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Octogésimo oitavo dia - ginjas


Com os homens longe da obra passei o dia ao telefone, a garantir que tudo o resto avançava. Num destes telefonemas, junto ao olmo já quase seco, notei as engarradoras junto de mim, na sua rotina imperturbável cima-abaixo dos olmos. São uns bichos pequenos, que parecem caber dentro de uma mão. O bico é comprido, apropriado para escarafunchar nos troncos das árvores. Os que me circundavam acumulavam insectos na ponta dos bicos, certamente para as crias, e soltavam de quando em quando um pio curto, apenas para marcar o ritmo da caçada.

a engarradora
(foto)

Hoje foi o Luís que me veio dizer para esquecer o enchimento das juntas do pavimento. Segui no que estava a fazer. Já falta pouco.

Cansado de crivar terra, subi à gingeira para sacar o fruto. Não sei porquê mas tinha 1/3 das ginjas do ano passado. Aos ramos a que não chegava cortei-os. Dizem os velhos que ginjeiras e cerejeiras podam-se ainda com a fruta na árvore.

Quadragésimo segundo dia - cabeça de bode

dia-a-dia: mais madeira

Convencido pelo sono, deixei-me ficar pela cama mais um pouco. Não soube a muito, mas sempre são cinco minutos longe do FRIO GÉLIDO que é esta casa.

Na obra residia o caos. Carpinteiros, pedreiros. A meio da manhã chegou o picheleiro. Comigo, chegámos a ser sete homens. Mais para o fim da tarde ainda veio um pintor. Mais um pouco e fechávamos a equipa de futebol.

O telhado compõe-se. Os homens acabaram os caibros de baixo e avançou-se para cima. A asna de madeira ficou meia feita, os cúmeos estão colocados. O empreiteiro juntou colorido à cena vindo para a nossa beira pintar as hastes com antiferrugem. Até parecia uma família.

uma peça de cada vez

encosta

a lente está suja

De resto pouco fiz. Tanto ia ver os olmos vivos e marcar os mortos como ia para dentro da casa checar medidas ou ajudar os homens com as madeiras.

O Luís encontrou a caveira dum bode. Bééé.

medo

Trigésimo segundo dia - de volta

dia-a-dia: a obra, antes do sol subir

Cheguei à obra, pela primeira vez, exatamente às sete da manhã. Tive o azar de escolher o dia em que os homens chegaram mais tarde - a retro às oito e meia, o Paulo, o Hugo e o sô António pouco depois. Não por culpa deles mas por mais uma falta de comunicação, que me passou ao lado.

 Enquanto os homens não chegavam fui preparando mais um varejamento, desta vez nas três amendoeiras da horta, que me tinham escapado do outro dia. Os homens chegaram e deixei o fardo no chão, preparado para começar. Nas atividades do dia contavam-se descarregar as pedras do Poio e colocar soleiras, ombreiras e toiças no sítio. Para isso servia a máquina. Falei com os homens se estava tudo certo e distraí-me com algo, não sei bem o quê. Quando voltei para junto deles já as soleiras e uma ombreira estavam colocadas. Alçava-se a cinta para agarrar a segunda ombreira quando, como que por premonição, me lembrei de verificar a conformidade da ombreira. Não sei se em puro terror se extasiado por ter previsto o momento, descobri que a ombreira vinha com defeito. Depois de duas portas e quatro janelas colocadas, depois de mês e meio à espera das pedras para a última porta, e eis que a penúltima pedra a colocar vinha com defeito. Não com o defeito do costume de as medidas feitas não com a serra mas com o escopro não serem de fiar, mas o defeito de a ombreira não trazer o degrau pedido, que facilitava o encaixe da porta, à moda antiga. Altercação, contestação, eu a ver a minha vida a andar para trás. Não queria parar de novo a obra mandando a pedra de volta e também não queria uma porta imperfeita. Já chegávamos a uma solução, em que se colocava a pedra como se esta não tivesse o defeito, era apenas preciso fazer crescer a soleira com uma pedra extra, os homens até já sabiam como, mas depois a toiça não encaixava, quando a solução perfeita surgiu: serrava-se a soleira e fazia-se uma ombreira sem degrau. Os homens perceberam e logo apontaram para o antigo galinheiro, é isso, é isso, explicava-me o Hugo, é com dobradiças, e eu espantado em ver que fazia mais sentido para eles do que para mim. O Paulo arranjou a serra, cortou-se o pedaço de soleira a mais e lá se fechou a porta. Não ficou como no desenho, mas também o desenho que se lixe. Venha a viga-lintel e o telhado.

o grande-mestre da precisão em ação

ora digam lá quem é que percebe disto

esta já não cai

como no tempo dos megalitos

já só faltam os candeeiros e as mesinhas

Seguiu-se o menir, deitado abaixo pelo ímpeto demolidor do ramalhete no dia da demolição. Nada de muito complicado. Por último, os caboucos para o esgoto, ligando as casas de banho a caixas de serviço e destas à fossa. Arrancaram-se mais umas árvores, no caminho da fossa, e cada vez mais me vejo a plantar aveleiras (avelaneiras, segundo o Ramalhete) no seu lugar, já que os olmos estão condenados.

a obra ao meio-dia

Testei também as lajetas vindas do Poio no topo das paredes.

lajetas ao topo

Mal a manhã começou passei por Freixo à procura de uma chave perdida e para uma conversa com o empreiteiro, para acertar contas anteriores. Passei pelo Marelo, serralheiro mecânico, para saber das vigas, e pelo Carapuça, para saber das madeiras. O que ele me mostrou deixou-me de sorriso aberto o resto do dia: um pedaço de teto! Uma amostra com caibros, cúmio e forro. O forro foi feito por ele a meu pedido, a partir de serração de caibros. Uma beleza de se ver. Falta, no entanto, o verniz, que o Bruno me garantiu ser invisível. É ver se é. Ou não ver. Ou é. Ai.

isto é um teto

Até às três e pico acabei de varejar as amendoeiras e ainda apanhei uvas da parreira da horta. Continuo a não gostar dela, as uvas não são boas, mas estavam maduradas e deixar estragar é pecado. A Clementina ajudou-me no varejamento, e quando lhe falei de cortar umas silvas à volta da última amendoeira trouxe-me um clabouco clagouça para o fazer. A ponta parece a ponta do podão mas mais pequena, e está na ponta de um pau comprido. Muito prático. Tenho de arranjar um.

Vigésimo quarto dia - podão

dia-a-dia: não há novidades na frente sudeste

Cheguei e encontrei o tio Virgílio, que se não é homem-macaco é pelo menos homem-esquilo (que também existem nas Quintas - os esquilos, isto é), a meio caminho entre a base e o topo dum olmo. Parecia agarrado à árvore em desespero, para não cair, mas era a posição de muitos anos a trepar a choupos e a olmos, elucidou-me ele. Mantinha-se agarrado e cortava, tudo ao mesmo tempo, como se de atos semelhantes se tratassem. Encheu dois sacos com a folha (para dar à cabra), que colocou nos alforges do macho. Ainda me pediu a lenha que sobrou. Vê-se que viveu a época que viveu, e não a nossa, de luxo descartável.

tio Virgílio, a caminho do chão

as folhas do olmo, prontas a comer

isto é um podão

o transporte para as folhas do olmo

Foi dia de churrascada, apreciada e muito elogiada sob os ramos dos olmos. O Paulo cozinhou barrigas e eu, o Sô Paulo e o Hugo comemos. Na preparação do pitéu, à procura de pinhas num barraco, encontrei o que poderá ser a descoberta mais valiosa (em termos monetários) do projeto: uma camisa da Mocidade, ainda fina e com o verde viçoso, que o meu pai diz ter pertencido ao seu irmão mais novo. A etiqueta dizia 'Luanda'.

almoço sob os olmos (e sobre a erva)

(nota: este não é um blogue fascista)

Décimo oitavo dia - o botelho

dia-a-dia: o Paulo e o Hugo e uma parede avançada

Levei o picheleiro à obra para marcar a localização dos tubos de esgoto para sanitas e afins. Eu abria as plantas, media entre as paredes e riscávamos o chão com giz. A certa altura ou ele ou eu reparámos que as nuvens que nos encimavam eram mesmo de chuva e pouco faltava para que a água levasse o giz. Cravámos tinta ao Luís (como sempre, homem santo) e pintámos sobre o giz. Umas horas passadas, depois duma chuvada de levantar as pedras da calçada, as marcas de tinta ainda lá estavam. Para a semana comprovo se ele percebeu o que lhe disse.

Entre uma coisa e outra passei por Freixo. A Maf e a Alice estavam a fazer uma reportagem sobre o ciclo da seda. Sobre como de uma caixa em que algumas borboletas fodiam e outras morriam e outras punham ovos e destes nasciam lagartas que comiam folhas de amoreira para ganhar coragem para fazer casulos na arçã para depois se matar o bicho e fazer seda do casulo. Tanta trabalheira para uma ou duas écharpes de resultado. Bah. As amoreiras, no entanto, são muito bonitas. Talvez as use para substituir os olmos que estão a morrer, pobres coitados.

uma amoreira, em Freixo

Ao voltar a Martim Tirado fui mostrar as cabrinhas do Zé Manel às meninas. Como já têm tamanho que chegue para comer e tamanho de mais para mamar (o que dá menos queijos para vender), o Zé Manel põe-lhes um botelho na boca, preso aos chifres, para que deixem de mamar para comer como os adultos. O que acontece por vezes é que são as próprias mães a ajudarem-nos a soltar-se do botelho, como aconteceu a uma cabrita que lá estava.

a mãe diz à filha, vai lá pra dentro lavar os dentes (foto da Maf)