ppc?), a quente em tubo de inox com manga de espuma, para reduzir as perdas. Foi também altura de corrigir erros de trás. Se bem que foi precipitação dos pedreiros o cimentarem o chão das casas de banho, as minhas indicações foram todas ao lado. Os tubos para os lavatórios tinham de andar dentro das paredes, o buraco na parede para a mangueira ficou num sítio inacessível, a marcação de uma das sanitas foi dez centímetros ao lado, as passagens sob o pavimento ou não foram feitas ou ficaram tapadas pelo pladur, etc. A minha sorte é que o homem é sereno e vai nas minhas loucuras.

corrigindo os erros do arquiteto
(foto)

No vaivém de entrada e saída da casa dos meus avós parei para ver uns papéis caídos no chão à frente da casa. A verdade é que paro por quase tudo (algum gene alentejano latente) mas aqueles papeluchos pareciam-me dizer-me algo. Eram os diplomas da primária do meu avô. Primeira para a segunda, segunda para a terceira, terceira para a quarta, e com notas cada vez melhores. As folhas deviam ter-se colado a algo que trouxe de dentro, e mais uns dias ao relento e a chuva lavaria tudo.

passou, está passado
(foto)

O hábil rapaz da loja de ferramentas, como que por artes mágicas, revirou a motosserra - encharcou, só pode ser isso - e pô-la a funcionar. Face às suas sábias palavras palavras percebi qual o meu erro, se bem que a descrição 'quando ela faz um barulho diferente, que parece que vai pegar, tem de mudar isto para o dois' não me convenceu. A descrição tem sentido, não sei é vou entender o que é o tal 'barulhinho'. A ver vamos.

Trigésimo nono dia - lista

dia-a-dia: a pedra vai assentando.

O tempo escasseia e os recados vão aumentando a cada dia, por isso faço questão de escrever uma listinha de assuntos pendentes, que faço questão de riscar, um a um, ao fim do dia. 

Comecei pelo Poio, logo de manhã. O empreiteiro falara-me das pedras para o exterior e fiquei de ir lá espreitar. Não as achei na primeira pedreira; não as achei na segunda; nem tentei na seguinte, era a pedreira de onde vieram as outras pedras e já sei do que a casa gasta. Assim, lajetas irregulares para o pavimento exterior, não sei onde as há. Passei em Moncorvo para perceber o que precisava para o prolongar da licença por mais seis meses, e fiquei com a ideia de que a burocracia é como uma planta que cresce cresce cresce sem parar, enquanto a alimentarmos.

Depois do almoço (almoço dos outros, que eu nem vê-lo), já em Freixo, sentei-me na carrinha do empreiteiro para mais uma carrada de formalidades. Como já é apanágio, enganei-me com outra fatura. Há que rever métodos. De seguida fui à loja do picheleiro, tratar de mais formalidades. Mais uma formalidade que não computa: as faturas saem diretamente do computador, sempre com IVA. De volta à estrada, passando pelo Louças para ver das tampas de saneamento.

Hoje tenho de

Chegado às Quintas, recomeçou o redemoinho. Tirar a foto com o tripé, cumprimentar todagente, explicar a ideia ao picheleiro, preparar o material para limpar mais amendoeiras, pedir merenda à Clementina, pedir pão à Alcina, medir as caixas, limpar umas amendoeirazinhas, antes que chegasse a noite. Como sempre, com o apoio logístico da Clementina.

O senhor Gaspar explica o redemoinho.

Ainda antes da nacional mas já fora do nevoeiro, deparo-me com isto. Não é por ser Natal. Mas é bonito.

Pinheirinho pinheirinho de ramos verdinhos (não é de Natal).


Vigésimo primeiro dia - Residência Baldo

dia-a-dia: acho que já vi isto antes

Uma das senhoras comentou o eclipse (e que é assustadoramente parecida com a minha avó, apesar da improvável falta de ligação familiar) disse-me que em tempos se referiam à Quinta dos Baldo como a 'Residência Baldo' e à casa dos meus avós como a 'Residência Fidalgo', referência ao nome de família da mãe do meu avô paterno. Adorei o 'Residência', pleno de urbanidade.

A Serra da Estrela tresmalhada, carregada de carraças e ainda mais magra do que da última vez que a vi, é já oficialmente minha. Encarreguei a Clementina de lhe dar a ração e o anticarraças pagos por mim. Falta arranjar-lhe um nome.

bicho sofre

A obra avança. O picheleiro corrigiu a posição da sanita e já se chumbaram os canos. Com medidas milimétricas, marquei no chão com o spray o posicionamento da cofragem do pavimento da casa de banho. A meio da tarde, em horror, percebi que a janela da sala estava um metro para a direita do que eu tinha desenhado. Erro meu, com certeza. A sorte é que das quatro janelas, era a única que ainda não tinha levado pedra por fora.


belos interiores

uma janela ao lado

À noite paguei o jantar aos pedreiros, uma tradição de Freixo da qual fui simpaticamente lembrado pelo Paulo. Em troca prometeram-me uma churrascada na obra.

Floram os castanheiros e está de pé o alho-porro. Venha o São João.


a preparação para o São João à moda do Porto


figueira do inferno

Décimo nono dia - larechas

dia-a-dia: pedra e mais pedra

Voltam as obrigações na obra. O empreiteiro passou por lá na semana passada e deixou os tubos presos ao pavimento, e tirando um tubo duma sanita que não ficou no sítio certo está tudo pronto para se fazer o enchimento do pavimento das casas de banho. Para a semana tenho de voltar para o fazer com os homens.

A parede acelerou - numa semana e pouco fecharam outro outão. Com a velocidade veio, inevitavelmente, a falta de critério. Como a pedra vem agora miraculosamente do palheiro demolido já há pedras grandes abundantes. Para grande pena minha tive outra vez de os repreender: mais pedra falheira, mais pedras compridas, menos pedras gigantes. Inventaram inclusive cunhos na vertical. Tanta pressa não sei para quê.

Ataquei as ginjas com a Mafalda. Colher um pouco, comer um pouco, podar mais um bocadinho. De cada ramo seco que cortávamos surgia mais um formigueiro. Quando se sentiam a descoberto, algumas das formigas corriam a esconder as larvas, enquanto que outras, mais bicho mau, corriam a atacar-me as mãos. A Clementina dizia que não eram formigas, eram larechas. Sei que eram inimigas das minhas mãos, e que cravavam os ferrões das suas cabeças vermelhas na minha pele e rabeavam, não sei se de gozo se de desespero.

Depois de vencermos as larechas e de colhermos todas as ginjas a Clementina perguntou-me se a outra gingeira também era minha. Na dúvida, colhemos o que pudemos.

ginjas daqui (gesto característico na orelha)

Décimo oitavo dia - o botelho

dia-a-dia: o Paulo e o Hugo e uma parede avançada

Levei o picheleiro à obra para marcar a localização dos tubos de esgoto para sanitas e afins. Eu abria as plantas, media entre as paredes e riscávamos o chão com giz. A certa altura ou ele ou eu reparámos que as nuvens que nos encimavam eram mesmo de chuva e pouco faltava para que a água levasse o giz. Cravámos tinta ao Luís (como sempre, homem santo) e pintámos sobre o giz. Umas horas passadas, depois duma chuvada de levantar as pedras da calçada, as marcas de tinta ainda lá estavam. Para a semana comprovo se ele percebeu o que lhe disse.

Entre uma coisa e outra passei por Freixo. A Maf e a Alice estavam a fazer uma reportagem sobre o ciclo da seda. Sobre como de uma caixa em que algumas borboletas fodiam e outras morriam e outras punham ovos e destes nasciam lagartas que comiam folhas de amoreira para ganhar coragem para fazer casulos na arçã para depois se matar o bicho e fazer seda do casulo. Tanta trabalheira para uma ou duas écharpes de resultado. Bah. As amoreiras, no entanto, são muito bonitas. Talvez as use para substituir os olmos que estão a morrer, pobres coitados.

uma amoreira, em Freixo

Ao voltar a Martim Tirado fui mostrar as cabrinhas do Zé Manel às meninas. Como já têm tamanho que chegue para comer e tamanho de mais para mamar (o que dá menos queijos para vender), o Zé Manel põe-lhes um botelho na boca, preso aos chifres, para que deixem de mamar para comer como os adultos. O que acontece por vezes é que são as próprias mães a ajudarem-nos a soltar-se do botelho, como aconteceu a uma cabrita que lá estava.

a mãe diz à filha, vai lá pra dentro lavar os dentes (foto da Maf)

Décimo sexto dia - cerejas a maturar

dia-a-dia: rabo não identificado

Dia sem assunto. O picheleiro ainda não respondeu, os pedreiros avançam, devagar. A mancha de parede feita na última semana tem menos pedras perfeitas e mais falheiras, mas ficaram a faltar as pedras compridas. Relembrei-o ao Paulo, que lá foi partindo algumas à minha vista para mostrar o quão difícil é parti-las para uma parede de apenas 35 centímetros. Prometeu-me que iam pôr mais. Disse-lhes que podiam usar a pedra do muro, que é para vir abaixo de qualquer maneira. Eles preferem desmontar primeiro o palheiro onde o meu avô acomodava os burros, já em parte caído.

a parte mais recente não me agrada

Trouxe dois sacos de cerejas, já carnudas e escuras, quase no ponto.

Décimo quinto dia - pedras falheiras

dia-a-dia: o Paulo e o sô António, que é à sombra que se está bem

Chegaram as pedras do Poio, luzentes e prontas a montar. Só com uma máquina, informa o Paulo. Ainda estou surpreendido com o difícil que é trabalhar o xisto e o intricado dos cortes que eles conseguiram fazer (o xisto racha por todos os lados, ao contrário do granito, que dá para 'ir picando'). Espero que ao pedreiro agradem as pedras e o seu encaixe, já que é tão difícil razoar com ele. Hoje, pela primeira vez, tive de lhe fazer peito. Dizia que se não pusesse as pedras facejadas não ficava bonito e as pessoas passavam e desdenhariam o trabalho de pedra. Garanti-lhe que não: ninguém que por cá passar vai deixar de elogiar a parede, agora você tem a sua arte e eu tenho a minha. Não o estou a criticar, senhor António, o seu trabalho está a sair espetacular, mas quero mais pedras falheiras, percebe? Mais tosco, como nas paredes antigas. Acho que não percebeu. No fim, já de cigarro na mão, parecia já dizer que sim, que concordava. Fiquei sem saber.

Falei também com o picheleiro, em Freixo. Eu explicava-lhe a rede de retorno de água quente e ele nem com a cabeça anuía. Abençoada mulher que percebia tudo.

Entrei na arrecadação onde o meu avô fazia o mel pela janela, à cata de ferramentas. Nada. Resgatei uma caixa de plástico da danone, as presilhas para fazer o queijo (uma era de madeira), uma vasilha de leite e um saco de couro da TAP. Nas andanças à procura da chave da arrecadação o Paulo mostrou-me uma andorinha, que aproveitou a porta aberta o dia inteiro para fazer lá dentro o ninho, sobre o contador. E lá andava, perdida, assustada, sem saber o que fazer connosco. E nós com ela.

E chegaram as primeiras cerejas do ano, pelas mãos sabidas do Guilherme. Todos de todas as casas me prometem mais, chegando a altura.

É terrivelmente fácil identificar uma amoreira. É ver onde o asfalto está tintado de roxo.

os olmos do meu avô, já moribundos

eu diria que a pedra não está nada mal