Preçário 2017

Este é o preçário para o ano de 2017. Mantivemos os preços do ano passado e alargámos a época baixa, o que significa na realidade uma redução de preços. 

Martim Tirado é uma terra bonita durante todo o ano mas aconselhamos o outono e a primavera como épocas preferenciais.


Primeira incursão pelo Trilho dos Moleiros

Foi numa fresca manhã de setembro que descemos às ribeiras de Martim Tirado. Fresca pela hora madrugadora, porque o dia seria de calor. A Fidalga, como não podia deixar de ser, guiou-nos pelo percurso.

A Portela pela manhã. Foto da Winkie Moon.

Fruto duma feliz associação entre as gentes da aldeia e o poder local, percebemos ao longo dos últimos meses que avançava a construção de um percurso pedestre dentro da aldeia de Martim Tirado. O percurso era bastante óbvio e já tinha sido por nós tentado: ligar a cota alta à cota baixa da aldeia, estabelecendo um percurso circular pelos vales dos afluentes da ribeira de Mosteiro (que desagua no Douro junto a Barca d'Alva)

As ribeiras eram a fonte de água da aldeia e onde se cultivavam hortas e se mantinham alguns pomares.  Por todas as ribeiras existiam moinhos (os de Martim Tirado eram especialmente afamados por se manterem em funcionamento verão fora) e, onde não era possível o cultivo, os trilhos que existiam eram apenas utilizados pelos moleiros ou pelos pastores. É essa a razão de ser do nome do percurso: Trilho dos Moleiros.

Um percurso com a mesma ideia (mas uma escala mais modesta) estava já disponível na nossa página para quem o quisesse percorrer. Chamei-lhe Fonte da Saúde.

O Trilho dos Moleiros, o novo percurso na aldeia, tem um início semelhante a este. Tomando a Quinta dos Baldo como início, e no sentido dos ponteiros do relógio, percorremos a estrada até à Portela, onde se encontra a bela casa do Avelino, uma das poucas da aldeia com dois pisos. Em frente a esta encontram-se as escolas, a antiga e a nova.

A casa do Avelino. Foto da Winkie Moon.

Continuámos pelo asfalto até à Eira do Incenso, onde mora grande parte dos habitantes da aldeia. Depois do depósito de água e antes do tanque virámos à direita. Entre as casas procurámos um estreito caminho. É por este caminho, entre campos e amendoais e belos muros antigos, que começámos a descida às ribeiras. À direita, mais acima, ainda vemos as escolas, por onde passámos antes. É a partir daqui que entrámos num caminho franco, em terra batida, que nos levará durante os próximos quilómetros.

O caminho até à Fonte da Saúde segue sem grande história. O vale é aberto, a descida faz-se bem e apenas as formações rochosas do lado direito nos chamam a atenção.

Xistos recurvados.

Ao chegarmos à Fonte da Saúde encontrámos o primeiro curso de água digno desse nome, a ribeira da Saúde. Encontrámos também a tia Isaltina, que lá tem uma horta alugada.

Conversa de horta. Foto da Winkie Moon.

É na fonte da Saúde que os caminhos se separam. Enquanto que o nosso percursozinho seguia pelo vale da ribeira da Saúde, em meia encosta, até encontrar as casas do Canto e logo a seguir a Quinta dos Baldo, o Trilho dos Moleiros segue em linha reta, encosta acima. Já uma vez tentámos este percurso, mas a inexistência de caminhos abertos pelas ribeiras impossibilitou-o.

Encosta acima seguimos na direção da Eira das Vacas, cujas casas abandonadas dominam um pequeno planalto. É tempo de voltar às ribeiras.

Até chegarmos à ribeira de Freixo (da qual a ribeira da Saúde é afluente) o percurso é feito em meia encosta, que já terá ardido por várias vezes e com pouca vegetação. É daqui para a frente, depois da barragem da Ferradosa, que o percurso se torna deveras interessante.

Ainda na Ribeira da Saúde. Foto da Winkie Moon.

É quando mergulhámos (metaforicamente e literalmente) nas ribeiras que nos apercebemos da riqueza que ali está escondida. Enquadrada por encostas abruptas e desnudadas está uma galeria ripícola fresca e rica, à espera que os montes recuperem a sua floresta nativa para que façam de novo parte dum mosaico florestal como o que existiu antes da presença humana. Esta "floresta linear" tem freixos, choupos e amieiros, mas também pilriteiros e sabugueiros. Os pilriteiros, esses, são dignos de visita, por ascenderem a dimensões invulgares.

Um dos pilriteiros de grande escala.

O correr das águas atrai pássaros e libelinhas e todas as outras formas de vida que não vimos mas adivinhamos. Num sítio tão pouco percorrido as espécies mais ariscas da nossa fauna fazem a sua vida sem perturbação, e são estes abrigos da natureza que garantem a sua presença no território.

Jacuzzi natural. Foto do Hugo Borralho.

Por todo o caminho encontram-se também inúmeros moinhos, e muitos deles mantêm ainda as paredes e os mecanismos de moagem. Um deles preserva ainda os caneiros que conduziam a água das levadas para o interior dos moinhos e mesmo um tubo gigante de granito que aumentava ainda mais a pressão da água para que as mós moessem ainda mais rápido.

Os incríveis caneiros, ainda em bom estado.

Pela Raivosa até ao Mixordo fomos encontrando algumas cascatas de ação humana que puxam ao mergulho. Uma delas tem mesmo uma pequena ponte e um espaço aberto junto a um moinho, que convida a um piquenique e a um tempo bem passado com os amigos.

Perfeito para piqueniques.

Também notáveis e dignas de visita são as formações rochosas que consistem na ação da gravidade no xisto, o que lhe dá uma forma torcida. Estas formações são apenas visíveis pela erosão causada pelas ribeiras, que tem o seu clímax mais a jusante, antes da foz da ribeira de Mosteiro, junto a Barca d'Alva. Algumas das formações parecem quase entradas de cavernas.

O que haverá do outro lado? Foto da Winkie Moon.

Como exploradores. Foto do Hugo Borralho.

O regresso à Casa é o ponto mais desfavorável do percurso. Desde o Mixordo até à Casa é sempre a subir, a sombra é escassa e a paisagem tem menos estória.

Em resumo, este é um percurso de cerca de 10 km que percorremos em 6 horas. Pode ser percorrido em menos tempo, mas são tantas as razões para parar que não o aconselhamos. Apesar de nas ribeiras a sombra ser muita há uma parte boa do percurso que é feita a descoberto, pelo que se recomendam alturas do ano mais frescas ou, se lá estiverem no verão, que comecem cedo. Desta vez fizemo-lo no sentido dos ponteiros do relógio, por isso guardamos para a próxima caminhada a certeza de qual o melhor sentido para o percurso.

Postal instantâneo.

O percurso ainda não está marcado nem existe ainda qualquer material informativo ou de divulgação. Esperam-se novidades para os próximos tempos. Até lá, fica o gpx e o kml do percurso para quem o quiser percorrer. Em baixo está o percurso no OpenStreetMap, ainda com alguns erros:


Aqui estão as fotos do percurso, tiradas por mim e pelos demais convivas.

Foto do Hugo Borralho.

Preçário 2016

Este é o nosso preçário para 2016. Como prometido os preços mantêm-se, e apenas fizemos um ajustamento na definição de época alta / época baixa. Estamos abertos o ano inteiro. As alturas com um clima mais ameno são a primavera e o outono, mas Martim Tirado é bonito o ano inteiro.


Agora o Público

No espaço de um mês e pouco Martim Tirado foi referida nos dois jornais de referência em Portugal. Primeiro no Expresso, realçando a belíssima qualidade do nosso céu; depois no Público, com o trabalho feito pelo Arquivo de Memória na aldeia. A Isaltina e a Elisa, com todo o mérito, estão destacadas.




Estamos no Expresso

Com algum atraso, é certo, mas aqui ficam as imagens da nossa primeira aparição na imprensa escrita:




Não nos perguntem como aconteceu - na realidade, se alguém souber, que nos diga. Como é habitual, a ligação fica guardada na barrinha da direita.

Árvores com história: Ulmeiro [Ulmus minor]


"Quando Joana Carda riscou o chão com a vara de negrilho, todos os cães de Cerbère começaram a ladrar…” (José Saramago, 1994). Assim começa a “Jangada de Pedra” do nosso Nobel da literatura, dando relevo a uma árvore outrora muito comum e que hoje vai rareando. 

Conhecida entre nós como “Avelaneira-brava”, “Lamegueiro”, “Mosqueiro”, “Negrilho”, “Olmeiro”, “Olmo”, “Ulmeiro-das-folhas-lisas”, “Ulmeiro” e “Ulmo” falamos de uma espécie cuja origem gera alguma controvérsia. Para uns trata-se de uma espécie autóctone, que em tempos se estendeu a todo o país (sobretudo no Norte), para outros de um arqueófito (espécie que terá sido introduzida numa época anterior aos Descobrimentos, possivelmente ainda na proto-história, no milénio I a.C.). 

Trata-se de uma árvore de folha caduca, de copa ovóide, arredondada ou algo irregular, podendo atingir facilmente os 20 m de altura e, não raramente, os 30 m. Rebentando facilmente de touça, apresenta uma casca cinzenta, fissurada. As suas folhas, simples, ovadas, alternas, podendo medir entre os 8,5 e os 12 cm de comprimento por 6 cm de largura, são pontiagudas de margem dentada ou serrada, apresentando uma base assimétrica que é característica do género. As inflorescências são cimos (tipo de inflorescência que lembra um glomérulo e que termina numa flor) densos compostas por flores rosa-purpúreas que produzem frutos (sâmaras) orbiculares a ovados com 20x17 mm e que apresentam a semente no seu terço superior. 

Comum em quase toda a Europa, Norte de África e Ásia ocidental, é uma espécie que gosta de luz, preferindo os solos profundos, férteis, ocorrendo junto a linhas de água, fundos de vales e em bosques mistos, podendo chegar até aos 1700 m de altitude. Tolerando a exposição marítima e resistente à poluição atrai numerosos insectos (especialmente lepidópteros) que dele se alimentam. Floresce usualmente entre Fevereiro e Março e os seus frutos amadurecem entre Abril e Maio. 

A espécie (como todas as demais do género) tem estado em declínio constante, um pouco por todo o mundo, devido a uma doença designada grafiose (DED - Dutch Elm Disease, em inglês) que matou milhões destas árvores um pouco por todo o mundo (para se ter uma ideia, só no Reino Unido e desde os anos 70 a doença já matou cerca de 26 milhões de ulmeiros). Trata-se de uma doença provocada por fungos que são transportados por escaravelhos que se alimentam da madeira. 

Na mitologia os ulmeiros encontram-se relacionados, na maioria das vezes, com a morte ou com a administração da justiça ou ambos e, como quase sempre, são os clássicos gregos que nos dão conta dos primeiros registos escritos sobre a espécie. 

Na Grécia antiga os ulmeiros estavam relacionados com o cultivo das vinhas, as quais cresciam sobre estas árvores, que lhes serviam de tutores. Ao longo do tempo foram adquirindo outros valores simbólicos, considerando-se que eram plantados por ninfas, filhas de Zeus, o que conferia ao ulmeiro o valor de uma espécie sagrada. Este estatuto figura na Ilíada de Homero (Livro 6): os ulmeiros bordam o túmulo de Eécion, rei de Tebas na Mísia, morto por Aquiles. 

Tal como para os gregos, para os antigos ingleses, suíços e alemães o ulmeiro estava ligado à morte e passagem para outra vida e ainda hoje a madeira desta espécie (talvez devido à sua resistência) continua a ser usada para a confecção de caixões. Na mitologia nórdica, sobretudo germânica, a mulher tinha origem no ulmeiro e o homem no freixo. Pelo contrário, na região do Mediterrâneo, o ulmeiro apresentava-se como uma figura de masculinidade, ligada ao vinho e à dignidade. 

Os romanos, muito mais práticos que os “científicos” gregos, e especialmente muito mais interessados em benefícios, disseminaram a cultura da vinha apoiada no ulmeiro que se estendeu a todo o império só sendo abandonada nos séculos XVI e XVII, à exceção da Itália, onde se manteve. Por outro lado, achavam que os ulmeiros tinham capacidades de adivinhação por entenderem que estimulavam os sonhos (a árvore estava consagrada a Morfeu). Na Idade Média, juntamente com o carvalho, foi-lhe dado um novo significado: debaixo da sua copa administrava-se a justiça, costume que se alargou a Portugal, onde a imponência desta árvore conferia dignidade aos actos. 

Dotado de uma madeira “dura, mas fácil de trabalhar”, a qual depois de molhada pode ser moldada, o negrilho foi usado em Portugal sobretudo na construção e mobiliário, apresentando-se como uma árvore economicamente importante. Da sua madeira produziram-se deques, soalhos, mesas, cadeiras, balcões, partes de arados, carroças, carruagens, suportes para armas e muito outros instrumentos. 

Devido à sua resistência à humidade foi usado para construir partes de barcos (ainda hoje é uma das madeiras preferidas para estes fins) e, sendo extremamente resistente, era usado em todos os componentes de utensílios e objectos que necessitassem resistir à pressão e ao movimento, incluindo rodas de carroças e carruagens, suportes de tracção, etc. 

Por outro lado era costume que, chegado o final do Verão, se colhessem ramos e folhas. As folhas eram usadas para alimentar o gado (especialmente ruminantes e suínos) e os ramos para servirem de estacas nas culturas. Em momentos de necessidade também os humanos consumiam as folhas (tanto na forma de sopas como em saladas) ou farinhas, obtidas a partir da casca. 

Podendo crescer e atingir proporções majestosas, o ulmeiro era uma das árvores mais imponentes da nossa paisagem (antes da grafiose) e daí ser dito, nas nossas lendas, que local onde existissem ulmeiros podiam existir bandidos, os quais se ocultariam nessa magnífica árvore. Mas não acredite em tudo o que se diz. Do ulmeiro espere uma linda e fresca sombra e uma beleza, hoje escassa, que merece fazer parte da nossa paisagem natural e da sua implementação em parques e jardins. 

Rubim Almeida, publicado no Projeto das 100.000 Árvores.