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Covando

Hoje cavámos covas, o Nuno Ribeiro e eu. Amanhã é dia de plantar. Se soubesse que cavar uma cova dava tanto trabalho não tinha comprado cinco árvores. Tinha comprado uma. Pequenina.

cavando covas
(foto do Nuno R, montagem do dermandar)

A terra está espídia, disse-nos o tio Amílcar. Difícil de trabalhar. Na verdade, dependia da cova. Em algumas covas, mais para baixo no terreno, a terra era muita e fácil de escavar; quanto mais para cima, menos terra e mais barro. Com a chuva, o barro empapa e forma enormes torrões, pesados e duros, o que torna o escavar um trabalho moroso e cansativo.

As árvores a plantar: três cerejeiras, uma ameixoeira, um pessegueiro e um diospireiro.

Centésimo vigésimo primeiro dia - gato-bravo

Acordei tarde e logo segui para Freixo. Precisava de comprar mercearias e uma máquina de lavar roupa para a casa. Aproveitei para consultar o email no sempre agradável Café Xangai e para falar com o carpinteiro. Era dia de feira, estava Freixo cheio de gente como nunca vi.

Voltei para continuar o chão. A verdade é que o trabalho solitário, as dores e o calor deitam qualquer um abaixo, mas quando se conclui que o trabalho não corre bem, o intelecto reage ainda pior, e vamo-nos abaixo. Foi o caso dontem, ao notar que parte do trabalho anterior não tinha corrido bem e que, mesmo sabendo disso, não conseguia dar a volta e fazer bem.

a sala

Tudo mudou hoje. Para além ter passado a ter todo cuidado do mundo com a água que uso para molhar o barro antes de aplicar a segunda camada, passei a aplicar o barro extremamente molhado (quem me ensinou falou-me em 'goma', e acho que o termo é correto). Assim, o remate final com a palustra é um ligeiro afagar duma 'goma' molhada. A palustra desliza como uma prancha de surf sobre uma onda.

a sala

E nota-se no resultado. Como a camada final é aplicada quase líquida, a água faz com que não sobrem espaços entre as areias e o barro, o que dá origem a uma superfície homogénea.

a sala

A Clementina deu-me a provar o doce (compota) de tomate acabada de fazer. Espalhei-a, ainda quente, sobre uma fatia de pão. Os turistas hão de fazer filinha, tia Clementina.

Ainda agora, seguia-me o Trovão a caminho da escola quando o vejo a largar encosta acima. Logo atrás dele seguiu a Fidalga. Seguiam atrás de um gato pardo, gordo e de cauda espessa. A perseguição continuou pelos pinhais, com cães de todo o lado a juntarem-se à festa. Ou é de mim ou era um gato-bravo.

Centésimo décimo oitavo dia - infiltração

O picheleiro voltou de manhã para acabar o serviço. A bomba de calor ficou presa à parede, igual para os lavatórios. Falei-lhe do episódio do tubo de gás, e do meu medo de igual azares para os tubos da água e da luz. Tentou tranquilizar-me apontando para o contador: se a água está a correr vê-se a bolinha a girar. Olhei com algum cuidado. Nada parecia mexer-se.

Durante o dia continuei a trabalhar na sala. O processo é muito lento e cansativo, e estou sempre a sentar-me e a levantar-me, seja para mudar de caixa seja para ir buscar mais barro. Com o barro húmido é mais fácil um bom acabamento, se bem que o espalhar do barro na caixa, antes de usar a palustra, é mais complicado.

começando o barro

Ao fim da tarde surgiu a notícia previsível. Duas caixas de saibro estavam molhadas, sinal de fuga de água. Ainda pensei teria sido um problema semelhante ao do gás mas logo concluí que a água vinha da ligação ao autoclismo, que infiltrou água na parede, e dá para o chão. Cortei a água, telefonei ao picheleiro e fiquei a rezar para que seja só isso.

*!?

Ao ver os abelharucos pelo ar a tia Alcina chamou-os pelo nome verdadeiro: pitas-barranqueiras. Diz que quando se vêm no ar, lá no alto, que se sabe que aí vem vento.

Centésimo décimo sétimo dia - Púlpado

Dia agitado. O picheleiro levou o dia a montar sanitários. Volta amanhã para acabar. Eu passei a manhã às voltas entre Freixo e Moncorvo. Os homens da Câmara ligaram o ramal da água e o contador pouco depois do almoço. A casa já tem água, mas não tive coragem de a ligar. Amanhã testa-se.


sanitários

Deixei de ontem para hoje alguns retângulos com a primeira camada de barro a secar. Crivei algum barro e comecei a segunda camada, tendo o cuidado de molhar o barro que já estava colocado antes, que de ontem para hoje secou demais. A técnica, que consiste em aplicar o barro bem húmido e afagá-lo com uma palustra é demorado e intrincado. Neste momento sinto que não vou ter tempo de acabar o chão a tempo e horas sozinho, mas logo se vê.

começando o barro

Na semana passada vi o Amílcar a ler a Bola. Então tio Amílcar, não sabia que gostava de futebol. Olhe que é coisa a que não ligo nadinha. O Amílcar lia a Bola porque não tinha mais nada para ler. O genro, esse sim leitor assíduo, fazia questão de comprar o jornal todos os dias, e eram os jornais comprados durante a estadia do genro que o Amílcar ia lendo. Nem pensei duas vezes. Os jornais que vou lendo ou ficam no metro ou vão parar à reciclagem. Passei a deixá-los ao Amílcar, e dá gosto vê-lo a ele e à Clementina, de óculos postos, a virar cada página com tempo e atenção.

Passadas as sete, deixei o trabalho para trás e fui dar a habitual volta ao Púlpado com a Fidalga e o seu bravo escudeiro, o Trovão. Levei a máquina, antecipando os contrastes que o pôr do sol traria. Comi tantas amoras que nem quis jantar.

a caminho do Púlpado

O vento bule na copa dos pinheiros. Já se sente o frio.

Centésimo décimo sexto dia - barro

Como na semana passada, saí do Porto pelas nove. Não havendo gente na obra e mantendo-se o cansaço, não há pressa de voltar.


Pus-me na obra pouco depois das três. Depois de um rápido telefonema inquiridor, voltei à carga no barro. O quadradinho que deixei feito sábado passado soava a oco. O erro foi não ter molhado o saibro antes de aplicar o barro. Comecei no canto da sala, junto à salamandra. De início usei a misturadora emprestada para juntar o barro com a água num balde, mas logo a mandei às urtigas e voltei à fiel enxada, que combinada com um carrinho fazem de qualquer sonso um mestre das argamassas.

começando o barro

O segredo está em garantir a ligação entre as várias camadas. Deixar lanhos, que serão ocupados pela camada seguinte. E garantir a humidade. 'A água é o prego do cimento', já dizia o outro.

começando o barro

Demorei a arrancar mas agora corre tudo asinha. Deixei alguns retângulos com a primeira camada de barro para amanhã experimentar a camada final. Crivei um pouco e funciona, as areias maiores e a palha ficam pelo caminho.

embarro emcrivado

embarro emcrivado

Dois abelharucos namoram por cima da casa, enchendo o ar de trinados impossíveis.

Centésimo décimo quinto dia - Zirinha

O senhor Serafim, abençoado, tirou o sábado para continuar o azulejo, que já não me assusta tanto como ontem. O trabalho ficou terminado.

azulejando

Juntei nova equipa para o saibro, constituída pelo núcleo central do PAVC, por uma competentíssima misturadora de saibro e por uma octogenária chamada Alzira cuja função na equipa passava por dormir, e por insultar todo o mundo enquanto acordada. Dona Zirinha.

Durante o dia despachámos o saibro na cozinha, em bom ritmo, sem lesões. Ao fim da tarde, antes de sair, testámos o barro, no quadradinho mais pequeno que encontrámos. Chegar à consistência certa não parece tarefa fácil, usando um balde e uma misturadora elétrica (e sabendo que faltam 45,9 metros quadrados para encher), e aplicar a primeira camada tem ainda de ser aprimorada. Talvez com a talocha.

Tivemos uma visita inesperada: um sapo, certamente a refugiar-se na humidade recente do saibro. Apareceu já dentro da caixa, um sortudo que soube mexer-se a tempo de sobreviver.

safaste-te de boa

Centésimo sexto dia - batman

Talvez o dia mais difícil de passar até agora. Disse-me um taxista conhecido, em Freixo, que estariam 36°. E quando o sol surgia por detrás das nuvens. Deus meu.

O dia comecei-o cedo, como já é hábito. Tinha de descarregar o carro, em parte cheio de material para a terra batida, por outro lado carregadíssimo com o essencial da loiça sanitária para a casa. Testei também uma mangueira nova, ligada à torneira da banca dos meus avós. A mangueira servirá para humedecer o saibro e para molhar o barro, a usar no chão. 

Os carpinteiros começaram com o reguado (para conter a terra batida) no quarto de cima. Como eu esperava que as réguas fossem de contraplacado (1,8 centímetros de espessura), disse ao carpinteiro que podia cortar as réguas transversais, que serviam como bitola, com 18 centímetros, e as compridas vinham com folga e acertavam-se na obra. Para minha surpresa, as réguas eram de madeira maciça e tinham mais de 2 centímetros de espessura. Ao juntar-se as réguas todas não batia certo, portanto todas as bitolas tiveram de ser acertadas um milímetro. Como em tudo na vida, só custa à primeira.

o Carlos em ação

desfasado

quarto, sala, cozinha. assim se faz uma casa

Com o trabalho a avançar a bom ritmo (e como ninguém me fez o almoço em Martim Tirado), rumei a Freixo, para rango pago, uma máquina de lavar roupa para escolher e uma incrível exposição de arte quinhentista para visitar. Não sei quem se lembrou de inventar que teria sido Grão Vasco a pintar as telas (que fazem parte do retábulo da Matriz e foram recentemente restauradas na biblioteca, já que os freixenistas fizeram barulho e não deixaram sair as telas), mas a exposição vale bem a pena. Aconselho a visita agora, que as telas estão à altura dos olhos, porque em setembro voltam ao retábulo, e aí só de binóculos.

(não é Grão Vasco)

Ao voltar, uma contrariedade. A luz falhou, a vizinha não deixava ligar à casa dela, e o trabalho dos carpinteiros ainda mais atrasado. Sempre a apagar fogos, lá convenci a vizinha a emprestar a luz até ao fim do dia, e chamei o piquete da EDP para o conserto, concretizado ao fim da tarde. O impasse traduziu-se no trabalho inacabado.

Também por lá passou o senhor do gás, que selou o tubo furado na semana passada e o senhor dos materiais de construção, que me trouxe o barro. O saibro chega amanhã. 

Comecei a proteção da madeira. Da fita-cola de eletricista (um flop), passei para fita-cola de papel, mais apropriada à madeira mas ligeiramente mais larga. Tive de tirar o excesso ao X-ato, o que torna o processo mais trabalhoso. E ainda estou para ver se a fita-cola de papel não salta como saltou a de eletricista.

Pedi ao Zé Manel que me mostrasse um amendoal que o meu pai não herdou e que estaria ao abandono. E É GIGANTE. E eu que achava que as minhas quinze amendoeiras eram muitas. Ali haveria mais de cem, todas por limpar, o terreno por arar, silvas a prosperar. Talvez algum dia lhes possa dar a devida atenção.

Lá fora ouço o morcego, sempre a chiar. Talvez por isso não tenha insetos no quarto. Tenho o batman do meu lado.